quinta-feira, 21 de abril de 2016

Jerry L. Walls e a identidade soteriológica das Assembleias de Deus

Por Gutierres Fernandes Siqueira

O cristianismo já possui dois milênios, mas a Igreja Evangélica Assembleia de Deus tem apenas 102 anos. A maior e mais influente igreja pentecostal do mundo é, e ainda será por algum tempo, uma criança histórica. Portanto, é inegável que alguns pontos de sua identidade ainda estão em formação. Seria ignorância e estultícia afirmar que uma denominação tão nova já esteja consolidada em todas as suas bases doutrinárias. Não, não está. De alguma forma, a identidade assembleiana ainda está em construção.

E quanto à soteriologia? É inegável a forte tendência arminiana na teologia oficial da denominação. Ou pelo menos anticalvinista, por assim dizer, nas expressões mais populares dos púlpitos e conversas entre crentes. Sim, a soteriologia assembleiana nas bases populares sempre foi mais reativa do que propositiva, assim não seria exagero afirmar que o que a caracteriza é mais o anticalvinismo do que o próprio arminianismo.

A segurança da salvação

Um ponto pacífico tanto entre pregadores populares e teólogos assembleianos, por exemplo, é a crença na possibilidade da apostasia. O que, naturalmente, aproxima os assembleianos dos arminianos, embora, é claro, nem todo arminiano rejeite a doutrina da perseverança dos santos. A frase “uma vez salvos, salvos para sempre” é quase anátema nos ouvidos de muitos assembleianos. Donald Stamps, autor da popular Bíblia de Estudo Pentecostal, escreveu: “a apostasia individual é possível somente para quem já experimentou a salvação, a regeneração e a renovação pelo Espírito Santo; não é simples negação das doutrinas do Novo Testamento pelos inconversos dentro da igreja visível” [1]. Em um documento doutrinário oficial do Concílio das Assembleias de Deus dos Estados Unidos de 1978 intitulado Security of the Believer (segurança do crente) se afirma: “A Bíblia reconhece a possibilidade de perder a salvação, mas nunca deixa de oferecer esperança para qualquer um que queira responder a súplica do Espírito Santo”. Em um texto mais acadêmico poderíamos citar mais referências, mas basta uma rápida consulta na bibliografia assembleiana para comprovar tal posição. 

Lembro esse ponto porque a forte crença na possibilidade da apostasia traz naturalmente uma barreira para qualquer ministro que queria se assumir calvinista numa Assembleia de Deus. Isso é bem observado pelo teólogo metodista Jerry L. Walls recoando Roger Olson no livro Qual o caminho das Assembleias de Deus: amor para todos ou somente alguns? (Editora Reflexão). O livro como análise do fenômeno calvinista entre assembleianos é bem fraco, logo porque, sejamos justos, não é a proposta primária. A obra serve como apologia do arminianismo em forma compacta para os pastores assembleianos. O único ponto analítico sobre o fenômeno em si é levantado sobre o conflito interno entre a doutrina assembleiana tradicional e os novos calvinistas a respeito da possibilidade de perda da salvação na soteriologia [2].

Walls lembra um artigo do teólogo batista Roger Olson [3], que aponta uma aparente contradição nos documentos oficiais das Assembleias de Deus, onde ao mesmo tempo se prega a possibilidade de apostasia, como no paper de 1978, mas não se condena totalmente a ideia de um ministro ser confessadamente calvinista. Olson estranha o tom permissivo do último documento An Assemblies of God Response to Reformed Theology publicado pelo Concílio em agosto de 2015. Ele pergunta: como um ministro pode ser calvinista e ainda estar em conformidade com a posição da denominação sobre a doutrina da perseverança dos santos?

O questionamento de Olson e Walls é bem pertinente. Embora, pelo menos no Brasil, a Assembleia de Deus seja oriunda de batistas, a doutrina da perseverança dos santos sempre foi contestada com certa paixão. Como alguém pode ser um pastor confessadamente calvinista sem confundir a congregação com tamanho choque teológico?

Em minha opinião sempre haverá algum grau de choque quando um pastor resolve destoar da opinião majoritária da denominação. Todavia, seria um erro a Assembleia de Deus retirar a sua tradicional tolerância para com opiniões teológicas divergentes. A tolerância ainda é melhor do que aguentar eventualmente algum choque em pontos específicos da soteriologia. Como isso, também, não quer dizer que a denominação não possa reafirmar e confirmar a sua natureza arminiana no decorrer dos debates. É possível consolidar aos poucos uma identidade sem uma caça às bruxas, como exceção, é claro, para quem viola radicalmente a ortodoxia.


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[1] STAMPS, Donald. Bíblia de Estudo Pentecostal. 1 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 1995.p 1903.

[2] WALLS, Jerry L. Qual o Caminho das Assembleias de Deus: amor para todos ou somente alguns? 1 ed. São Paulo: Editora Reflexão, 2016. p 35.

[3] OLSON, Roger. Patheos. My Response to “An Assemblies of God Response to Reformed Theology”. 2015. Acesso em: 21/04/16. Disponível em: http://www.patheos.com/blogs/rogereolson/2015/11/my-response-to-an-assemblies-of-god-response-to-reformed-theology/

5 comentários:

PB. João Eduardo Silva disse...

Paz de Cristo! Creio que os irmãos calvinistas devem ser respeitados dentro da Assembléia de Deus, mas que fique claro que a denominação é arminiana!!!

Pr. Alexandre Nery disse...

Guitierres, não entendi muito bem sua conclusão. Então, um pastor que ensine a segurança eterna em uma AD deveria ser tolerado? Entendo que não é correto uma caça às bruxas, e que nossa identidade está em construção. Mas posições desse tipo, ainda que não sejam heréticas, trazem muita confusão. Deixando claro que amo meus irmãos calvinistas e estudo em um seminário reformado.

Unknown disse...

Nasci e fui criado nas assembleia de Deus é minha posição é clara, Deus escolhe os salvos. Respeito a posição de todos.

César Lopes disse...

Concordo com o Pb João Eduardo e com o Pr Alexandre Nery. Também acho que a conclusão do Gutierres foi bastante confusa. Amado Gutierres, não concordo com suas palavras no início do texto ao falar da juventude da denominação. Parece que devemos encarar com naturalidade o fato de a AD ainda não ter feito e documentado resoluções teológicas importantes. Penso que a AD já deveria ter feito isso muito tempo atrás, a saber, quando se separou da Igreja de Cristo. A história está aí. A questão na época foi exatamente a Perseverança dos Santos. Se a AD tivesse delineado melhor sua orientação doutrinária naquele tempo, nós não estaríamos aqui falando sobre este assunto. A TULIP nunca foi uma doutrina assembleiana. A tolerância a posições diferentes deve ser mantida para membros, mas jamais para obreiros. A falta de identidade e unidade é uma coisa terrível.

Anônimo disse...

Falar em unidade, quando o corpo majoritário é a favor de uma caça as bruxas? Nos maiores centros do país até poderá haver essa tolerância, agora no interior? Igrejas em pequenas cidades? Se um ministro assembleiano inventar de levantar a possibilidade da TULIP, é enxotado.
Não creio que haverá unidade enquanto houver tentativas de manter uma sistematização teológica 'pura'. Tanto o arminianismo quanto o calvinismo tem seus pontos fracos: foram sistematizados por homens. Pecadores. Caídos.
Me dá ânsia ver que os assembleianos estão utilizando dos mesmos pressupostos que os presbiterianos clássicos: citarem mais as obras de Armínio (ou as Institutas, no caso dos Presbiterianos) do que a própria bíblia. As confissões de Westminster os Cânones de Dort são mais mencionados que os próprios versículos bíblicos, dotados estes de inerrância.

Essa é a chave. E estamos tropeçando na mesma pedra que nossos irmãos presbiterianos.
Se essa tentativa de erguer uma "identidade assembleiana" prosperar, será o fim da mesma.

Prova disso? Vejam o renascer das igrejas reformadas no país e se perguntem por qual razão?
As presbiterianas estão cheias de jovens ex-assembleianos ou filhos de pentecostais. Muitos mantém suas convicções pneumatológicas, mesmo em ambiente reformados.
Para os puristas, dentro da Presbiteriana, isso é um ultraje. Para os puristas, dentro da Assembleia, um ministro calvinista também é um achaque. Ambos estão errados.
Até quando ficaremos cegos para isso?

Ir. Soares