sábado, 30 de janeiro de 2016

O individualismo e a leitura superficial das Escrituras: duas marcas da espiritualidade evangélica contemporânea

Por Gutierres Fernandes Siqueira

O famoso crítico literário norte-americano Harold Bloom escreveu no livro The American Religion[1] uma ferrenha crítica aos evangélicos mais conservadores (ou fundamentalistas) encarnados na Convenção Batista do Sul. Embora sejamos evangélicos conservadores, objetos da crítica de Bloom, não é possível ignorar algumas observações pertinentes do autor. A crítica é feita à igreja americana, todavia é totalmente aplicável ao Brasil, talvez o país mais parecido com a composição religiosa do protestantismo norte-americano, especialmente em seus defeitos. Vejamos alguns pontos da análise de Bloom.

O evangélico é radicalmente individualista

A experiência pessoal de um Deus que intervém de fora para construir uma ordem adequada ao meu próprio eu é fortemente enraizada na crença evangélica. Literalmente o evangélico se enxerga como o centro do mundo físico e até do cósmico. Não é à toa que a promessa de Deus a Abraão em Gênesis 12 é lida por muitos como uma realidade para a sua própria vida. No lugar de olhar para Cristo como o cumprimento da promessa, o evangélico vê em si a concretização do sonho de Abraão e tenta transportar até mesmo a prosperidade material do antigo patriarca para os dias de hoje. Outras promessas específicas para Israel como nação, também, são individualizadas e abraçadas como próprias.

O psiquiatra cristão Dan Blazer, refletindo sobre esse ponto levantado por Bloom, escreve como o individualismo evangélico despreza o senso de comunidade tão presente nas Escrituras. Vale a pena ler essa extensa citação:

A religião americana não incentiva a vida em comunidade ou a confissão, porque o individualismo da sociedade americana direciona sua religião para a solidão interior. Os evangélicos enfatizam o Jesus ressurreto em vez do Jesus crucificado e, portanto, anteveem um eu revitalizado em vez do eu sofredor. Assim como os gnósticos dos dois primeiros séculos da era cristã buscavam conhecer seu espírito interior e uni-lo à luz divina, a salvação para o evangélico não vem através da comunidade ou da confissão congregacional, mas através de um relacionamento pessoal e íntimo com Jesus. [...] Muitos dos pacientes de quem tratei, vindos de tradições de fé evangélicas, tendem a flutuar de uma congregação a outra. Se surgem problemas no companheirismo dos membros da igreja (e eles são muito prováveis de surgir se a pessoa está sofrendo emocionalmente), a solução mais fácil é mudar-se para outra igreja, talvez até mesmo se comprometendo com um diferente (mesmo que em detalhes) conjunto de crenças. [...] Dentro de uma comunidade evangélica, alguém pode flutuar através de um mar de sutis variações na doutrina e por uma variedade de congregações cristãs. Esse fenômeno é incompreensível para meus amigos judeus quando o descrevo para eles. A fé para um judeu significa ligação à comunidade, a Israel, através de uma longa e sofrida história. A fé não pode ser separada da comunidade ou da história. Contudo, para os evangélicos problemáticos, isolar-se de alguma tradição religiosa ou da comunidade é uma experiência muito comum.[2]

O forte individualismo evangélico proporciona cenas comuns como o culto substituído pelo show, a comunhão de pequenos grupos pela multidão em grandes auditórios, o canto congregacional pela música de espetáculo e, como diz Blazer, o trânsito religioso. A falta de senso de comunidade na espiritualidade evangélica é um problema tão sério que já é objetivo de extensos estudos na academia[3].

Em parte, tal crença individual que parece honrar Jesus, na verdade o despreza porque joga fora a própria ideia de Igreja. Um dos princípios da igreja é a sua catolicidade, ou seja, sua universalidade. A Igreja não é sectária, nunca toma a parte pelo todo. Nem torna o individualismo o centro do seu relacionamento. A Igreja é corpo, um conjunto de partes, sem nenhum desprezo e esmagamento das individualidades, mas também sem nenhuma pretensão de reinado de egos. A Igreja quando despreza a sua catolicidade se torna um conjunto de brigas infinitas de egos.

A crença na inerrância bíblica não reflete na qualidade de leitura do evangélico

Bloom diz que a “maior verdade podemos descobrir sobre o grito de guerra fundamentalista sobre a ‘inerrância bíblica’ é que não tem quase nada a ver com a experiência real de ler a Bíblia”[4]. Ou seja, nem mesmo a crença tão firme que a Bíblia é a própria Palavra de Deus, sem erros, faz do evangélico um leitor atento da Bíblia. O que sobra é a superficialidade bem manifesta nos sermões de cada domingo. O livro sagrado que era símbolo de liberdade dos batistas nas guerras civis da história americana no século XVII, hoje é apenas um monumento estático para reafirmação das próprias ideias. A contradição nasce justamente em como a Bíblia é mal tratada no grupo que jura ter nela a sacralidade isenta de erros.

O crítico literário ainda cita a boa observação de Ellen M. Rosenberg. A autora diz que o mundo evangélico estrutura suas crenças com generalidades e ambiguidades. E a Bíblia, assim, torna-se um quebra galhos de autoafirmações baseadas em crenças sociais e tradicionais. No púlpito evangélico a Bíblia é muito pregada, mas pouco interpretada, é muito brandeada, mas pouco lida.  O livro é lido no culto apenas como um pontapé para a mensagem que vem a partir do próprio pregador, e não do texto referido. Ou, como diz Rosenberg, a Bíblia é apenas um talismã.

O neofundamentalismo, cita Bloom, quer uma infalibilidade densamente substancial, diferente de John Gresham Machen, a quem ele chama de “mente extraordinária”, que era um homem de “fundamentos” sem desprezar as complexidades e ambiguidades da própria história e da linguagem religiosa. Bloom brinca que hoje inerrância significa “texto não lido”, ou seja, como se a Bíblia fechada falasse por si. Não há leitura, preocupação exegética, tratamento sério com o texto. O que resta é o analfabetismo funcional.  

A crítica ao individualismo não quer dizer nenhum apoio a coletivismos. Assim como o homem não é um ser isolado, o mesmo não pode ser diluído numa multidão uniforme. A fé cristã respeita a individualidade. A comunhão demanda indivíduos diferentes e complementares. Comunhão não é coletividade. 
_____

Ler tal crítica de pessoas que não pertencem à fé cristã evangélica, aliás, nem mesmo da fé cristã, mostra com as pedras ainda clamam. É possível ignorar tais observações? É claro que não. É urgente a superação do individualismo e da superficialidade na leitura e explanação da Palavra. 



[1] BLOOM, Harold. The American Religion: The Emergence of the Post-Christian Nation. 1 ed. New York: Simon & Schster, 1992. pp. 203-258.
[2] BLAZER, Dan. Freud versus Deus: Como a Psiquiatria Perdeu a Alma e o Cristianismo Perdeu a Cabeça. 1 ed. Viçosa: Editora Ultimato, 2002. p 171-172.
[3] “Existe hoje no Brasil um contingente significativo de evangélicos, principalmente nos grandes centros urbanos, que estão sempre circulando de igreja em igreja. Não criam raízes, não conseguem cultivar relacionamentos e são avessos aos compromissos que normalmente surgem do relacionamento entre o fiel e a igreja: frequentar os cultos, contribuir sistematicamente com a igreja local e participar de suas atividades”. [ROMEIRO, Paulo. Decepcionados com a Graça. 1 ed. São Paulo: Mundo Cristão, 2005. p 159.]
[4] BLOOM. Op. Cit.  p 219. 

segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

Uma experiência com a tradição!

Por Gutierres Fernandes Siqueira

Agora, pois, permanecem a fé, a esperança, o amor... [1 Coríntios 13.13]

Ontem na igreja tive uma maravilhosa experiência com a tradição. Isso mesmo: uma experiência especial com a tradição! No encerramento do culto o coral e a orquestra da igreja apresentaram o hino 535 da Harpa Cristã cujo título é “Tu és Fiel, Senhor”. Naquela hora lembrei que muitos irmãos já mortos cantaram aquela canção com alegria, enquanto outros estavam naquele momento cantando comigo. E, como uma poesia e música já consagradas, as futuras gerações também cantarão essa canção com o mesmo entusiasmo. Não tive como deixar a emoção de lado quando me toquei sobre a perenidade do louvor a Deus, ou seja, sobre a beleza da tradição: a fé que permanece viva dos homens que já morreram.


O louvor clássico está além do tempo. Ele une gerações que nunca tiveram contato direto entre si. Não é uma música descartável, feita na velocidade da moda, que logo perece diante das mudanças de humor. O louvor clássico é o mesmo que revitalizou seus avós, pais e que provavelmente emocionarão seus filhos e netos. O poder desses louvores não está apenas no talento dos seus compositores, mas acima de tudo na mensagem firmada e estável. É uma letra que nunca envelhece, logo porque sempre é urgente e necessária: é a mensagem sobre a nossa necessidade dEle.

A letra Great Is Thy Faithfulness escrita pelo pastor metodista Thomas Obadiah Chisholm (1866-1960) com a música do também ministro metodista William M. Runyan (1870–1957) foi populariza nas campanhas evangelísticas do reverendo Billy Graham e até hoje emociona a todos nós por proclamar a fidelidade de Deus diante das ruínas da vida. O hino é inspirado na poesia dramática de Lamentações de Jeremias. A letra é bíblica e transmite a nossa gratidão pela fidelidade do Senhor. 

A vida na tradição

Desde os profetas do Antigo Testamento até os apóstolos, passando pela pessoa de Cristo Jesus, a Bíblia condena fortemente o tradicionalismo. O tradicionalismo que é a fé morta de homens vivos. Todavia, diferente do tradicionalismo hermético, a tradição respira vida. A tradição não é a mera observação de coisas boas do passado idílico daqueles cristãos consagrados que ficaram para trás, mas é o pulsar constante do Espírito Santo que sopra como quer, onde quer e na hora que quer. Ou como escreveu Joseph Ratzinger:

A grande tradição cultural da fé possui uma força extraordinária que vale exatamente para o presente: aquilo que nos museus pode ser apenas testemunho do passado, admirado com nostalgia, na liturgia continua a tornar-se presente vivo. Mas o mesmo presente não está condenado à ausência de palavras na fé.[1]

Portanto, não conhecemos a nostalgia, mesmo com canções clássicas e a liturgia antiga, mas experimentamos a vivacidade do Espírito Santo nas coisas comuns e corriqueiras da liturgia. Ao ponto que a inspiração também não ficou apenas no passado distante, mas está no presente sempre.  


[1] RATZINGER, Joseph. Introdução ao Espírito da Liturgia. 1 ed. São Paulo: Edições Loyola, 2013. p 130. 

domingo, 24 de janeiro de 2016

Por que o pentecostalismo abraçou o dispensacionalismo clássico?

Por Gutierres Fernandes Siqueira

A marca primitiva do dispensacionalismo não era apenas a crença escatológica minimalista, mas também a forte oposição ao pentecostalismo. Cyrus Ingerson Scofield (1843 – 1921) foi um teólogo norte-americano e autor da famosa Bíblia de Referência Scofield, obra que ajudou a popularizar o dispensacionalismo escatológico entre os evangélicos, incluindo os pentecostais. Não é curioso que Scofield, um ferrenho anticarismático, tenha feito sucesso entre nós? Isso mesmo, a Bíblia de Estudo mais popular entre os pentecostais era justamente escrita por um antipentecostal. E o mesmo se dá hoje, onde John MacArthur Jr. é referência escatológica de muitos pentecostais.

Todavia, a relação entre essa obra e os pentecostais nem sempre foi passiva e pacífica.  A Comissão Executiva da Casa Publicadora das Assembleias de Deus nos EUA proibiu a propaganda da Bíblia de Referências Scofield na revista Pentecostal Evangel entre os anos de 1924 e 1926, mas a mesma comissão voltou atrás e permitiu a divulgação da Bíblia por achar que os “comentários edificantes pesavam mais do que as notas antipentecostais”[1]. O pastor Frank M. Boyd (1883-1984), importante teólogo assembleiano, era um entusiasta da obra de Scofield, assim como o missionário norte-americano Nels Lawrence Olson (1910-1993), que por muitos anos viveu no Brasil e ajudou a Assembleia de Deus local. A Bíblia Explicada (CPAD), a primeira de estudo entre pentecostais brasileiros, em muito dependia de Scofield, assim como a controvertida Bíblia de Estudo Dake, outra pioneira entre os carismáticos na América do Norte.

O restauracionismo

A pergunta é: por que os pentecostais ficaram atraídos por uma obra escrita por um antipentecostal? A resposta está no restauracionismo do dispensacionalismo clássico, aliás, da própria efervescência milenarista do século XIX. O restauracionismo “era um esforço para a volta das práticas da igreja primitiva”[2]. Embora o restauracionismo seja uma marca presente entre Testemunhas de Jeová, mormonismo e adventismo, essa crença permeou muitos pentecostais que se viam como parte do último grande avivamento antes da parousia de Cristo.  A expectativa da iminência no dispensacionalismo casava muito bem com essa crença.

Charles Fox Parham (1873-1929), um importante pioneiro do Movimento Pentecostal, chegou a abraçar o Israelismo Britânico, uma crença um tanto bizarra que o Império Britânico era o novo Israel, ou melhor, era a descendência direta das antigas tribos do norte de Israel. Crença essa que lembra um pouco a própria escatologia do mormonismo. No entanto, essa crença de Parhman entrava em choque diretamente com a expectativa universalista de William Joseph Seymour que, em um primeiro momento, via na xenolalia a marca para a evangelização mundial e como a agregação dos povos em um só.

Outros pentecostais se viam como a chuva serôdia do texto escatológico do profeta Joel.  A própria crença no Batismo no Espírito Santo como uma capacitação de poder para evangelismo (Atos 1.8) que visa à evangelização mundial até o fim (Mateus 24.14) reforçava tal ideia.

Todavia, o restauracionismo não ficou restrito aos sectários e carismáticos. O pastor presbiteriano Arthur T. Pierson (1837- 1911), que substitui o batista Charles Spurgeon no Metropolitan Tabernacle, chegou a criar um método de cálculos proféticos que previa uma grande crise mundial entre 1880 a 1920. A escatologia de Pierson foi influenciada pelo restauracionista e clérigo anglicano John Nelson Darby (1800-1882). Pierson foi consultor da Bíblia de Referência Scofield e amigo de nomes como D. L. Moody.

O antidenominacionalismo

Outro ponto importante de contato entre o dispensacionalismo e o pentecostalismo era o antidenominacionalismo, especialmente expresso nos Irmãos de Plymouth. A visão sombria sobre a história da Igreja corrompida institucionalmente corresponde à ideia de restauração por meio de um avivamento do Espírito. O antidenominacionalismo serve como pontapé inicial de outras teologias populares no meio carismático: a visão negativa da liturgia, o anticlericalismo, o anti-intelectualismo etc.


O pentecostalismo é necessariamente dispensacionalista?

Agora, é importante mencionar que o dispensacionalismo não é a crença primeva do pentecostalismo como um todo, especialmente o assembleianismo norte-americano. O teólogo Stanley M. Horton, por exemplo, mostra que o dispensacionalismo foi uma influência posterior, especialmente feita por Boyd, como mencionado acima[3]. O mesmo pode ser dito do Brasil, onde a onda dispensacionalismo no meio assembleiano é acentuada especialmente na década de 1970 e 1980 com os ensinamentos de nomes como Lawrence Olson, Abraão de Almeida e Antonio Gilberto.

Gerald T. Sheppard, outro teólogo pentecostal, também discorda de uma associação automática na história e na teologia do pentecostalismo com o dispensacionalismo. Sheppard chega a mencionar no artigo Pentecostals and the Hermeneutics of Dispensationalism: The Anatomy of an Uneasy Relationship (Pentecostais e a Hermenêutica do Dispensacionalismo: A anatomia de uma relação difícil)[4] que teologicamente o dispensacionalismo contradiz o pentecostalismo e vice-versa. Enquanto os pentecostais olham para a Igreja com um otimismo avivalístico e de expansão, os dispensacionalistas tendem a crença que o “mundo e a igreja vão de mal a pior”.

O assembleianismo norte-americano, ao contrário do brasileiro, tem se distanciado gradativamente do dispensacionalismo clássico. Um exemplo é a obra do teólogo Melvin Lyle Hodges (1909-1988) que enfatizou em sua obra sobre missões o aspecto do Reino como simbólico da transformação interior do crente. Embora pré-milenista, o teólogo Stanley Horton (1916-2014) também é outro nome que não tomou o dispensacionalismo como diretriz escatológica[5]. Outros nomes mais jovens como Frank Macchia e Amos Yong[6] já não podem ser classificados como tal. Embora, oficialmente, a denominação continue com a marca dessa escatologia.

Conclusão

Embora popular entre os pentecostais, o dispensacionalismo é mais uma influência externa, especialmente no casamento entre fundamentalismo e pentecostalismo na segunda geração dos pastores pentecostais. Esse é o mesmo fundamentalismo que afastou as mulheres dos púlpitos carismáticos e delegou a elas funções como professoras de crianças ou regentes musicais. Antes, vale lembrar, o papel feminino era tão intenso como o masculino. Em ambos os casos é mais uma imposição histórica do que necessariamente uma característica primitiva e dependente. Nem o dispensacionalismo depende do pentecostalismo nem o pentecostalismo depende do dispensacionalismo, ainda que hoje sejam a própria “unha e carne”.



[1] HORTON, Stanley M. (Ed.) Teologia Sistemática: uma Perspectiva Pentecostal. 8 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2003. p 23.
[2] OLIVEIRA, José de. Breve História do Movimento Pentecostal. 1 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2003. p 31.
[3] HORTON, Stanley M. Avivamento Pentecostal. 1 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 1997. p 39-40.
[4] SHEPPARD, Gerald T. Pentecostalism and the Hermeneutics of Dispensationalism: The Anatomy of an Uneasy Relationship.  Pneuma: The Journal of the Society for Pentecostal. Studies 6 (Fall 1984), pp. 5-34.
[5] LEWIS, Paul W. Reflections of a Hundred Years of Pentecostal Theology. Cyberjournal for Pentecostal-Charismatic Research. Acesso em: 24/01/16. Disponível em: Cyberjournal for Pentecostal-Charismatic Research
[6] Veja: MACCHIA, Frank. Pentecostal and Charismatic Theology. em: WALLS, Jerry L.  The Oxford Handbook of Eschatology. 1 ed. New York: Oxford University Press, 2010. pp 280- 294.
VONDEY, Wolfgang e MITTELSTADT, Martin William.  The Theology of Amos Yong and the New Face of Pentecostal Scholarship. 1 ed. Danvers: Clearence Center, 2013. p 127. 

quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

O que é heresia?

Por Gutierres Fernandes Siqueira

A palavra grega haireseis, traduzida em nossas Bíblias como "heresia", não tem o mesmo sentido eclesiástico de "erro doutrinário" nos textos paulinos de 1 Coríntios 11.19 e Gálatas 5.20. Nas penas do apóstolo Paulo essa palavra ganha a conotação de "dissensões decorrentes da diversidade de opiniões e objetivos"[1]. Apenas no texto de 2 Pedro 2.1 o sentido se aproxima levemente do uso contemporâneo. Em o Novo Testamento, como lembra Alister McGrath, “a formação de facções era vista claramente como uma ameaça à unidade das comunidades cristãs”[2]. A preocupação paulina, por assim dizer, era o espírito faccioso que minava a unidade da Igreja em nome de ambições e projetos pessoais ou, ainda, a vaidades de pequenos coletivos.  Ou como escreveu João Calvino: “A heresia aparece onde o mal é por demais acentuado, e avança de uma forma tão solerte, que a hostilidade se acentua de tal forma que os homens se dispõem francamente a dividir-se em partidos opostos”[3].
“O Evangelho triunfa sobre Heresia e a Serpente”.
Igreja do Rei Gustaf Vasa, Estocolmo, Suécia, escultura de Burchard Precht.

É interessante que, diante do ineditismo de posturas de conciliação entre diversos grupos protestantes - especialmente em questões divergentes e não essenciais - alguns insistem em colar no outro o carimbo de "herege". É quase um prazer mórbido de classificar cristãos de diferentes confessionalidades de não participantes da graça de Cristo. Tal postura não é um problema intelectual, mas, como disse Paulo, é de natureza carnal. É a velha ânsia do homem caído pelo divisionismo ou espírito de corpo. É o velho Adão chamando pela infantilidade da autoafirmação através do rebaixamento do próximo. É mais uma manifestação de vaidade e orgulho de pertencimento. A nobre tarefa de manutenção da sã doutrina se transforma em um trampolim de egos inflamados.

A unidade entre cristãos diferentes em assuntos diversos não é sinônimo de pragmatismo, mas tão somente de maturidade. Há uma base em comum, especialmente manifestada nos credos ecumênicos e universais, que diz muito do pouco que é necessário para unir os cristãos ao redor da fé em Cristo Jesus, Nosso Senhor e Salvador. Louvado seja o Senhor pelos cristãos que entenderam o velho princípio repetido de Richard Baxter a John Stott: “Em coisas essenciais, unidade; nas não-essenciais, liberdade; em todas as coisas, caridade”[4].

Ninguém pode negar que o Novo Testamento está cheio de referências apologéticas diante dos falsos ensinos gnósticos, antinominalistas, judaizantes e legalistas. Somente um leitor míope das páginas sagradas ignora tal fato. Por outro lado, há uma apologética saturada no evangelicalismo contemporâneo. O teólogo Craig L. Blomberg[5] comenta acertadamente que há uma tendência evangélica de criar cada vez mais identificações minimalistas nas confissões de fé a fim de enfatizar as diferenças contra outros grupos cristãos, e não a unidade. A batalha e o esforço pela fé ficam restritos à periferia do evangelicalismo e pontos não essenciais se confundem com doutrinas cardeais para o prejuízo dos envolvidos. A igreja hodierna ignora que a heresia não nasce somente na abertura desordenada da confessionalidade, mas como mostra especialmente a origem do terno e a história da cristandade, a heresia está pronta a florescer nos ambientes excessivamente restritivos e exclusivistas, assim transformando a multiforme graça de Deus em um conjunto de pensamentos facciosos e sujeitos sectários, sempre divididos em lutas fratricidas nas margens dos credos e confissões universais. O sectarismo vaidoso e orgulhoso das doutrinas secundárias, uma horrível redundância, afasta a essência cristã manifestada em Cristo Jesus.



[1] Thayer's Greek Lexicon.
[2] McGRATH, Alister. Heresia: Uma História em Defesa da Verdade. 1 ed. São Paulo: Editora Hagnos, 2014. P 49-50.
[3] CALVINO, João. 1 Coríntios: Comentário. 1 ed. São José dos Campos: Editora Fiel, 2013. pos 7407.
[4] STOTT, John R. W. Cristianismo Equilibrado. 1 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 1982. p 15.
[5] BLOMBERG, Craig L., “THE NEW TESTAMENT DEFINITION OF HERESY (OR WHEN DO JESUS AND THE APOSTLES REALLY GET MAD?)”, Journal of the Evangelical Theological Society 45/1 (March 2002) 59–72.

terça-feira, 19 de janeiro de 2016

Reflexões Pentecostais [1]

Por Gutierres Fernandes Siqueira

Leia abaixo as reflexões da última semana na página do blog no Facebook. Não deixe de acessá-la. O endereço é: https://www.facebook.com/teologiapentecostal/
__________________________________
CULTO ESPONTÂNEO

Os adeptos do reteté dizem valorizar a espontaneidade no culto. Todavia, espontâneo é quando alguém faz por si mesmo, sem ser incitado ou constrangido por outrem; voluntário; sem artificialismos ou elementos ensaiados ou estudados; natural, sincero, verdadeiro. Ou seja, nada menos espontâneo do que um culto do reteté. Sempre são os mesmos movimentos, o mesmo tipo de forró, a mesma gritaria, os mesmos clichês. Somente um culto verdadeiramente racional (Rm 12. 1-2) tem a espontaneidade do vento que sopra onde quer (Jo 3.8).
__________________________________
"NÃO SE PREGA MAIS A VOLTA DE CRISTO!"

Você já é ouviu ou falou essa frase? Ela é verdadeira, todavia incompleta. Não é somente a segunda vinda de Cristo que sumiu dos nossos púlpitos, mas também a primeira. Jesus, quando lembrado, é somente no papel de milagreiro, mas nunca de cordeiro, rei, Senhor, Deus glorioso... Precisamos pregar a encarnação e a parousia de Cristo Jesus, Nosso Senhor. E, assim, teremos a confiança paulina para repetir: "porque nunca deixei de vos anunciar todo o conselho de Deus" (Atos 20.27).

Uma janela de vitral na Igreja Evangélica Alemã Luterana de St. Matthew's em Charleston,
Carolina do Sul, que representa a chama do fogo sobre as cabeças dos discípulos
__________________________________
"DEUS AGE COMO QUER!"

Correto? Sim, correto. É verdade que Deus é soberano. Somente Ele possui autonomia plena. Somente Ele pode determinar a hora, o jeito e a quantidade de uma ação. Todavia, essa verdade não é uma concessão à baderna do homem. Deus é soberano, mas não a nossa liturgia. Deus é autossuficiente, mas não a nossa compreensão sobre milagres. Deus é poderoso, mas jamais agirá em desacordo com o Seu próprio caráter. Deus não rasga Sua própria Palavra. Portanto, desconfie de todo aquele que repete a frase "Deus age como quer" para justificar o próprio equívoco. "Porque Deus não é Deus de confusão" (1 Coríntios 14. 33).
__________________________________
O PENTECOSTALISMO NÃO TEM OUTRA BASE DOUTRINÁRIA SENÃO A BÍBLIA

Não é porque acreditamos na possibilidade de Deus falar pelos carismas (profecia, glossolalia, palavras de conhecimento e sabedoria) que abraçamos outra fonte doutrinária ou de tradição, a não ser a própria Bíblia. O verdadeiro pentecostal sabe que cada dom, cada manifestação, cada experiência, está sob o crivo das Sagradas Escrituras. Nenhum dom é igual ou mais importante do que a Palavra escrita, a maior das revelações após a encarnação de Cristo.
__________________________________
O PENTECOSTALISMO É CRISTOCÊNTRICO

O lema "Jesus salva, cura, batiza no Espírito Santo e em breve voltará" foi criado pelo pregador Albert Benjamin Simpson (1843-1919) e, no início do século XX, foi incorporado como o resumo da teologia pentecostal. Mas se atentem, o grande saldo dessa frase é o seguinte: Jesus Cristo é a figura central do cristão pentecostal. É Ele quem salva, cura, reveste e voltará em grande glória. O verdadeiro pentecostalismo é e sempre será cristocêntrico.
__________________________________
NÃO EXISTE MÉTODO PARA RECEBER O BATISMO NO ESPÍRITO SANTO

"E, de repente, veio do céu um som, como de um vento veemente e impetuoso, e encheu toda a casa em que estavam assentados." (Atos 2.2).

Os primeiros cristãos receberam o revestimento do Espírito enquanto estavam assentados. Eles não estavam pulando; não estavam em fila que imita um exército; não estavam em pé diante de algum "ministrador". Estavam todos sentados, como confirma o texto grego.

Não se deixe manipular. Não existe método para receber o revestimento de poder. Tão somente ore e espere em Deus. Creia que Cristo te batizará no Santo Espírito para que possas testemunhar o Santo Evangelho.
__________________________________
TEOLOGIA MADURA

Eu gosto muito dos teólogos contemporâneos James I. Packer, Alister McGrath, Donald A. Carson, Joseph Ratzinger, Tim Keller, Justo González, Peter Kreeft, Gordon Fee, Craig Keener, James Smith e tantos outros. Sempre leio o que posso desses autores. O que chama a minha atenção é que todos eles sabem dialogar com a diversidade teológica do cristianismo. Não me lembro de lê-los sob o tom do gracejo, da zombaria ou falta de respeito com outros irmãos da fé cristã, mesmo os mais engraçados como Kreeft. Ou seja, nada como um teólogo maduro.
__________________________________
APOLOGÉTICA POSITIVA


Matthew Henry dizia que "a melhor maneira de nos opormos ao erro é promovendo um conhecimento sólido da Palavra da Verdade". Ele tinha toda razão. É isso que diferencia uma apologética negativa da apologética positiva. A primeira se concentra demasiadamente no erro alheio e muitas vezes esquece que a melhor maneira de expurgar a heresia é a exposição da verdade, e não a exposição de pessoas. A nossa apologética não deve ser viciada em contrapropaganda.

sábado, 16 de janeiro de 2016

A Teologia de 'Daredevil'

Por Gutierres Fernandes Siqueira

A primeira temporada da série Demolidor[1] é uma das melhores que vi no ano passado. O que mais me impressionou na história desse super-herói de Hell's Kitchen, um bairro de Nova York, é o forte teor religioso da narrativa. Antes cabe um alerta: este texto do começo ao fim está cheio de spoilers, então, se você ainda não viu a série é melhor deixá-lo para ler depois.

A tradução do título no Brasil é ruim, mas a série tem o nome original de Daredevil, que pode ser traduzido como “temerário” ou “audacioso”, ou seja, uma “pessoa imprudente que gosta de fazer coisas perigosas”. A etimologia da palavra inglesa daredevil já mostra a tônica da história. A palavra é a junção do verbo “dare” (desafiar) mais o substantivo “devil” (diabo) e tem dois sentidos etimológicos: “aquele que é atrevido como o diabo” ou “aquele que desafia o demônio”.

Matthew "Matt" Murdock é esse personagem complexo. É alguém atrevido, mas que desafia o próprio demônio de Hell's Kitchen, mas conhecido como Wilson Fisk. Cristão, ele pergunta a um padre amigo se o diabo realmente existe. O padre responde positivamente e completa com uma frase memorável: o fato de o diabo existir com toda a sua maldade não torna você um homem bom. Ou seja, não é a maldade de Fisk e a sua destruição que acabará todos os demônios de Matt, mas é a reação ao seu próprio ser. O cristianismo ensina que a virtude não está na comparação de escala com a maldade alheia, mas sim no enfrentamento do próprio pecado.

Matt Murdock é também um super-herói perseguido pela culpa. A infância difícil marcada por um acidente e um pai fracassado traz a Matt o desejo de justiça. Todavia, entre a justiça e o justiçamento vingativo há uma linha tênue. Ele atua como advogado durante o dia e como justiceiro ao anoitecer. O advogado é apenas uma peça em um sistema de justiça com pesos e contrapesos, mas o justiceiro é ao mesmo tempo legislador, promotor, júri e juiz. O justiceiro é a própria tentação da encarnação de divindade. E é nessa relação complexa que nasce a culpa constante. Matt chega a pedir ao padre perdão prévio, mas o padre mostra a impossibilidade do pedido. A culpa, como diz o padre, não é algo ruim, mas é a consciência viva que permite a ação. O cristianismo, de fato, não olha a culpa como um limitador do homem, mas como o despertador sobre a realidade do mal contra a tentação de banalizá-lo. Ora, somente psicopatas não sentem culpa. E o peso da culpa é o primeiro passo para a mudança.

O vilão Wilson Fisk é também um personagem cheio de referências religiosas. Ele mesmo diz que Hell's Kitchen precisa morrer antes de renascer, parafraseando e distorcendo as palavras de Jesus. Na cena memorável de fuga do furgão da polícia, algo que só o cinema americano faz com maestria, Fisk conta que nunca foi um homem religioso, mas logo começa a narrar a parábola do Bom Samaritano com uma aplicação própria: ele se identifica com o salteador da história e não com o samaritano bondoso. Fisk teve igualmente uma infância difícil e especialmente marcada pela violência, mas a reação é contrária ao de Matt. Fisk não tem culpa, mas vergonha. Fisk não busca justiça, mas vingança, e como todo vingativo ele não suporta a humilhação pública. A reação de Fisk ao ser interrompido em um jantar com o seu grande amor, Vanessa, o leva a uma reação de extrema violência e, como não poderia deixar de ser, Fisk expõe a vingança  que se dá por causa da vergonha. Fisk lembra Caim: humilhado e amargurado que busca a violência para compensar o próprio rebaixamento. Caim e Fisk manifestam o que Helen Lewis definiu como a “fúria humilhada” [2]. O cristianismo ensina que a redenção começa no arrependimento e não no simples sistema de remorso e vergonha. O arrependimento vai além do reconhecimento de uma situação ruim, pois o arrependimento nunca casa com o ressentimento, mas apenas com a consciência da necessidade de uma mudança profunda. Fisk acredita apenas na própria violência como redentora. O cristianismo ensina que nem a violência é párea para a graça que redime. Sem derramamento de sangue, de fato, não há remissão de pecados, mas o único sangue remidor é do Cordeiro pascal e não da nossa própria fúria.

Há outras referências, mas vamos ficar por aqui, logo porque a segunda temporada pode trazer outras surpresas.





[1] Daredevil, EUA, 2015, Marvel e Netflix.
[2] LEWIS, Helen B. Shame and Guilt in Neurosis. Cit. In.: SANDAGE, Steven J. e SHULTS, F. Leron. Faces do Perdão. 1 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2011. pos 1569. 

sábado, 9 de janeiro de 2016

Os sinais dos tempos

Por Gutierres Fernandes Siqueira

O sermão escatológico de Jesus envolve uma sequência de sinais que aponta para um desfecho histórico importante. A leitura de Mateus 24. 1-14 é intrigante, pois algumas perguntas nascem: os sinais dos tempos estão no pretérito ou no futuro? Quando Jesus fala em falsos cristos, terremotos, guerras e rumores de guerras, esfriamento do amor etc., Ele se refere a um passado imediato ou ao futuro que seria o nosso próprio presente? Os sinais são para Israel ou para o mundo todo?

Este blogueiro é de tradição pentecostal e a minha denominação é fortemente influenciada pelo pré-milenismo dispensacionalista clássico[1]. Apesar disso, deste cedo questionei uma interpretação meramente futurista da passagem em apreço, pois sempre houve guerras, terremotos, falsos profetas e especialmente esfriamento do amor no decorrer dos tempos. Por exemplo, o número espantoso de vítimas no terremoto do Haiti em 2010 com aproximadamente 150 mil mortos é enorme, mas perto de algumas tragédias é relativamente menor. Por incrível que pareça, mas para um chinês do passado recente viver no Haiti contemporâneo seria um grande privilégio.

Estamos vivendo hoje as maiores tragédias já acontecidas? Bem, é comum você ouvir isso por aí. Embora nada esteja garantido e ainda hoje, do nada, a Terceira Guerra Mundial possa estourar ou um terremoto devastador mate milhões de pessoas, não é bem verdade que a nossa geração tem sido marcada especialmente pelas grandes tragédias naturais mais do que outras gerações. O mundo hoje é violento, temeroso e instável, mas sempre foi assim. Guerras e rumores de guerras são tão presentes como o próprio ar que respiramos.

A história de tragédias

No primeiro dia de novembro de 1755, a população de Portugal enchia as igrejas no Dia de Todos os Santos e, de repente, um forte terremoto destruiu a cidade de Lisboa que estava em peso rezando nas grandes catedrais ou nas pequenas paróquias. Aliás, não só um sismo destruiu Lisboa, como também um forte tsunami, que ocorreu horas depois, enquanto as pessoas aguardavam os barcos para fugirem da cidade. Enquanto uns estavam mortos pelos escombros, outros pela inundação do tsunami e ainda havia as vítimas dos grandes incêndios que se seguiram no mesmo dia como consequência dos abalos sísmicos. No apocalipse português aproximadamente 30 mil pessoas morreram no que mais parecia uma personificação das primeiras estrofes do hino Dies Irae.

O fato de a tragédia acontecer justamente em um feriado religioso levou muitos a refletirem.  Os católicos começaram a acusar que a minoria dos “hereges protestantes” estava atraindo a ira divina sobre o povo português. Os anglicanos na Inglaterra acusavam o papismo e a Inquisição de atraírem o juízo do Senhor sobre parte da Europa católica. O filósofo francês Voltaire (1694-1778) aproveitou o abalo sísmico para escrever um romance satírico contra o teísmo cristão e contra a ideia de providência divina onde o personagem principal é um ingênuo religioso otimista que explica o evento como o Juízo Final.

A China tem em sua história a marca das grandes tragédias. Em 23 de janeiro de 1556 um terremoto devastou o norte do país e aproximadamente 830 mil pessoas morreram. É de longe o sismo mais mortífero que se tem notícia. Há ainda outra tragédia natural impressionante na China: a grande inundação do Rio Amarelo em 1931 que matou diretamente ou indiretamente (por doenças e fome) três milhões de chineses. Mas nada se compara a outra máquina mortífera: a ditadura totalitária de Mao Tsé-Tung entre os anos de 1949 e 1976. As estimativas mais conservadoras dizem que pelo menos 40 milhões de chineses morreram nas mãos desse regime comunista. Agora, chama a atenção que a Conquista dos Mongóis no século 13 matou aproximadamente 40 milhões de pessoas na Ásia, mas com uma população muito menor. E a Rebelião de An Lushan acontecida durante a dinastia Tang, de 756 a 763, matou aproximadamente 25 milhões de chineses, o que em número atualizados para hoje na base de morte per capita seria como se hoje 429 milhões de chineses morressem numa guerra civil.

Esses só são exemplos de como a história está fortemente marcada pelos sinais que Jesus apontou. Agora, exegeticamente o texto de Mateus 24. 1-14 se refere a nosso tempo ou, preteritamente, ao período da destruição de Jerusalém no ano 70 A. D.? Há fortes evidências no texto bíblico para apontar que o principal destinatário do sermão de Jesus é o evento que se daria quase quatro décadas depois.

Antes que você fique escandalizado com essa conclusão, já que a mesma vai diretamente contra a tradição assembleiana que eu faço parte, quero citar uma bela reflexão do teólogo James B. Shelton, pentecostal como eu e um dos autores do ótimo Comentário Bíblico Pentecostal publicado pela CPAD. Shelton diz:

Não devemos nos surpreender de que até as profecias de Jesus apresentadas em trajes apocalípticos tenham um cumprimento mais imediato na história e cumprimentos posteriores no tempo do fim, no julgamento final e no estabelecimento do reinado de Deus. Precisamos olhar duas vezes em interpretações que reduzem o mistério da consumação de todas as coisas a diagramas lineares e fórmulas rígidas e frágeis. Apocalipse significa “mistério revelado”, e não necessariamente “mistério explicado”. Deve levar o leitor ao arrependimento, adoração e espanto, e não à exclamação: “Oh, consegui!” O tema central desta passagem (Mateus 24-25) é o julgamento que lida com a destruição de Jerusalém e a vida do Filho do Homem.[2]  

Mas calma. Não estou querendo dizer que o sermão escatológico de Jesus se resuma à destruição de Jerusalém. Não sou adepto de um preterismo puro. Embora essa seja a mensagem central da trama escatológica, sabemos muito bem que há um conceito importante na profecia: a dupla referência. Ou seja, “a primeira e direta referência da profecia encontra expressão numa linguagem que não deixa, entretanto, de ser passível de uma aplicação mais ampla”[3]. A mensagem nem é meramente passado nem meramente futuro. Há elementos de preterismo e futurismo.

PS: Este texto continua.



[1] É sempre necessário qualificar o dispensacionalismo entre clássico e progressista, pois ambas as escolas apresentam uma base comum, mas com as respectivas diferenças.
[2] SHELTON, James B. Mateus em: ARRINGTON, French L; STRONSTAD, Roger. Comentário Bíblico Pentecostal do Novo Testamento. 4 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2006. p 130.
[3] ANGUS, Joseph. História e Doutrina e Interpretação da Bíblia. 1 ed. São Paulo: Editora Hagnos, 2004. p n/e.

domingo, 3 de janeiro de 2016

Escatologia, história e ideologia

Por Gutierres Fernandes Siqueira

OBS: Neste trimestre escreverei uma série de artigos sobre escatologia. Acompanhe aqui o tratamento de diversos assuntos envolvendo esse rico tema da teologia cristã.

As ideologias seculares, especialmente a partir de Hegel (1770-1831), propõem uma história linear, progressiva, que se desenrola até um ponto. Vulgarmente, para o ideólogo a mera obediência a certas diretrizes torna a história um caminho com propósito e direção. A progressão dos fatos é normalmente entendida como um avanço contínuo que desemboca no sentido, na realidade última. A própria ideia de utopia traz em seu bojo a “consumação histórica”. O nazismo, em sua loucura, entendia que estava em uma missão para esterilizar o mundo das raças impuras. O progresso contínuo desembocaria no triunfo do arianismo. Os comunistas acreditam, ainda hoje, que o desenvolvimento da sociedade precisa passar pela sociedade sem classes, nem que para isso seja necessário suprimir a democracia e o Estado de Direito, todavia esse grande dia chegará! Os liberais, ou libertários, acreditam que o desenvolvimento econômico gerará um futuro inevitável de prosperidade e democracia e, para isso, basta o encerramento das amarras estatais. O neoconservadorismo acredita na ideia que a força é capaz de exportar a democracia americana pelo mundo, assim trazendo estabilidade e paz para ambientes conturbados como o Oriente Médio. Sim, todos acreditam em um final feliz.

O que une todas essas ideologias? Como já dito; o progresso contínuo cominando no estado perfeito é verdadeiro pano de fundo. A ideologia, assim, se comporta como uma religião milenarista. (Aliás, a ideologia é uma religião sem espiritualidade, pois todos os outros elementos estão igualmente presentes e distribuídos). Há fases de juízo, milênio e redenção. O protagonismo do homem sempre está presente na ideologia. Seja usando o Estado ou o mercado, a guerra ou a revolução, o homem pode progredir e impulsionar o motor da história.


Infelizmente, há cristãos que pensam igualmente. Esses esquecem que a escatologia cristã não propõe uma história linear, mas sim a própria transposição da história para a pessoa de Cristo. Cristo é o centro, e não o progresso contínuo. Não é o estado eterno, não é a redenção final, mas Cristo é o ponto focal. É Ele quem divide a história no antes e depois. É a partir dele que vivemos “os últimos dias”. Jesus não é apenas um personagem que permite o desenvolvimento da história do mundo (numa perspectiva pós-milenista) ou a destruição progressiva do mesmo (numa perspectiva pré-milenista). Ele é o próprio sentido da história, ou melhor, a história é transtornada por Ele desde o seu nascimento, ou melhor, desde a plenitude dos tempos. “Em Jesus Cristo, o Logos já não é o reino das ideias, dos valores e das leis que regem a história e lhe dão um sentido, é Ele próprio história”, como escreveu o teólogo Hans Urs Von Balthasar[1]. Ou resumindo, a escatologia precisa ser cristocêntrica, como qualquer teologia cristã realmente séria. 

O excesso de milenarismo na teologia joga no homem, e não em Cristo, a expectativa do protagonismo, assim como as ideologias seculares fazem. Há quem pense que o final dos tempos será uma revisão das Cruzadas onde próprio crente pode ser um novo soldado de Cristo para derrotar os mouros. Outros dizem que somos a “última geração antes do arrebatamento”. Ora, como ter tal certeza? Logo porque uma geração é constituída em 25 anos e qual a garantia que tal privilégio caberá a nós? Certa vez conheci um pastor, já falecido, que dizia que não experimentaria a morte, pois o Senhor havia revelado o seu arrebatamento. Outros podem pensar como o anabatista Jan van Leiden (1509-1536), que como “profeta”, dizia ter recebido a incumbência do próprio Deus para ser governador da Nova Jerusalém. “A paranoia muitas vezes é um protesto contra a insignificância”, como escreveu John Gray sobre o milenarismo secular.[2] Da mesma forma, na teologia cristã o excesso de expectativa sobre os fatos futuros pode apagar o advento  e resplendor de Cristo em nome da preocupação pelos tempos e estações. O crente esquece que o ator histórico por excelência é o próprio Cristo e, assim, quer fazer parte ele mesmo de algo extraordinário e magnífico para apagar a sua própria insignificância histórica. Não é à toa que alguns atrevidos pretendem calcular o tempo da vinda de Cristo e detalhar em demasia os fatos sobre o futuro, sendo eles mesmos os atores centrais dessas tramas.

Todos os excessos do milenarismo poderiam ser evitados ao lembrar as últimas palavras de Cristo nesta terra: “Não lhes compete saber os tempos ou as datas que o Pai estabeleceu pela sua própria autoridade” (Atos 1.7). Amém? Sejamos menos curiosos sobre os tempos e mais esperançosos em Cristo.



[1] BALTHASAR, Hans Urs Von. Teologia da História. 1 ed. Lisboa: Universidade Católica Editora, 2010. p 19.
[2] GRAY, John. Missa Negra: Religião Apocalíptica e o Fim das Utopias. 1 ed. Rio de Janeiro:  Editora Record, 2008. p 306.