domingo, 13 de novembro de 2016

O moralismo e o amor romântico


Por Gutierres Fernandes Siqueira

A ética está na moda. Quase todo universitário tem aulas de ética. O aluno aprende ética na administração, ética na comunicação, ética nas ciências econômicas etc. Aliás, desde o primário a pedagogia contemporânea assumiu para a si a “missão de formar cidadãos éticos”. As empresas também estão preocupadas com a transparência, com o ambiente saudável e com as boas práticas de gestão e, também, hoje as maiores corporações possuem departamentos de compliance, uma espécie de garantidor de padrões morais.

Todavia, a ética na sociedade contemporânea não tem como base primária a fé, mas a razão. Algo é moral porque é racional e traduz o bom convívio em sociedade. Na verdade, há uma variedade de bases para a ética contemporânea, até mesmo a utilidade e o sentimento. Eu passo a ser ético não porque abraço um mandamento divino, mas sim porque uso sacolas biodegradáveis e deixo de comprar madeira sem certificação ambiental. Como lembra John Stott, essa é uma ética circunstancial[1]. Essa ética, embora os seus postulantes relutem em admitir, é fraca, cede a acordos e pressões, e busca continuamente o prazer próprio em detrimento do outro.   

O protestantismo afirma a “salvação pela fé somente”. A colocação das obras em segundo plano, na teologia protestante, não é chancelada para uma vida dissoluta e depravada. Todavia, há uma distância enorme entre a teoria teológica e a própria psicologia social do indivíduo. Assim, é fácil entender porque muito se vive essa tensão entre moralidade interior e exterior em ambientes evangélicos.

Jesus não veio propor uma nova moralidade. Aliás, como lembra Peter Kreeft, “não existe essa coisa de nova moralidade, existem apenas novas imoralidades” [2]. Jesus veio, na verdade, mostrar a insustentabilidade de uma vida pautada na moralidade. Jesus declarou: “Porque vos digo que, se a vossa justiça não exceder a dos escribas e fariseus, de modo nenhum entrareis no Reino dos Céus” (Mateus 5.20). Jesus se apresenta como o único capaz de cumprir a lei (cf. Mateus 5.17, 19. 16-30).

O moralismo e o amor romântico vulgar

O moralismo contemporâneo é marcado pelo sentimentalismo como paradigma ético. É um romantismo vulgar cujo lema pode ser resumido na sentença “o amor vence”. Assim, esquece-se da grande lição de C. S. Lewis: o amor também pode ser um ídolo, um verdadeiro demônio. Não há amor saudável onde o sujeito está desassociado de Deus. Não sei se os primeiros românticos reagiriam bem aos seus contemporâneos que são marcados por uma visão de mundo altamente moralista. São como um pelagianismo moderno onde as obras e a bondade humana continuam a salvar. Na teologia, esses teólogos colocam o amor como uma marca superior de Deus, mas Deus não tem atributo superior porque em tudo Ele é pleno.

O amor de Deus é hoje o tema central da teologia contemporânea. Outrora temas como fé e esperança estavam no bojo dos teólogos. Mas, especialmente no começo do século XXI, o amor assumiu a dianteira. O teólogo Kevin J. Vanhoozer lembra bem que a teologia contemporânea define o amor de Deus segundo termos da cultura moderna: empatia, compaixão, mutualidade, solidariedade, inclusividade. Vanhoozer escreve: “a cultura, junto com a história das ideais, no entanto, continua em marcha” [3]. No entanto, o real problema da teologia contemporânea é eleger o amor como um atributo divino que embarca os demais.

É necessário lembrar que a grandeza do amor de Deus torna a realidade do pecado ainda mais delicada e terrível. O pecado não é meramente um deslize perante regras de conduta, mas é a quebra de uma aliança, de um relacionamento. Na frente de uma placa proibitiva eu posso exclamar com as mãos na cabeça: “puxa vida, eu estacionei na vaga de idosos”, mas, ora, a essa placa falta pessoalidade; a placa não me ama, a placa é seca e impositiva. Todavia, sob a sombra da bondade de Deus o pecado é uma alienação e uma rebelião transformada em uma força ainda mais egoísta, mesquinha e cruel.  A própria realidade do amor divino expõe o mal com mais claridade. Há alguns séculos o grande teólogo norte-americano Jonathan Edwards (1703 -1758) pregou o famoso sermão “Pecadores nas Mãos de um Deus Irado”. O título certamente é propositadamente chocante, mas as implicações de “pecadores nas mãos de um Deus amoroso” são ainda mais fortes. Ofender alguém iracundo não soa moralmente ofensivo quanto se rebelar contra quem oferece a outra face.  O apóstolo Pedro lembra em seu sermão um paradoxo da crueldade diante do amor: “matastes o Príncipe da vida” (Atos 3. 15) recoando a parábola dos lavradores maus (cf. Mateus 21. 33-45) e, mostrando assim, como a depravação aumenta diante do amor exposto. Esse aumento não é qualidade ou em quantidade, mas em transparência. 

Portanto, longe da pregação sobre o amor de Deus ser leniente com o mal, muito pelo contrário, a exposição sobre o amor de Deus é a melhor maneira de denunciar o mal. Se isso não acontece é porque o “amor divino” exposto em púlpitos e cátedras universitárias está mais parecido com uma versão vulgar de romantismo ingênuo e desconectado com a realidade.



[1] STOTT, John. As Controvérsias de Jesus. 1 ed. Viçosa: Editora Ultimato, 2015. p 112.
[2] KREEFT, Peter. Jesus: o Maior Filósofo que Já Existiu. 1 ed. Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2009. p 99. O título da edição brasileira é infeliz e dá a ideia de ser um livro de autoajuda. O título original é The Philosophy of Jesus (A filosofia de Jesus).
[3] VANHOOZER, Kevin J. Teologia Primeira: Deus, Escritura e Hermenêutica. 1 ed. São Paulo: Shedd Publicações, 2016. p 97.

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