sábado, 9 de julho de 2016

Deus, o primeiro evangelista

Uma representação de Abraão em Rembrandt
Por Gutierres Fernandes Siqueira

O principal agente missionário não é o homem e nem as instituições eclesiásticas. “A missão é a atividade de Deus no mundo. Deus é o protagonista da missão”, escreveu Justo L. González e Carlos Cardoza Orlandi[1]. O conceito teológico Missio Dei expressa bem essa verdade teológica. Não é apenas a salvação que nasce do Senhor, mas a Sua própria missão. Jesus mesmo disse: “Eu sou a videira; vocês são os ramos. Se alguém permanecer em mim e eu nele, esse dá muito fruto; pois sem mim vocês não podem fazer coisa alguma” (João 15.5 NVI, grifo meu). Deus é aquela que envia e revela, sustenta e proporciona o crescimento de Sua própria obra. A missão de Deus se realiza em harmonia e perfeição na trindade santa. Portanto, “não é o bem-estar e a glória do homem, nem o crescimento e a ampliação da igreja, mas a glória de Deus torna-se o principal objetivo de missões, pois o ser e o caráter de Deus são a base mais profunda de missões”, como escreveu George W. Peters[2].

A teologia bíblica prega a unicidade de Deus. No coração do Pentateuco está escrito: “Ouve, Israel, o Senhor, nosso Deus, é o único Senhor” (Deuteronômio 6.4).  A encarnação de Cristo coroa essa unicidade ao nos presentear com um paradoxo espantoso e maravilhoso: o Criador do Universo, o ser atemporal e imutável, entra no tempo e no espaço. Ele é único, inigualável, mas ao mesmo tempo se parece conosco, ao ponto de um beijo traidor ser necessário para diferenciá-lo dos demais discípulos.  

A encarnação de Cristo é o ápice da ação missiológica de Deus. Jesus Cristo não somente entra na história, mas como se torna a norma da história, para lembrar uma expressão do teólogo suíço Hans Urs von Balthasar. Dessa forma, Deus é aquele que envia o próprio Filho para transtornar e transformar este mundo. É o todo no fragmento. É o imutável que crescia em graça e estatura. O Eterno que é morto. O Rei do universo coroado com espinhos. Ele ali estava como o Senhor da justiça diante da jurisprudência romana.

Todavia, há teologias que negam a realidade da encarnação. Não veem a Cristo como o próprio Deus em carne e osso. Jesus é até um “cara legal”, um grande mestre moral, dizem eles, mas não é divino. Nas chamadas “teologias liberais”, em sua manifestação acadêmica ou em versões populares, a salvação não é, também, tida como exclusiva em Cristo. Ele é apenas mais um caminho de nobreza e dignidade. Isso porque, sendo um sujeito histórico, Jesus não poderia servir como a realidade última e absoluta do mundo. Cristo estaria, por assim dizer, um tanto limitado pelo provisório e pela temporalidade para revelar o Absoluto. Nessas teologias, portanto, a salvação também pode ser encontrada em diversas partículas espalhadas pelo globo, sejam essas partes outras pessoas iluminadas ou expressões de fé, mas também a salvação está na motivação crescente à justiça proporcionada pelas ideologias utópicas. Ou resumindo, a fé da teologia moderna não passa de um novo moralismo. Não é o moralismo dos ascéticos, nem o moralismo do jansenismo, mas é o moralismo farisaico e pelagiano- uma velha tradição humana que, a partir da própria vaidade, faz uma análise do mundo do alto de sua santidade. Não que o pecado hoje seja o sacrilégio ou o adultério, mas são essências com o alimento com glúten, o bullying, o móvel sem madeira certificada e o conceito antecipado contra qualquer minoria. Assim como os antigos escribas, vejam vocês, o novo fariseu é bom de aparência e rápido em desprezar o descumpridor da lei.

O problema do liberalismo teológico é que lhe sobra muita fé. É a teologia mais fideísta que existe porque tem ela mesma a ingenuidade de ser crédula diante do homem e incrédula diante de Deus. É autoidólatra. Todavia, esse fideísmo excessivo despreza a beleza divina, especialmente a encarnação. A teologia liberal despreza o Deus em missão porque, na prática, mesmo entre aqueles que ainda mantêm algum teísmo, Deus não passa de uma realidade distante, totalmente transcendente, mas que contraditoriamente que se confunde com a própria criatura.

A teologia bíblica ensina a universalidade e a familiaridade de Deus. O nosso Deus não é tribal. Embora seja Ele o Deus de Israel (cf. Lucas 1.68), a essa nação não está limitado. Ele é o Senhor do Universo. Os anjos cantam: “Santo, santo, santo é o Senhor dos Exércitos, a terra inteira está cheia da sua glória” (Isaías 6.3 NVI, grifo meu). E o salmista louva: “Pois o Senhor Altíssimo é temível, é o grande Rei sobre toda a terra!” (Salmos 47.2 NVI, grifo meu). E o rei Davi ainda enfatiza: “Do Senhor é a terra e tudo o que nela existe, o mundo e os que nele vivem...” (Salmos 24.1 NVI, grifo meu). Ao mesmo tempo, Deus é de uma linhagem, de uma família: na concepção judaica a expressão “Deus de seus antepassados” (2 Crônicas 33.12) é mais do que mera sequência tradicional, mas é aliança em torno de uma nação e seus líderes. A base dessa aliança é a continuidade do compromisso de indivíduos, logo porque, Ele é o Deus de Abraão, Isaque e Jacó (cf. Êxodo 2.24, 4.5).  

A universalidade de Deus indica, em primeiro lugar, que a expressão cultural de um povo não é o todo e nem não esgota a manifestação de culto e fé em Deus. O conhecimento de Deus não depende de territorialidade; não é limitada pelo domínio humano sobre o espaço que lhe é comum. “Sai da tua terra”, ordenou Deus a Abraão (Gênesis 12.1), ou seja, rompa com qualquer compromisso com a sua cultura que esteja acima do compromisso com Deus. “O Deus que chama Abraão para ser uma bênção a todas as nações é o mesmo Deus que governa a história de cada uma delas”, como escreveu Christopher J. H. Wright[3]. No episódio onde Jesus encontra a mulher samaritana fica claro o entendimento dessa universalidade: “Creia em mim, mulher: está próxima a hora em que vocês não adorarão o Pai nem neste monte, nem em Jerusalém” (João 4.21 NVI). O cristianismo mostra que a fé não depende de um território, templo ou mesmo de uma cidade com sua cultura religiosa. Isso porque “Deus é espírito, e é necessário que os seus adoradores o adorem em espírito e em verdade” (João 4.24).

A universalidade de Deus não é universalismo. Deus quer que todos os homens cheguem ao conhecimento dele (1 Timóteo 2.4), mas, dentro de uma relação de liberdade, o homem pode resistir ao amor de Deus: “Homens de dura cerviz e incircuncisos de coração e ouvido, vós sempre resistis ao Espírito Santo; assim, vós sois como vossos pais” (Atos 7.51 ARC). Portanto, por causa do próprio homem, o universalismo, que é a ideia de que todos serão salvos, não tem lógica nem é possível, ao menos que Deus se fizesse de um tirano celestial obrigando todos a amarem a Ele.

O próprio texto de João 4 que indica a universalidade de Jesus rejeita, ao mesmo tempo, qualquer ideia relativista que a adoração de todos os povos, culturas e pessoas são atestados do “conhecimento de Deus” a partir de uma experiência sincera de fé. Jesus disse: “Vocês, samaritanos, adoram o que não conhecem” (João 4.22 NVI). Certamente que essa frase de Jesus é, digamos, um tanto intolerante, exclusivista e pouco afeita a relativização. Mas aí vem uma pergunta: aceitamos ou não a autoridade de Cristo? Caso não, qual a outra autoridade tomará o espaço dEle? Nenhuma? Impossível, ninguém vive sem autoridade, nem que seja a autoridade do próprio ego, chamada de autonomia, onde certamente é a mais limitada de todas: pois enxerga o mundo numa perspectiva estreita a partir de si.

A universalidade, ao mesmo tempo, tem sérias implicações. Abraão recebeu a promessa da aliança que a sua descendência abençoaria “todas as famílias da terra” (Gênesis 12.3). Ou seja, nessa aliança não há qualquer espaço para o nacionalismo, que é o orgulho de pertencer à determinada nação; não há espaço para o denominacionalismo, que é a ideia estúpida que a sua denominação é a única ou a melhor expressão do Reino de Deus nesta terra e nem muito menos para o orgulho racial.




[1] GONZÁLEZ, Justo L. e ORLANDI, Carlos Cardoza. História do Movimento Missionário. 1 ed. São Paulo: Editora Hagnos, 2008. p 23.
[2] PETERS, George W. Teologia Bíblica de Missões. 1 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2000. p 69.
[3] WHIGHT, Christopher J. H. A Missão de Deus: Desvendando a Grande Narrativa da Bíblia. 1 ed. São Paulo: Edições Vida Nova, 2014. p 488. 

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