sábado, 27 de agosto de 2016

A liturgia pentecostal

Por Gutierres Fernandes Siqueira

O pentecostalismo é muitas vezes tido como um movimento antilitúrgico, mas essa avaliação não se sustenta na prática. A marca da espontaneidade ainda vive, mas o culto pentecostal é previsível e há elementos comuns mesmo em diferentes culturas e contextos.  O Movimento Pentecostal sempre teve uma liturgia, embora não tenha produzido os chamados livros de orações, calendários de festas oficiais, uso exclusivo de hinários em cânticos, etc. É, obviamente, uma liturgia menos rígida, mas não deixa de ter certo aparato e ordem esperada.[1]


Os primeiros pentecostais sempre evitaram o uso das palavras liturgia e sacramento e usavam termos sinônimos como cerimônia e ordenança. Como uma reação ao clericalismo da época toda reafirmação de diferença era importante. As igrejas pentecostais ainda olham com desconfiança a sacramentalização da liturgia. Todavia, ao mesmo tempo hoje existe um reconhecimento sobre a necessidade dela. Exemplo é a Bíblia Obreiro Aprovado produzida por pastores assembleianos brasileiros. Essa obra contém um Manual Litúrgico onde se lê instruções para o culto dominical, a Ceia do Senhor, o batismo nas águas, o culto fúnebre etc. O teólogo Claudionor de Andrade, por exemplo, lembra que a liturgia é inevitável: “Só há uma maneira de se evitá-la: deixar de se reunir, e não mais celebrar publicamente a bondade divina”[2].  Ou seja, onde há verdadeiramente um culto há alguma carência de ordenamento.

A glossolalia: uma espécie de sacramento

Uma forte marca litúrgica do pentecostalismo é o uso da glossolalia na adoração. Assim, a glossolalia é uma espécie de sacramento na liturgia pentecostal.  O sacramento é na tradição cristã “o sinal sensível que manifesta a presença atuante e salvadora de Deus no meio de seu povo” [3]. A glossolalia é um sinal que se sente e se vê no enchimento do Espírito para o testemunho do Evangelho. É a forma que o crente se sente encorajado a uma missão. Assim, a divisão elitista entre povo e clero simplesmente acaba. A doutrina do sacerdócio universal de cada crente é mais viva no pentecostalismo pentecostal do que no protestantismo não-pentecostal, logo porque esse sacramento não é ministrado por um sacerdote designado, mas vem em cada crente que tem acesso livre ao poder do Espírito. Sobre esse ponto o teólogo Robert P. Menzies observa:

Gostaria de acrescentar que esse sinal (glossolalia) deve ter sido tremendamente encorajador para a igreja de Lucas, como é para inúmeros cristãos contemporâneos. Expressava a ligação que tinham com a igreja apostólica e confirmava a identidade de cada membro como profeta do fim dos tempos. Acho interessante que tantos crentes de igrejas tradicionais de hoje reajam negativamente à ideia da glossolalia como um sinal visível. Perguntam com frequência: Será que devemos mesmo enfatizar um sinal visível como as línguas? Não obstante, esses mesmos cristãos participam de uma forma litúrgica de adoração que está cheia de sacramentos e imagens; uma forma de adoração que enfatiza sinais visíveis. Sinais são valiosos quando eles apontam para algo significativo. Lucas e sua igreja claramente entendiam isso.[4]

Veja que a glossolalia, como aponta magistralmente Menzies, serve como uma espécie de sinal litúrgico. É uma ligação em continuidade entre a igreja contemporânea e a igreja primeva. O pentecostalismo sempre alimenta a esperança que a igreja primitiva seja o modelo para a os nossos dias. Nesse sentido, a língua não é apenas uma ligação com os céus em oração, mas também é uma forma de continuidade em comunhão e missões com os primeiros cristãos. É comum no culto pentecostal lembrar que a igreja “nasceu no Pentecostes”. Dessa forma, o pentecostal se sente como parte da continuidade dessa comunidade.

A liturgia pentecostal como modelo para o protestantismo não-pentecostal

O protestantismo tradicional há muito tempo vem absorvendo a influência da liturgia pentecostal em seus cultos, especialmente através da música. Olhando para o mundo, talvez o caso mais emblemático seja o grupo de louvor Hillsong. Essa Assembleia de Deus na Austrália simplesmente mudou a forma como quase todas as denominações celebram seus cultos a partir da década de 1990.

O louvor contemporâneo de adoração é esmagadoramente produzido por cantores e compositores pentecostais e carismáticos. Quem aqui nunca cantou canções como Aclame ao Senhor, Majestade, A Ele a Glória, Oceano, Santo Espírito etc.? Todas essas canções são teologicamente impecáveis, com arranjos musicais bonitos e foram escritos por pentecostais como Ron Kenoly, Darlene Zschech, Kevin Jonas etc. Mesmo um grupo queridinho dos reformados como o Sovereign Grace Music segue a escola Hillsong de louvor.

Outro ponto a ser destacado é o uso do corpo na liturgia protestante. O corpo agora passar a ser parte também da celebração. O culto protestante tradicional desprezava de tal forma o corpo que qualquer movimento era lido como mundanismo e sacrilégio. É o que podemos chamar de maniqueísmo litúrgico ou mesmo legalismo cúltico. Essa mudança é outra influência do pentecostalismo e é de natureza positiva. Embora saibamos dos exageros com o corpo embriagado no emocionalismo como movimentos conhecidos como “bênção de Toronto” ou “retete”, é importante lembrar que o ser humano é integral. O culto não pode ser voltado apenas ao homem interior. O corpo também comunica nossas emoções e recebe instruções.

O culto cristão não é meditação, não é aula, não é seminário. O culto não é apenas do e para o intelecto. Embora o culto envolva a instrução, o ensino, a doutrina, ele será incompleto sem o elemento emocional. O homem é um ser emocional, antes mesmo de ser racional. Se isso é verdade em culturas mais mergulhadas na modernidade, o que dizer então da realidade brasileira? Vivemos numa cultura fortemente marcada pela emoção. Isso não é depreciativo nem exultante, mas é apenas nossa realidade. O culto pentecostal resgatou a importância da emoção. É certo que muitos leitores logo pensarão nos exageros emocionais, mas é importante destacar que o formalismo também é um excesso. O teólogo e filósofo James K. A. Smith lembra:

O culto cristão histórico é fundamentalmente formativo porque educa nossos corações através de nossos corpos (que, por sua vez, renova nossa mente), e faz isso de uma forma que é mais universalmente acessível (e eu acrescentaria, mais universalmente eficaz) do que muitos dos hábitos de adoração excessivamente cognitivos que adquirimos na modernidade. A esse respeito, Amos Yong, com razão, critica a forma como o culto protestante tende a ser definido na iniciação e no discipulado cristão. “Isso é especialmente problemático no protestantismo”, observa ele, “com a sua convicção de que a salvação é efetivamente mediada através do conhecimento (de conteúdo doutrinário ou teológico) e que o processo catequético deve ser focado em transmitir cognitivamente esse conhecimento para aqueles que buscam a iniciação cristã. No entanto, insistimos agora que essa antropologia platônica e cartesiana é problemática, precisamente por causa da subordinação do corpo... Na medida em que o hebraico yada se refere mais ao conhecimento do coração do que da cabeça, agora os protestantes podem aprender com as tradições católicas e ortodoxas, especialmente no que diz respeito ao modo como o conhecimento humano de Deus é mediado através da formação, imitação, afetividade, intuição, imaginação, internalização e engajamento simbólico”. Porque todos os seres humanos são fundamentalmente mais afetivos do que cognitivos, e tal fato também é verdadeiro para o culto cristão. [5]

Negar o elemento emocional do ser humano não é prudente, nem correto com a Revelação bíblica. Ao mesmo tempo, o culto pentecostal não pode ser uma baderna de vaidades. Há a necessidade de ordem e decência. O uso e o abuso dos dons espirituais necessitam de disciplina conforme orientação das Escrituras, especialmente em 1 Coríntios 14. Mas, não custa lembrar, apesar de todos os erros e exageros, defeitos e dificuldades, o pentecostalismo trouxe um culto mais autêntico para o protestantismo como um todo. Embora fossem igrejas conservadores na doutrina, muitas igrejas tradicionais eram racionalistas na adoração. Há casos passados onde pessoas foram disciplinadas porque testemunham uma cura no ambiente do culto. Ora, tal atitude lembra quem nos Evangelhos?





[1] “Todo culto cristão— se anglicano ou anabatista, pentecostal ou presbiteriano— é litúrgico, no sentido de que ele é governado por normas, se baseia em uma tradição, inclui rituais corporais e rotinas, e envolve práticas formativas. Por exemplo, embora o culto pentecostal seja muitas vezes considerado a antítese da liturgia, efetivamente ele inclui muitos dos mesmos elementos: o culto carismático é muito encarnado (mãos levantadas em louvor, ajoelhado no altar em oração, imposição de mãos em esperança, etc.); tem uma rotina comum, não escrita (música de "louvor", seguida de música mais silenciosa de "adoração", seguido do sermão e depois, muitas vezes, de um “tempo de oração no altar"); e essas práticas de culto pentecostal são profundamente formativas, moldando nossa imaginação ao se relacionar com o mundo de uma forma única. Nesse sentido, mesmo o culto pentecostal é litúrgico”. SMITH, James K. A. Desiring the Kingdom: Worship, Worldview and Cultural Formation. 1 ed. Grand Rapids: Baker Academic, 2009. p 152.
[2] ANDRADE, Claudionor Corrêa de. Manual de Liturgia. Bíblia Obreiro Aprovado. 1 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2010. p 1081.
[3] FOUILLOUX, Danielle (Ed). Dicionário Cultural da Bíblia. 1 ed. São Paulo: Edições Loyola, 1998. p 231.
[4] MENZIES, Robert P. Pentecostes. 1 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2016. p 78.
[5] SMITH, James K. A. Desiring the Kingdom: Worship, Worldview and Cultural Formation. 1 ed. Grand Rapids: Baker Academic, 2009. p 137-138.

4 comentários:

BENHUR SOUZA disse...

Prezado irmão Gutierres,
a Paz do Senhor!
Quero lhe parabenizar por este comentário elucidativo e por que não dizer "libertário" no que tange ao culto pentecostal. De fato, precisamos lembrar aos que tanto criticam o expressar dos sentimentos no momento cúltico, precisam também relembrar o que houve na Alemanha Luterana no final do século XVII quando Spener trouxe à ortodoxia luterana o pietismo que resgata algo como a experiência do coração ao relacionar-se com Deus. Como você bem lembrou, é necessário combater os extremos sem,no entanto, apagar a alegria devocional que compõe o culto pentecostal.Abraços. Benhur Oscar Castelo de Souza

Mateus Carvalho disse...

Gutierres sempre tive essa duvida sobre a glossolalia muitos dos pastores fazem uso da mesma no microfone é correto? ou não? pois, talvez possa causar um pouco de espanto nos visitantes não cristãos ou algo do tipo, uma outra duvida sobre a glossolalia e os visitantes é se é correto falar em linguas ao lado de algum visitante durante o culto? ou o recomendável é que a pessoa se controle na adoração para não causar espanto também? eu agradeço a resposta.

Eliaquim Rodrigues Pereira disse...

Gutierrez gostaria que vc escrevesse sobre o princípio regulador de culto se for possível.

odair vieira disse...

Espanto causa nas pessoas e o testemunhos horrível dos crentes, inconversos ,o que causa espanto até em muitos cristãos divórcio, mentiras, caloteiros, isso sin esta matando a igreja brasileira principalmente nossa queridas igrejas pentecostais, cheias de avivamento de uma hora e meia, avivamento da carne, sem conversão, e mudanças de vida.