sábado, 30 de janeiro de 2016

O individualismo e a leitura superficial das Escrituras: duas marcas da espiritualidade evangélica contemporânea

Por Gutierres Fernandes Siqueira

O famoso crítico literário norte-americano Harold Bloom escreveu no livro The American Religion[1] uma ferrenha crítica aos evangélicos mais conservadores (ou fundamentalistas) encarnados na Convenção Batista do Sul. Embora sejamos evangélicos conservadores, objetos da crítica de Bloom, não é possível ignorar algumas observações pertinentes do autor. A crítica é feita à igreja americana, todavia é totalmente aplicável ao Brasil, talvez o país mais parecido com a composição religiosa do protestantismo norte-americano, especialmente em seus defeitos. Vejamos alguns pontos da análise de Bloom.

O evangélico é radicalmente individualista

A experiência pessoal de um Deus que intervém de fora para construir uma ordem adequada ao meu próprio eu é fortemente enraizada na crença evangélica. Literalmente o evangélico se enxerga como o centro do mundo físico e até do cósmico. Não é à toa que a promessa de Deus a Abraão em Gênesis 12 é lida por muitos como uma realidade para a sua própria vida. No lugar de olhar para Cristo como o cumprimento da promessa, o evangélico vê em si a concretização do sonho de Abraão e tenta transportar até mesmo a prosperidade material do antigo patriarca para os dias de hoje. Outras promessas específicas para Israel como nação, também, são individualizadas e abraçadas como próprias.

O psiquiatra cristão Dan Blazer, refletindo sobre esse ponto levantado por Bloom, escreve como o individualismo evangélico despreza o senso de comunidade tão presente nas Escrituras. Vale a pena ler essa extensa citação:

A religião americana não incentiva a vida em comunidade ou a confissão, porque o individualismo da sociedade americana direciona sua religião para a solidão interior. Os evangélicos enfatizam o Jesus ressurreto em vez do Jesus crucificado e, portanto, anteveem um eu revitalizado em vez do eu sofredor. Assim como os gnósticos dos dois primeiros séculos da era cristã buscavam conhecer seu espírito interior e uni-lo à luz divina, a salvação para o evangélico não vem através da comunidade ou da confissão congregacional, mas através de um relacionamento pessoal e íntimo com Jesus. [...] Muitos dos pacientes de quem tratei, vindos de tradições de fé evangélicas, tendem a flutuar de uma congregação a outra. Se surgem problemas no companheirismo dos membros da igreja (e eles são muito prováveis de surgir se a pessoa está sofrendo emocionalmente), a solução mais fácil é mudar-se para outra igreja, talvez até mesmo se comprometendo com um diferente (mesmo que em detalhes) conjunto de crenças. [...] Dentro de uma comunidade evangélica, alguém pode flutuar através de um mar de sutis variações na doutrina e por uma variedade de congregações cristãs. Esse fenômeno é incompreensível para meus amigos judeus quando o descrevo para eles. A fé para um judeu significa ligação à comunidade, a Israel, através de uma longa e sofrida história. A fé não pode ser separada da comunidade ou da história. Contudo, para os evangélicos problemáticos, isolar-se de alguma tradição religiosa ou da comunidade é uma experiência muito comum.[2]

O forte individualismo evangélico proporciona cenas comuns como o culto substituído pelo show, a comunhão de pequenos grupos pela multidão em grandes auditórios, o canto congregacional pela música de espetáculo e, como diz Blazer, o trânsito religioso. A falta de senso de comunidade na espiritualidade evangélica é um problema tão sério que já é objetivo de extensos estudos na academia[3].

Em parte, tal crença individual que parece honrar Jesus, na verdade o despreza porque joga fora a própria ideia de Igreja. Um dos princípios da igreja é a sua catolicidade, ou seja, sua universalidade. A Igreja não é sectária, nunca toma a parte pelo todo. Nem torna o individualismo o centro do seu relacionamento. A Igreja é corpo, um conjunto de partes, sem nenhum desprezo e esmagamento das individualidades, mas também sem nenhuma pretensão de reinado de egos. A Igreja quando despreza a sua catolicidade se torna um conjunto de brigas infinitas de egos.

A crença na inerrância bíblica não reflete na qualidade de leitura do evangélico

Bloom diz que a “maior verdade podemos descobrir sobre o grito de guerra fundamentalista sobre a ‘inerrância bíblica’ é que não tem quase nada a ver com a experiência real de ler a Bíblia”[4]. Ou seja, nem mesmo a crença tão firme que a Bíblia é a própria Palavra de Deus, sem erros, faz do evangélico um leitor atento da Bíblia. O que sobra é a superficialidade bem manifesta nos sermões de cada domingo. O livro sagrado que era símbolo de liberdade dos batistas nas guerras civis da história americana no século XVII, hoje é apenas um monumento estático para reafirmação das próprias ideias. A contradição nasce justamente em como a Bíblia é mal tratada no grupo que jura ter nela a sacralidade isenta de erros.

O crítico literário ainda cita a boa observação de Ellen M. Rosenberg. A autora diz que o mundo evangélico estrutura suas crenças com generalidades e ambiguidades. E a Bíblia, assim, torna-se um quebra galhos de autoafirmações baseadas em crenças sociais e tradicionais. No púlpito evangélico a Bíblia é muito pregada, mas pouco interpretada, é muito brandeada, mas pouco lida.  O livro é lido no culto apenas como um pontapé para a mensagem que vem a partir do próprio pregador, e não do texto referido. Ou, como diz Rosenberg, a Bíblia é apenas um talismã.

O neofundamentalismo, cita Bloom, quer uma infalibilidade densamente substancial, diferente de John Gresham Machen, a quem ele chama de “mente extraordinária”, que era um homem de “fundamentos” sem desprezar as complexidades e ambiguidades da própria história e da linguagem religiosa. Bloom brinca que hoje inerrância significa “texto não lido”, ou seja, como se a Bíblia fechada falasse por si. Não há leitura, preocupação exegética, tratamento sério com o texto. O que resta é o analfabetismo funcional.  

A crítica ao individualismo não quer dizer nenhum apoio a coletivismos. Assim como o homem não é um ser isolado, o mesmo não pode ser diluído numa multidão uniforme. A fé cristã respeita a individualidade. A comunhão demanda indivíduos diferentes e complementares. Comunhão não é coletividade. 
_____

Ler tal crítica de pessoas que não pertencem à fé cristã evangélica, aliás, nem mesmo da fé cristã, mostra com as pedras ainda clamam. É possível ignorar tais observações? É claro que não. É urgente a superação do individualismo e da superficialidade na leitura e explanação da Palavra. 



[1] BLOOM, Harold. The American Religion: The Emergence of the Post-Christian Nation. 1 ed. New York: Simon & Schster, 1992. pp. 203-258.
[2] BLAZER, Dan. Freud versus Deus: Como a Psiquiatria Perdeu a Alma e o Cristianismo Perdeu a Cabeça. 1 ed. Viçosa: Editora Ultimato, 2002. p 171-172.
[3] “Existe hoje no Brasil um contingente significativo de evangélicos, principalmente nos grandes centros urbanos, que estão sempre circulando de igreja em igreja. Não criam raízes, não conseguem cultivar relacionamentos e são avessos aos compromissos que normalmente surgem do relacionamento entre o fiel e a igreja: frequentar os cultos, contribuir sistematicamente com a igreja local e participar de suas atividades”. [ROMEIRO, Paulo. Decepcionados com a Graça. 1 ed. São Paulo: Mundo Cristão, 2005. p 159.]
[4] BLOOM. Op. Cit.  p 219. 

2 comentários:

Nando Jesus disse...

Cirúrgico. Justamente alguns dos aspectos da "religiosidade" que debati com os jovens na EBD de hoje.

alvaro disse...

bem parecido com a realidade brasileira,será que não precisamos rever nossa teologia?