sábado, 6 de fevereiro de 2016

Uma breve resposta a Marcos Granconato

Por Gutierres Fernandes Siqueira

O teólogo Marcos Granconato, conhecido expoente do cessacionismo no Brasil, escreveu em sua página no Facebook uma breve explicação sobre o porquê ele acredita na cessação do dom de línguas. Leia o texto abaixo e em seguida veja a minha resposta.

Antes, por favor, peço o equilíbrio nos comentários, logo porque não estamos em um jogo de futebol, mas em um debate importante, porém sobre um tópico secundário da fé cristã. O cessacionismo é um equívoco, mas não uma heresia ou algo do tipo. O cessacionista merece respeito, especialmente porque continua sob a graça de Cristo como nosso irmão na fé.

Marcos Granconato escreveu:

O dom de línguas era a capacidade dada pelo Espírito Santo a alguns crentes de falar sobre as grandezas de Deus em um idioma humano jamais aprendido por quem falava (At 2.7-11). [...] Algo muito importante a ser levado em conta para entender porque esse dom acabou é que, ao definir o dom de línguas, Paulo citou Isaías 28.11-12, um texto em que as línguas figuram como sinal de juízo contra Israel. Com base nesse texto, Paulo afirmou que as línguas são um "sinal", ou seja, um sinal de juízo contra judeus incrédulos que rejeitavam a mensagem de Deus (1Co 14.21-22). [...] De fato, Deuteronômio 28.46,49 diz que ouvir uma língua desconhecida seria um sinal do juízo de Deus contra Israel sempre que esse povo rejeitasse sua mensagem (Jr 5.11-15). Ora, Israel rejeitou o Filho (At 7.51-53). Por isso, Deus usou a igreja para fazer com que os judeus daquela geração ouvissem línguas que não entendiam como sinal do juízo que estava por vir. [...] Esse juízo foi predito por Jesus (Mt 23.37-39) e chegou no ano 70 AD por mãos do general romano Tito. Tanto era verdade que línguas sinalizavam o juízo contra os que haviam rejeitado o Filho que, por razões não muito claras, os crentes de Jerusalém deixaram a cidade pouco tempo antes dos romanos chegarem e fugiram para uma cidade chamada Pelah, de modo que nenhum crente morreu durante o cerco e invasão de Tito. As línguas sinalizavam juízo contra os incrédulos e, de fato, somente os incrédulos foram alcançados por aquele juízo! [...] Uma vez que o castigo contra Israel sinalizado pelas línguas ocorreu, esse dom deixou de ser necessário e desapareceu. Obviamente, o fim do dom de línguas trouxe também o fim do dom de interpretação.

No capítulo 14 de 1 Coríntios o apóstolo Paulo disciplina a congregação sobre o exercício dos dons espirituais, especialmente o falar em línguas e a profecia. O capítulo é dividido normalmente em seis parágrafos que estruturam o desenvolvimento do argumento central, que é o princípio da edificação do corpo por meio dos carismas bem aplicados e disciplinados. É consenso entre os exegetas que o discurso paulino inserido entre versículos 20-25 é de difícil interpretação[1]. É curioso como a tese do Granconato está sustentada apenas em um trecho exegeticamente complexo. Como todos sabem, um bom princípio hermenêutico é sustentar uma proposta teórica em textos claros e objetivos, portanto uma doutrina que nasce baseada apenas em um trecho obscuro da Bíblia já é natimorto.


Não sei qual é a posição escatológica do teólogo Granconato, mas a interpretação que é feita por ele dos versículos 20 a 25 encaixa-se perfeitamente entre alguns intérpretes dispensacionalistas que enxergam o dom de línguas apenas como um sinal de juízo para os judeus. A tese dele é a mesma de Zane C. Hodges (1932-2008)[2] e John MacArthur Jr[3]. A argumentação exposta por esses autores, inclusive o próprio Granconato, é muito reducionista. Ainda que essa interpretação fosse a mais adequada, o que certamente não o é, esse texto paulino não é um único a fazer menção sobre o propósito das línguas. Por exemplo, como as línguas como devoção pessoal, mencionadas pelo apóstolo nos versículos anteriores (vv. 13-19) podem ser encaixadas apenas em um esquema escatológico já realizado? Outro lapso no argumento do Granconato é transpor o judeu rebelde de Isaías 28 para o texto paulino. Como lembra Carson, “o descrente em 1 Coríntios 14 é um gentio”[4].

Então, o que Paulo realmente quis dizer? Ora, o contexto ainda é a ordem do culto e não uma perspectiva escatológica. Nesse trecho o apóstolo mostra a necessidade de uma comunicação legível para os descrentes. O uso público das línguas estava expelindo o incrédulo da comunidade cristã por privá-los da revelação[5]. Ou como disse Horton: “as línguas transmitem ao incrédulo um sinal, apenas, e não uma mensagem”[6]. Ou seja, um descrente que entra na igreja e só ouve línguas sem interpretação será um completo alienado. O ímpio estará apenas diante de um sinal, no sentido negativo do termo, e assim como os antigos israelitas rebeldes, esse mesmo descrente só se fechará ainda mais em sua incredulidade. Anthony D. Palma escreveu: “as línguas que ouvem confirmam sua incredulidade, porque são um sinal da presença e da atividade de Deus, que continuam a rejeitar” sem entender[7].

Não há fruto de conversão em um culto sem ordem e decência onde a glossolalia toma as rédeas. Diz o pentecostal R. L. Brandt: “o uso coletivo e simultâneo deste dom não atenderia a este propósito (a edificação do ouvinte)[8]”. Hoje, infelizmente, a edificação não é um princípio observado por muitos carismáticos que tornam o culto, dentro de uma perspectiva externa, um verdadeiro ruído de comunicação, já que confunde a igreja com um hospício. Quantos descrentes vocês conhecem que possuem resistência à igreja justificando-se no barulho? Embora não ajam desculpas para não buscar a Deus, devemos evitar a alienação do incrédulo no nosso culto, logo porque “consequentemente, a fé vem por ouvir a mensagem, e a mensagem é ouvida mediante a palavra de Cristo” [Romanos 10.17 NVI].

Referências Bibliográficas:

[1] CARSON, Donald Arthur. A Manifestação do Espírito: A Contemporaneidade dos Dons À Luz de 1 Coríntios 12-14. 1 ed. São Paulo: Edições Vida Nova, 2013. p 110. Veja também: CIAMPA, Roy E. e ROSNER, Brian S. 1 Coríntios. em: BEALE, G. K. e CARSON, D. A. Comentário do Uso do Antigo Testamento no Novo Testamento. 1 ed. São Paulo: Edições Vida Nova, 2014. p 922.
[2] HODGES, Zane. The Purpose of Tongues em: Bibliotheca Sacra, Vol. 120. Julho- Setembro de 1963. p 226-233.
[3] MaCARTHUR JR., John. Fogo Estranho. 1 ed. Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2013. p 164. Veja especialmente a nota de rodapé do trecho em apreço na Bíblia de Estudo MacArthur (1 ed. Barueri: SBB, 2010).
[4] CARSON, D. A. Op. Cit. p 113.
[5] FEE, Gordon Donald. The First Epistle to the Corinthians. 1 ed. Grand Rapids: Eedmans Publishing, 1987. p 682.
[6] HORTON, Stanley M. A Doutrina do Espírito Santo. 1 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 1993. p 248.
[7] PALMA, Anthony D. 1 Coríntios. em: ARRINGTON, French L; STRONSTAD, Roger. Comentário Bíblico Pentecostal do Novo Testamento. 4 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2006. p 1029. Palma concorda com F. F. Bruce que escreveu: “uma comunicação divina em línguas estranhas, dirigida àqueles que são deliberadamento desobedientes, não fará nada mais do que confirmá-los em sua desobediência: permancendo ainda mais incrédulos”.
[8] BRANDT, R. L. Falar em Línguas: O Maior Dom? 1 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2005. p 79.

2 comentários:

fabiano tavares disse...

Parabéns pelo texto! Concordo em gênero, número e grau!

Anônimo disse...

Gutierres, a paz do Senhor.

Parabéns pela resposta sólida e bíblica. Você não acha que é, no mínimo, incoerente para um calvinista entender as línguas apenas como juízo contra os judeus incrédulos, enquanto sua teologia defende que a própria incredulidade foi determinada por Deus?

Que Deus continue te abençoando!

Davi