sábado, 8 de outubro de 2016

Em defesa da experiência


Por Gutierres Fernandes Siqueira

Um dos cânones da fé protestante é a afirmação da Bíblia como a única regra de fé e prática. O poeta francês Nicolas Boileau (1636- 1711) dizia que “todo protestante, de Bíblia na mão, é um papa”. Assim, as Sagradas Escrituras são o critério último de julgamento e análise de toda tradição, magistério e experiência. Se a Bíblia não é a nossa autoridade qualquer coisa assumirá o posto, até mesmo o nosso ego. O protestantismo - enquanto manifestação cristã de fé - tem uma base sólida onde pode sempre voltar em tempos de crise, insegurança e autoritarismo.

Agora, não deixa de ser verdade que toda perspectiva elevada a um grande último tende ao exagero. O protestantismo, em versões eruditas e populares, em muitos casos tem rejeitado a grandeza e a riqueza da tradição e da experiência. Ora, a “experiência é uma forma de conhecimento abrangente, não organizado, ou de sabedoria, adquirida de maneira espontânea durante a vida”, como bem definiu Houaiss; e “a tradição é aquilo que ocorre ao espírito como resultado de experiências já vividas; recordação, memória, eco”. Assim, a Bíblia - enquanto revelação de Deus- está entrelaçada de tradições e experiências. Tais elementos são inseparáveis.

Embora seja crescente o número de protestantes que tem escrito artigos e livros em defesa da tradição, especialmente teólogos conservadores de uma vertente holandesa de calvinismo, poucos se atrevem a defender a experiência. Ora, como defender a grandeza daquilo que é subjetivo? Parece que esquecemos uma famosa frase de Martinho Lutero: sola experientia facit theologum, ou seja, “somente a experiência faz o teólogo”. Felizmente, o teólogo assembleiano César Moisés Carvalho faz uma bela defesa da experiência no artigo “Revelação, Experiência e Teologia” na mais recente edição do periódico Obreiro Aprovado (CPAD), a principal revista de cunho teológico das Assembleias de Deus.

César Moisés Carvalho mostra que é possível teorizar o sagrado sem a experiência e revelação, no sentido teológico do termo, mas esse não foi o caminho escolhido por um Deus que se revela. Ora, Deus ao se revelar, logo porque nenhum conhecimento sobre Ele é possível à parte de Sua revelação, mostra a limitação do nosso conhecimento e, consequentemente, da nossa teologia. Outro ponto importante: não é possível fazer uma rígida separação entre conhecimento teológico objetivo e experiência subjetiva. Como diz Carvalho: “seja de forma proposicional ou existencial, o ato de recepcionar a revelação é sempre uma experiência”. Carvalho também recorda a fala dos teólogos pentecostais James Railey e Benny Aker que dizem: “a Bíblia apresenta as suas verdades em meio aos acontecimentos históricos ao invés de apresentar-nos uma lista sistematizada de suas doutrinas”. A Bíblia nem é uma Teologia Sistemática nem é um conjunto de fábulas com uma “moral”. A Bíblia é o retrato de experiências reais com um Deus que se autorrevela.

Carvalho também observa: “qualquer sistema teológico que não reconheça o aspecto sobrenatural do mundo da Bíblia não está respeitando o contexto original em que se deram todos os eventos”. Portanto, as epistemologias racionalistas do fundamentalismo e do liberalismo são um entrave para a produção teológica do pentecostalismo. Carvalho complementa:

O mundo da Bíblia não foi desencantado da sobrenaturalidade, mas apenas do animismo e da superstição pagã. Já a modernidade, fruto da Reforma, desacreditou completamente do sobrenatural, daí o porquê de o protestantismo histórico ser cessacionista, independentemente do que a Bíblia diz e dos fenômenos vistos a olhos nus da atualidade. [...] A grande verdade é que o cessacionismo encara a fé com os mesmos pressupostos do “liberalismo teológico” que eles tanto criticam. Embora os primeiros pareçam querer defender a fé e os segundos desacreditá-la, na verdade, seus arrazoados racionalistas chegam às mesmas conclusões a respeito dos milagres, por exemplo. Enquanto o liberalismo teológico usa o racionalismo para analisar a realidade toda, inclusive, a dos tempos bíblicos e assim nega que tenha havido milagres em qualquer época, os cessacionistas, através de um artifício “cronológico”, afirmam que os milagres cessaram com a Era Apostólica. Na verdade, eles não podem acreditar em milagres para os dias atuais porque sua teologia racionalista não permite essa crença. Assim, isola-se os milagres nos tempos bíblicos, mas nega-se sua possibilidade e contemporaneidade atual. A diferença de incredulidade entre ambos é apenas de delimitação no tempo.

Carvalho mostra perfeitamente que o racionalismo “conservador” ou fundamentalista, como de Charles Hodge (1797-1878), que dizia que “a fé sem evidência é ou irracional ou impossível”, é tão perigosa para a teologia cristã como o racionalismo do liberalismo teológico. O resultado último é o mesmo: a incredulidade prática e até teórica.

A experiência

O que vem antes: a teologia ou a experiência? Ora, a teologia é precedida pela experiência. A teologia é a explicação e reflexão da experiência. Essa observação não é para insinuar que a nossa experiência seja mais importante que a teologia desenvolvida na história da Igreja, mas apenas para mostrar que a base da nossa teologia geral é experimental. Carvalho escreve:

O fato é que a experiência individual nada acrescenta à “revelação especial”, mas certamente clarifica, atualiza e traduz a mensagem bíblica, tornando-a mais praticável, gerando confiança e fé (Rm 10.17). Originariamente, a teologia sempre sucede a experiência, pois ela representa a tentativa de dar sentido ao que aconteceu, procura sistematizar a revelação especial em forma de doutrina e até a própria religião como um todo.

No tempo histórico em que vivemos já temos uma “revelação especial” completa. Porém, essa revelação completa, ou seja, o mistério de Cristo revelado na cruz em nada invalida o conhecimento espiritual, para usar uma expressão de Jonathan Edwards ou ainda cognitio experimentalis de Tomás de Aquino. Essa experiência realça a revelação que nos é dada em Cristo Jesus e é operada pelo Espírito Santo como real vicário do Nosso Senhor nesta terra. Como diz o texto lucano: “Então lhes abriu o entendimento para compreenderem as Escrituras...” (Lucas 24. 45).

É óbvio que a experiência individual está sob o escrutínio das Escrituras. Separar a experiência das Sagradas Letras é atestado para tragédias. Todavia, transformar a vida cristã num entendimento racionalista da Bíblia, onde a mesma é vista apenas como um compêndio doutrinário é igualmente trágico. A vida cristã é completa, complexa e rica para ser reduzida a um único aspecto.  Somente o fundamento da fé em nosso Senhor Jesus Cristo segundo as Escrituras é a norma última da Igreja. Todavia, não tomemos essa linha limitadora e a coloquemos antecipadamente aos nossos pés impedindo a experiência real com um Deus que está entre nós por meio do Santo Espírito. O homem não é apenas racional, mas criativo, relacional, emocional, espiritual, etc.

Recomendo o artigo fortemente!

Um comentário:

João Paulo Mendes disse...

Parabéns pelo texto caro Gutierres.

É gratificante ver na Obreiro um texto rico e provocativo como do Pr César. Ao mesmo tempo, o teu texo acrescenta muito para a reflexão sobre o tema.

Abraço.