sábado, 16 de janeiro de 2016

A Teologia de 'Daredevil'

Por Gutierres Fernandes Siqueira

A primeira temporada da série Demolidor[1] é uma das melhores que vi no ano passado. O que mais me impressionou na história desse super-herói de Hell's Kitchen, um bairro de Nova York, é o forte teor religioso da narrativa. Antes cabe um alerta: este texto do começo ao fim está cheio de spoilers, então, se você ainda não viu a série é melhor deixá-lo para ler depois.

A tradução do título no Brasil é ruim, mas a série tem o nome original de Daredevil, que pode ser traduzido como “temerário” ou “audacioso”, ou seja, uma “pessoa imprudente que gosta de fazer coisas perigosas”. A etimologia da palavra inglesa daredevil já mostra a tônica da história. A palavra é a junção do verbo “dare” (desafiar) mais o substantivo “devil” (diabo) e tem dois sentidos etimológicos: “aquele que é atrevido como o diabo” ou “aquele que desafia o demônio”.

Matthew "Matt" Murdock é esse personagem complexo. É alguém atrevido, mas que desafia o próprio demônio de Hell's Kitchen, mas conhecido como Wilson Fisk. Cristão, ele pergunta a um padre amigo se o diabo realmente existe. O padre responde positivamente e completa com uma frase memorável: o fato de o diabo existir com toda a sua maldade não torna você um homem bom. Ou seja, não é a maldade de Fisk e a sua destruição que acabará todos os demônios de Matt, mas é a reação ao seu próprio ser. O cristianismo ensina que a virtude não está na comparação de escala com a maldade alheia, mas sim no enfrentamento do próprio pecado.

Matt Murdock é também um super-herói perseguido pela culpa. A infância difícil marcada por um acidente e um pai fracassado traz a Matt o desejo de justiça. Todavia, entre a justiça e o justiçamento vingativo há uma linha tênue. Ele atua como advogado durante o dia e como justiceiro ao anoitecer. O advogado é apenas uma peça em um sistema de justiça com pesos e contrapesos, mas o justiceiro é ao mesmo tempo legislador, promotor, júri e juiz. O justiceiro é a própria tentação da encarnação de divindade. E é nessa relação complexa que nasce a culpa constante. Matt chega a pedir ao padre perdão prévio, mas o padre mostra a impossibilidade do pedido. A culpa, como diz o padre, não é algo ruim, mas é a consciência viva que permite a ação. O cristianismo, de fato, não olha a culpa como um limitador do homem, mas como o despertador sobre a realidade do mal contra a tentação de banalizá-lo. Ora, somente psicopatas não sentem culpa. E o peso da culpa é o primeiro passo para a mudança.

O vilão Wilson Fisk é também um personagem cheio de referências religiosas. Ele mesmo diz que Hell's Kitchen precisa morrer antes de renascer, parafraseando e distorcendo as palavras de Jesus. Na cena memorável de fuga do furgão da polícia, algo que só o cinema americano faz com maestria, Fisk conta que nunca foi um homem religioso, mas logo começa a narrar a parábola do Bom Samaritano com uma aplicação própria: ele se identifica com o salteador da história e não com o samaritano bondoso. Fisk teve igualmente uma infância difícil e especialmente marcada pela violência, mas a reação é contrária ao de Matt. Fisk não tem culpa, mas vergonha. Fisk não busca justiça, mas vingança, e como todo vingativo ele não suporta a humilhação pública. A reação de Fisk ao ser interrompido em um jantar com o seu grande amor, Vanessa, o leva a uma reação de extrema violência e, como não poderia deixar de ser, Fisk expõe a vingança  que se dá por causa da vergonha. Fisk lembra Caim: humilhado e amargurado que busca a violência para compensar o próprio rebaixamento. Caim e Fisk manifestam o que Helen Lewis definiu como a “fúria humilhada” [2]. O cristianismo ensina que a redenção começa no arrependimento e não no simples sistema de remorso e vergonha. O arrependimento vai além do reconhecimento de uma situação ruim, pois o arrependimento nunca casa com o ressentimento, mas apenas com a consciência da necessidade de uma mudança profunda. Fisk acredita apenas na própria violência como redentora. O cristianismo ensina que nem a violência é párea para a graça que redime. Sem derramamento de sangue, de fato, não há remissão de pecados, mas o único sangue remidor é do Cordeiro pascal e não da nossa própria fúria.

Há outras referências, mas vamos ficar por aqui, logo porque a segunda temporada pode trazer outras surpresas.





[1] Daredevil, EUA, 2015, Marvel e Netflix.
[2] LEWIS, Helen B. Shame and Guilt in Neurosis. Cit. In.: SANDAGE, Steven J. e SHULTS, F. Leron. Faces do Perdão. 1 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2011. pos 1569.