sábado, 27 de fevereiro de 2016

Comércio na igreja

Por Gutierres Fernandes Siqueira

Se espera bom senso dos pastores e dirigentes para que não permitam a venda de nenhum produto durante o culto. O culto é celebração a Deus e não momento para uma pequena feira livre. É vergonhoso como em nosso meio o culto tem várias distrações que pervertem o momento de adoração e celebração ao Senhor.

E isso serve para livros e DVDs de pregadores e trufas ou salgadinhos da cantina. O melhor e o mais sensato é terminar o culto em oração para depois partir a esses anúncios. "A minha casa será chamada casa de oração", confirmou Jesus (Mateus 11.13).

terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

Cuidado com o denominacionalismo

Por Gutierres Fernandes Siqueira

Devemos amar, respeitar e cultivar a edificação das nossas denominações, mas ao mesmo tempo devemos evitar a todo custo o denominacionalismo.

O denominacionalista é o sujeito que aceita qualquer decisão administrativa, doutrinária e litúrgica da igreja a qual pertence sem nenhum filtro. Não há nele senso crítico. Não há discernimento. Não há reflexão.

O denominacionalista é também sectário. Só a denominação dele é correta no modo administrativo, na liturgia aplicada e na doutrina esplanada. O denominacionalista não quer saber de nenhum contato com outros grupos cristãos. No ledo engano, pensa ser autossuficiente.

Honre a sua denominação da maneira correta, ou seja, agindo como membro e não como boneco de ventríloquo.

domingo, 21 de fevereiro de 2016

Somente as Escrituras

Por Gutierres Fernandes Siqueira

Na Declaração de Fé das Assembleias de Deus no Brasil está escrito: "Cremos na inspiração divina verbal e plenária da Bíblia Sagrada, única regra infalível de fé e prática para a vida e o caráter cristão (2Tm 3.14-17)".

Vamos repetir? ÚNICA REGRA INFALÍVEL DE FÉ E PRÁTICA. Amém?

Ou seja, as nossas opiniões, tradições, experiências, usos e costumes, autoridade pastoral, dons revelacionais (profecias, línguas, sonhos, visões), etc. nada importam para a constituição de doutrinas e preceitos morais. Somente a Palavra de Deus deve ser o nosso parâmetro infalível.

Lei de Dockery

Stott e Graham, dois gigantes do evangelicalismo
Por Gutierres Fernandes Siqueira

Vi no ótimo blog do Justin Taylor (link aqui) uma frase do professor David Dockery, presidente da Trinity International University, onde ele define as posições clássicas do protestantismo a partir do que se pensa a respeito de Billy Graham. Ele criou o que podemos chamar de Lei de Dockery:

Um evangélico (ou evangelical) é alguém que gosta do Billy Graham; um liberal é alguém que pensa que Billy Graham é um fundamentalista; e um fundamentalista é quem acha que Billy Graham é apóstata.

Esse aforismo (que é apenas aforismo e não definição acadêmica!) pode ser adaptado para o Brasil da mesma forma. Todos que tentam uma vertente evangelical ora são acusados de fundamentalistas pelos liberais ora são acusados de liberais pelos fundamentalistas.

E que não fique dúvida: o editor deste blog admira intensamente o reverendo batista Billy Graham, assim como reverendo anglicano John Stott, outro grande nome do evangelicalismo. E, especialmente como pentecostal, eu só posso me ver como evangelical, logo porque para o fundamentalista separatista o pentecostal é um servente de Satanás que traz confusão à Igreja do Senhor e para o liberal, não menos pejorativo, o pentecostal é um ingênuo ludibriado por pastores manipuladores. Só no evangelicalismo o pentecostal encontra o devido respeito.

sábado, 20 de fevereiro de 2016

Uma grandiosa aula de teologia na Harpa Cristã

Por Gutierres Fernandes Siqueira

O hino “Meu Testemunho” (Harpa Cristã nº 87) consegue maravilhosamente sintetizar a doutrina da salvação. A letra foi escrita pelo pastor assembleiano Samuel Nyström (1891-1960) e é de uma qualidade teológica totalmente elogiável. De todos os trechos, talvez o melhor seja o segundo:

Santificado fiquei,
Quando a Ele roguei;
Ele me disse: tomai;
De minha graça usai.

Veja que não há nenhum traço de legalismo. A santificação não é entendida como obra humana ou fruto de determinados “tabus comunais”, mas vem como produto da graça divina. O hino como um todo destaca a graça do começo ao fim, seja para justificar, para salvar, para santificar ou como impulsionadora do serviço cristão.

E ainda há quem diga que não pregamos a justificação. Ora, não só pregamos como cantamos também. Os assembleianos que não fazem isso estão negando suas próprias raízes e envergonham a sua tradição.

Desonestidade intelectual entre os antipentecostais

Por Gutierres Fernandes Siqueira

A militância antipentecostal costuma apresentar frases, pregações, músicas e outras comunicações midiáticas dos sujeitos mais bizarros do pentecostalismo e neopentecostalismo para desqualificar a fé carismática, especialmente da Igreja Evangélica Assembleia de Deus. Ora, seria o mesmo que pegar John MacArthur Jr. e Lucinho Barreto e afirmar que ambos compartilham do mesmo pensamento porque são de igrejas batistas. Como assembleiano, eu discordo das bobagens dos Felicianos da vida igualmente a qualquer cristão que estuda a Bíblia na Igreja Presbiteriana ou Anglicana. 

Se você quiser conhecer o que realmente a Assembleia de Deus pensa oficialmente sobre um assunto, por exemplo, leia os documentos oficiais (periódicos como o Mensageiro da Paz e a Revista Obreiro, as Lições Bíblicas e livros de referências como Teologias Sistemáticas). Pode-se discordar de um ou outro ponto nos escritos desses documentos, mas o crítico estará realmente diante do pensamento assembleiano e não diante de um espantalho fácil de chutar. 

A título de exemplo, segue abaixo o jornal Mensageiro da Paz, órgão oficial da denominação, onde condena fortemente a Bênção de Toronto. A edição foi publicada no quarto trimestre de 2011. 



Os pentecostais não combatem a Teologia da Prosperidade?

Por Gutierres Fernandes Siqueira

Muitas vezes, até mesmo no espaço de comentários deste blog, pessoas acusam os pentecostais de não combaterem a maldita Teologia da Prosperidade (ou Confissão Positiva, Movimento da Fé, etc.). Que acusação injusta! Só mesmo quem não acompanha a literatura produzida sobre o assunto pode falar tamanha bobagem.

Para esses eu pergunto: vocês já ouviram falar no Dr. Walter Martin (1928 - 1989)? O fundador do Christian Research Institute era pentecostal. Aliás, a melhor apologia erudita contra a Teologia da Prosperidade veio de pentecostais: Gordon D Fee, Dan McConnell, Charles Farah, Elliot Miller, H. Terris Neuman e Dale H. Simmons. E no Brasil não foi diferente. Na efervescência do movimento no país três obras significativas foram publicadas em 1993 -- “O Evangelho da Prosperidade”, de Alan B. Pieratt; “O Evangelho da Nova Era”, de Ricardo Gondim; e “Supercrentes”, de Paulo Romeiro, sendo dois desses autores de confissão pentecostal.

E nos últimos anos em nossa nação? Ora, pentecostais como Esequias Soares, Ciro Zibordi, Geremias do Couto, Walter McAlister, José Gonçalves, Ricardo Bitun, Claudionor Corrêa de Andrade etc. também escreveram sobre o assunto.

Portanto, talvez você hoje repita uma frase contra a Teologia da Prosperidade aprendida justamente em um livro escrito por algum pentecostal.

"Pregar a Cristo é o único meio efetivo de pregar moralidade"

Thomas Chalmers
Por Gutierres Fernandes Siqueira

O grande pregador escocês Thomas Chalmers (1780-1847) pregou por oito anos mensagens onde só apresentava mandamentos, regras, leis, sentenças, preceitos etc. E não havia naquele ministério nenhum fruto de conversão. Até que um dia Chalmers entendeu os limites da mensagem moralista, pois embora seja fácil apontar a transgressão, o moralismo não pode libertar o homem do mal. A lei é ótima reveladora do pecado, mas não redime o pecador. Uma mensagem que só apresenta o problema e esquece da graça de Cristo não é cristã. É por isso que o Espírito Santo convence o homem do pecado, da justiça e do juízo (Jo 16.8), mas também o regenera (1 Co 4.15; Fm 10; At 26.17) e torna-o frutífero nas virtudes da graça (Gl 5.23, Rm 5.5). Ou seja, o trabalho do Espírito é sempre completo e libertador, enquanto o nosso moralismo retórico é vazio, incompleto e opressor.

“A não ser depois de ter exortado meus ouvintes a aceitar a graciosa oferta do perdão, através do sangue de Cristo, é que soube daquelas reformas que foram o objetivo supremo das minhas primeiras pregações. Pregar a Cristo é o único meio efetivo de pregar moralidade”, escreveu Thomas Chalmers.

Lawrence Olson e o Pacto de Lausanne

Lawrence Olson 
Por Gutierres Fernandes Siqueira

Você já ouviu falar no "Pacto de Lausanne"? A importância do documento, fruto do Congresso de Lausanne (Suíça) em 1974, esteve em despertar o cristianismo protestante para a missão evangelizadora que abrange aspectos sociais e culturais. Além disso, foi uma bela demonstração de unidade entre os evangélicos do mundo todo. O congresso contou com os gigantes Billy Graham e John Stott como incentivadores.

Sabe uma curiosidade? A CPAD (Casa Publicadora das Assembleias de Deus) foi quem publicou o Pacto de Lausanne no Brasil pela primeira vez. A iniciativa partiu do pastor assembleiano Lawrence Olson (1910-1993). Olson, um entusiasta da educação teológica e do uso da mídia para a proclamação do Evangelho, também cultivava um carinho especial para a ideia de uma missão abrangente. 

O pentecostalismo brasileiro, em suas expressões clássicas, sempre se viu como parte do evangelicalismo mundial. Somente as alas mais fundamentalistas do protestantismo tentam desdenhar o pentecostalismo como um parasita da fé protestante. O bispo anglicano Robinson Cavalcanti (1944-2012) costumava lembrar com gratidão a importância do gesto de Olson. Cavalcanti tinha sempre a nobreza em diferenciar o pentecostalismo do pseudopentecostalismo. 

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

Sob os Céus da Escócia, uma resposta à resenha crítica

NOTA DO EDITOR DESTE BLOG: A publicação deste texto visa o debate entre continuístas e cessacionistas. Evite-se , por favor, qualquer comentário de natureza personalista. Recomenda-se, também, a leitura do texto do reverendo Alan Renê de Lima (http://www.cristaoreformado.com/2016/01/seria-confissao-de-fe-de-westminster-um.html?m=1), assim como o livro "Sob os Céus da Escócia" (Editora Reflexão) do bispo Renato Cunha. Qualquer comentário que fuja ao propósito exposto não será publicado. Este blog, cabe lembrar, não tem por hábito a publicação de textos de terceiros, mas abrirá uma exceção a fim de incentivar pontos de contato entre as tradições reformada e carismática. E dois conselhos: (1) guarde suas energias para a proclamação do Evangelho e não para a veemência diante de uma doutrina secundária. (2) E nunca esqueça que debate é troca de ideias e posicionamento, não troca de ofensas e sectarismo.

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UMA RESPOSTA AO ALEXANDRINO
Uma réplica em defesa de Sob os céus da Escócia
Por Renato Cunha

O tão anunciado artigo sobre o livro “Sob os céus da Escócia (2015)” da lavra do Rev. Alan Renê de Lima foi finalmente publicado. Em primeiro lugar, analisando particularmente seu conteúdo, tive a impressão (isso só percebe quem conhece o livro) que o articulista leu a obra, mas não entendeu sua proposta. Além do mais, que ele não tenha gostado do livro isso restou claramente evidenciado e é até um direito que lhe assiste. Por outro lado, e com máxima distinção, igualmente evidente que não o entendeu. Todavia, como ele se esforça para descredibilizar o livro, sobretudo no tocante às fontes, julgo ser interessante logo de início tecer algumas considerações a respeito. Portanto, afirmações equivocadas de menor repercussão, como minha qualificação como ministro da Igreja Episcopal Carismática, serão deixadas de lado.
O articulista parece estranhar não apenas as fontes, mas igualmente os eventos envolvendo profecia preditiva, curas e ressureições informados no livro. Com efeito, todos os relatos carreados em Sob os céus da Escócia, são registros históricos extraídos de fontes reformadas e calvinistas, escritas por autores igualmente reformados e calvinistas. Gente séria que angariou reputação ilibadíssima, tais como John Howie, Theodore Beza, Robert Fleming, London Gardner, Patrick Hamilton, Peter Hume Brown, Patryck Walker, Alexander Smellie, et al. Todavia o articulista manifesta seu inconformismo talvez porque tais relatos confrontem sua posição teológica. As fontes das quais me utilizo, foram utilizadas pelo Dr. Lloyd-Jones em vários escritos seus, pelo Dr. Ian Murray em The Puritan Hope (Banner of Truth, 1971), bem como por outros tantos escritores reformados. O uso de tais relatos não ficou restrito aos séculos 16, 17 e 18. Em um de seus livros, Lloyd-Jones diz que
houve um homem chamado John Welsh que era tão reformado e tão calvinista como seu sogro, John Knox. Foi dito dele - e há boa prova disso num livro escrito por um escritor igualmente reformado e calvinista - que, quando ele residia no sul da França, foi usado para ressuscitar uma mulher dentre os mortos. [...] Ou considerando o dom de profecia, façamos uso da ilustração. Tome de novo o caso de John Welsh, ou de outro grande ministro da Escócia, Alexandre Peden. Se vocês lerem as biografias desses homens, verão que eles puderam proferir profecias de eventos que aconteceriam na Escócia - e que de fato aconteceram.[1]

A diferença substancial entre os apontamentos do Dr. Lloyd-Jones e os apresentados em Sob os céus da Escócia é que dou nome aos protagonistas, enquanto Jones apenas menciona fatos. Ele fala da ressureição, enquanto eu, informo ao leitor outros dados históricos como detalhes que o envolvem, à semelhança da ressurreição do Lorde Ochiltree pelas mãos de Welsh.[2] Dou vida e precisão histórica aos relatos citando profecias nos ministérios de John Welsh, John Knox, George Wishart, Alexander Peden, John Davidson, Richard Cameron, Robert Bruce e John Semple. São indubitavelmente oito respeitáveis ministros. Não há na minha lista nenhum louco ou fanático. Todos homens que amavam a Palavra e pregavam-na com todo ardor. Contudo, profetizaram coisas impressionantes, incluindo detalhes sobre as mortes de determinadas pessoas com aquela precisão cirúrgica que chega a causar assombro.
Além do mais, quando isso foi possível, fiz uso de mais de uma fonte. Tome como exemplo o relato sobre uma ocorrência de profecia com João Calvino registrada por Beza e que foi publicada na biografia do principal reformador em Genebra. Além de apontar o registro de Thomas Boys (1832), informo ao leitor que o mesmo relato se encontra na obra de London Gardner (1744), bem como numa tradução do latim para o inglês publicada em 1844 pela Calvin Translation Society. Foi a partir desse tipo de obra altamente qualificada que pesquisamos. Contudo, o articulista tem insistido “ad nauseam”, em atacar a credibilidade afirmando categoricamente que o livro é mal pesquisado. O que não é verdade.
O articulista teve dificuldade para localizar fontes e protesta logo de início que a confusão se dá por uma suposta imperícia minha em alocar as referências seguindo rigor das normas científicas:
“Um exemplo disso pode ser percebido no fato de que, ao tratar do alegado continuísmo do escocês George Gillespie nenhuma fonte primária é apresentada, com exceção da menção a dois tratados sobre o dom de profecia no Novo Testamento (p. 65, nota de rodapé nº 15). Não há nenhuma declaração do próprio Gillespie. Há apenas testemunhos oriundos de biografias. Na verdade, as únicas palavras de Gillespie documentadas (p. 64) são tomadas a partir de uma fonte secundária difícil de identificar, dada a maneira equivocada como as notas de rodapé estão organizadas do ponto de vista da metodologia da pesquisa científica.
Quanto ao protesto acima, explico: As referências de nº 13 e 15, estão jungidas à 33 que na página 58 menciona a obra sobre a qual eu extraio as citações de Gillespie. É verdade de fato que Gillespie faz um apanhado de trabalhos inclusive da Patrística tais como Crisóstomo, mas o faz afirmando claramente que tais testemunhos são tomados como sua posição particular e conclui dizendo que ele próprio testemunhara ocorrências proféticas em seus dias:
“E agora, tendo ocasião, eu tenho que dizer isto, para a glória de Deus, havia na Igreja da Escócia, antes do tempo da nossa primeira Reforma e depois da Reforma, em ambas as ocasiões tais homens extraordinários, superiores a simples pastores e mestres, nivelados aos santos profetas recebendo revelações extraordinárias de Deus e predizendo diversas coisas incomuns e acontecimentos notáveis, as quais aconteciam promovendo grande admiração em todos aqueles que os conheciam em particular.”( p. 64, nota 13).

A propósito, a nota de rodapé de número 15 na página 65, tão somente descreve o título dos ensaios sobre a matéria escritos por Gillespie em Treatise of Miscelany Questions, parte de Works of George Gillespie – One of the Commissioners from Scotland to the Westminster Assembly. Contudo, tais ensaios são mencionados apenas como informação complementar, caso o leitor deseje averiguar e pesquisar mais acuradamente. Eu lançarei mão deles no volume 2. Sobre a obra mencionada acima, a edição que tenho é um reprint do original de 1644 e publicado pela Still Waters em 1991. A propósito, tal citação é extraída da obra adrede anunciada especificamente da pág. 30 de Treatise of Miscelany Questions. Seria esta fonte marginal ou sem credibilidade? O esforço do articulista demonstra-se mais como o desejo de confundir a mente do leitor, do que propriamente auxiliá-lo.
Ele também me acusa de ter afirmado o viés continuísta da CFW, quando em nenhuma das páginas do livro o tenha feito. Nem tampouco afirmei categoricamente que qualquer dos puritanos citados fosse continuísta. Disse que a CFW é um documento redigido com caráter conciliatório. Segundo eu o Dr. Milne entendemos, sua concepção se presta à articulação com fins políticos de pacificação, necessária em um cenário religioso, civil e político bastante conturbado. Neste sentido, não importa o que cada puritano em particular escreveu em defesa de um cessacionismo específico ou de um continuísmo incipiente. Importa é que o enunciado da Confissão apenas se opõe tacitamente quanto à possibilidade de novas revelações com força de mandamentos universais para a Igreja. Este propósito da profecia, sustento no livro, cessou. A que permanece em nossos dias, também sustento no livro, é de caráter extraordinário. Assim sendo, eu não consigo entender que o articulista tenha interpretado como completo revisionismo histórico o simples apontamento através da história da mentalidades quanto ao surgimento do cessacionismo atual como uma excrescência teológica.
Por conseguinte, para quem alega possuir credenciais acadêmicas e treinamento teológico formal, o articulista se autodenuncia quando não compreende evidências muitos claras, que podem ser deduzidas facilmente com uma leitura cuidadosa. Tome o exemplo de quando ele diz que eu não me preocupo em apresentar uma definição sobre qual seja o cessacionismo confrontado na obra, e me acusa de atacar tão somente o sistema quando lhe associo ao ateísmo bem como ao liberalismo de Bultmann. No entanto, eu apenas usei a mesma “régua” utilizada por MacArthur quando este mediu o continuísmo – sem conceitua-lo devidamente, diga-se de passagem. “Com a medida que medirdes, vos medirão também”, disse nosso Senhor. Pois bem, no livro Os Carismáticos (Fiel, 1995), MacArthur a certa altura na página 61 defende a ideia de que a teologia que “possa resultar de nossa experiência não é originária do movimento carismático. Ironicamente, diversos elementos, todos anti-cristãos, têm contribuído para que esse conceito de teologia experimental cresça: Existencialismo, Humanismo e Paganismo.”. Então o continuísmo pode ser acusado injustamente de possuir raízes no paganismo, enquanto o cessacionismo não pode sê-lo por irmanar-se a pressupostos anti-sobrenaturalistas ateístas ou liberais? Se MacArthur pode proceder como demonstrado em julgamento particular, seus opositores podem fazê-lo ao refutar o tipo de cessacionismo que ele abraça. Por outro lado, está tão claro que eu trabalho o cessacionismo mais vulgarmente conhecido e divulgado aqui no Brasil, que julguei desnecessário expor os detalhes das variações próprias do sistema. Ora, se na obra eu dialogo com as teses de cessacionistas tais como Richard Gaffin (p.175ss), Sinclair Ferguson (p. 196), Brian Schwertley (p.184), MacArthur (p. 157ss), Palmer Robertson (p.171), eu realmente necessito esclarecer contra qual cessacionismo me insurjo?
Ele também afirma que eu sustento alegação de que George Gillespie era continuísta. Por outro lado, há uma afirmação muito clara carreada no livro que não foi transcrita no artigo, onde digo:
“Ainda que não seja provada sua aliança com o continuísmo, Gillespie se rendeu aos fatos e os explicou da única forma que poderia tê-los explicado: afirmando que, tendo sido encerrado o cânon bíblico, Deus falou extraordinariamente através de instrumentos humanos, revelando fatos impressionantes que se cumpriram para espanto de toda nação escocesa” (p.65).
Onde estaria minha alegação de que Gillespie era continuísta? O articulista poderia ter transcrito algum trecho do livro com a dita alegação, o que não ocorreu. Não satisfeito, afirma que além de Gillespie, rotulei Calvino, Samuel Rutherford e Jonathan Edwards igualmente como continuístas. Ora, vejamos se procede a afirmação. Na página 57 após informar sobre determinada ocorrência profética com Calvino, digo o que segue: “Neste sentido, é possível admitir a possibilidade de clarividência sem ser necessariamente um carismático. E prossigo dizendo que “a despeito do que Calvino tenha escrito dentro de uma visão pessoal sobre pontos assumidamente controversos, ou sobre textos em particular, foi posto à prova, conforme demonstrado na narrativa há pouco citada e vista na sua biografia escrita por Beza, qual seja, que ocorrências miraculosas não foram completamente excluídas nem do seu credo nem da sua experiência” (p.58). Na página 94, analisando algumas ocorrências no ministério de George Wishart (1513-1546), assevero: “É preciso que se diga que tais reuniões não eram ajuntamentos em busca novas revelações proféticas. O povo juntava-se para ouvir atentamente a exposição bíblica”. E mais adiante, na página 96, ainda sobre ele, afirmo: “As profecias aqui registradas não eram o norte de seu ministério. Sua função como pregador da Palavra inspirada era a atividade em que se dedicava. Pregar as Escrituras com fidelidade de maneira a instruir o povo em todo desígnio de Deus era seu alicerce ministerial. Mas isto não o impediu de se dedicar à oração e de ser canal da vocalização profética em seu tempo.” Já no capítulo onde analiso as profecias de John Knox (1505-1572), na página 106, registro minha impressão acerca de um relato do próprio em que ele afirma que suas esperanças “não repousam em seu poder profético, porque este poder estava sujeito à cessação. Sua confiança está alicerçada na Palavra revelada, ainda que ele seja difusor da anunciação de fatos estranhos e incomuns em seus dias”. E desta forma, sigo no decorrer do livro inteiro fazendo afirmações semelhantes. Assim sendo, quem de fato usa textos de maneira dogmaticamente seletiva? O autor do artigo somente confirma que se utiliza da máxima de Lenin: “Acuse seus adversários daquilo que você faz; chame-os daquilo que você é.”
Quanto à minha interpretação acerca das linhas gerais da Confissão de Fé, bem como da Assembleia que a redigiu, o articulista omite expressões centrais de meu raciocínio e induz o leitor de sua crítica a erro. Ele pinça determinada afirmação particular para dizer que a linha de pesquisa empreendida no livro sugere que os delegados de Westminster combatiam tão somente o romanismo. E omite do contexto uma palavra crucial para o entendimento de meu raciocínio. Na transcrição abaixo, o uso da expressão “por exemplo” por si só explica que meu intento é dizer que a prática do comércio de indulgências promovida pela ICAR, era “um dos” problemas. Apontar “um dos problemas”, não é o mesmo que afirmar haver um “único”:
Os teólogos de Westminster estavam se opondo claramente à tradição romanista das indulgências, por exemplo. Neste sentido, ninguém poderia se apresentar como portador de nova revelação divina referente à salvação humana, tendo em vista o assentamento definitivo de doutrina a respeito. (p.36).
Diferente do afirmado, eu não situo a polêmica como direcionada única e exclusivamente à Igreja de Roma como sugerido. A propósito, mantenho a mesma percepção de Robert Letham e do Derek Thomas ao apontar a disputa como antiga. O conflito com os romanistas e anabatistas é denunciado por mim na página 49 Sob os céus da Escócia, da seguinte forma:
Ele também pronunciou-se contra o erro daqueles aos quais chamava de entusiastas, que relativizavam as Escrituras e a autoridade da Igreja ao apelarem para supostas revelações diretas e especiais de Deus. Não obstante, Calvino os combatia porque, em geral, os ensinos dos entusiastas referentes às reivindicadas manifestações de revelação eram contrários às Escrituras Sagradas. O conteúdo dos ensinos contrariava a Bíblia e, portanto, colocavam em xeque as revelações canônicas. [... Neste caso, para Calvino, seria um erro conceber que Deus entrasse em demanda contraditória contra si próprio. Em ligeira síntese, Calvino combate a pretensa autoridade do entusiasta de seu tempo, sobretudo porque seus ensinos contrariavam a Bíblia e isto era inconcebível para o reformador.
Antes, no entanto, ainda na página 26, trago ao conhecimento do leitor quais seriam tais ensinos e revelações, ao citar, como exemplo, o conteúdo das pregações apocalípticas de Melchor Hoffman.  E quanto aos quakers, não merece prosperar a alegação do articulista de que os conflitos com eles se davam porque entenderam a CFW como cessacionista. A refrega era na busca pela apropriada definição sobre o aspecto ordinário/extraordinário da revelação imediata. O que eles não aceitavam era que as comunicações do Espírito com o espírito do crente fossem confinadas ao status de extraordinárias. Para os quakers, essa comunicação tinha caráter essencialmente ordinário. John Howe teceu considerações importantíssimas a este respeito em The Whole Works of John Howe, estabelecendo distinções entre revelação sobrenatural imediata, mediata, profecia, iluminação, premonições, etc.. Samuel Rutherford definiu a revelação sobrenatural em quatro categorias distintas (p. 69), a saber: 1) Revelação profética; 2) Revelação especial somente ao eleito; 3) Revelação de alguns fatos estranhos a homens piedosos; 4) Revelação falsa e satânica.[3] Com isto, buscava-se preservar as revelações canônicas na formação da Escritura, de outras manifestações que se mostravam recorrentes no século 17. Eu avalio as conclusões de Rutherford com muita seriedade porque entendo como o Dr. Poythress que ele foi efetivamente o líder “na orientação teológica dos assuntos mais controvertidos discutidos na Assembleia” (p.68). Sua posição sobre o tema foi acatada, qual seja, que revelação sobrenatural, como evento extraordinário, pode acontecer mesmo com o encerramento do cânon. Além dos dois, William Bridge fez o mesmo especialmente no sermão Scripture light the most sure light. A ideia era separar o joio do trigo, visto que muitos grupos místicos reclamavam possuir revelações diretas da parte de Deus e causavam toda sorte de confusão com vários ensinos contrários à verdade revelada inclusive pelo próprio Cristo. Por isso o uso, por exemplo, do texto de Hebreus 1.1 na CFW.
Mas para entender melhor o conflito envolvendo os quakers, é de bom alvitre ouvi-los. Robert Barclay (1648-1690), importante teólogo do movimento, apelou para o texto de que “ninguém conhece o Filho senão o Pai; e ninguém conhece o Pai a não ser o Filho, e aquele a quem o Filho o desejar revelar” (Mt 11.27. KJV). Para quakers proeminentes, esta revelação do Filho se dá “no” e “pelo” Espírito, portanto, o testemunho deste é o único meio pelo qual o cristão pode alcançar o verdadeiro conhecimento de Deus. A cizânia se desenrolava no sentido de que para estes a Escritura não poderia ser única regra de fé e prática, mas o Espírito Santo, revelando-se internamente ao crente. Responder a este padrão subjetivo foi o motriz dos esforços puritanos para assentar a cláusula de que a Bíblia, mediada pelo Espírito era de fato a fonte pela qual todas as demandas deveriam ser julgadas. Este ponto da disputa restou evidente na conhecida Confissão de Fé Quaker The Confession of the Society of Friends, Commonly Called Quakers (1675).
Barclay também sugere que a ferrenha oposição dos quakers em relação aos puritanos girava em torno de uma exacerbada busca por conhecimento acadêmico. Esta busca, segundo ele, não avalizava o verdadeiro conhecimento de Deus nem era garantia de espiritualidade profunda. Defende também que embora a Escritura fosse autoritativa, era um fundamento secundário e subordinado ao Espírito. Este é o guia e principal líder segundo o qual os santos são levados à verdade. Para os quakers, o Espírito é superior e não se subordina à Palavra. Por sua vez, George Fox (1624-1691) afirmou o Cristo como o Logos divino, o Verbo encarnado, e a Escritura como palavras de Deus. Fox sustentava a superioridade de Cristo em relação à Escritura.[4] Em síntese, as Escrituras são palavras de Deus, mas não é Deus.
A discussão com os quakers e outros místicos não estava associada necessariamente quanto à possibilidade de revelação extra-bíblica, mas em definir este tipo de revelação como extraordinária, ao invés de ordinária como desejavam os quakers. Mas este detalhe foi expresso na Confissão de maneira subjacente. 
Os quakers também foram combatidos pelos puritanos por que algumas das conclusões eram flagrantemente contraditórias, não apenas em relação à Escritura mas às próprias teses que defendiam. Tome como exemplo uma declaração confusa de Barclay ao afirmar que “a revelação interna não contradiz as Escrituras e nem a correta e sã razão”, para logo em seguida afirmar que “a revelação não pode ser julgada pelas Escrituras, nem pela sã e correta razão.” Os puritanos disputavam a própria existência de revelações imediatas nos moldes quakeristas. Para eles, a ocorrência de profecias não era mais possível de acontecer “ordinariamente” como no NT. Extraordinariamente, talvez.
No entanto, o articulista alega que a interpretação dos quakers sobre o que se redigiu no capítulo primeiro da CFW é crucial para entender que os divines estavam de fato falando irrestritamente de cessação revelacional imediata. Parece-me claro que Richard Cameron (1647-1680) e outros tantos puritanos nem se deram conta que a CFW era cessacionista nestes moldes, visto que em anos posteriores à publicação verificou-se atividade profética entre eles. Uma das profecias, pronunciada por Cameron, é citada na página 125 de Sob os céus da Escócia, muitos anos depois do encerramento de Westminster.
O articulista fez uso da obra de David Dickson, sob a premissa de que este possui autoridade para firmar entendimento definitivo sobre a CFW por ser dela contemporâneo, e, portanto, familiarizado com seu contexto religioso, bem como com as suas conclusões. Convém perguntar: Os quakers também não eram contemporâneos e também não estavam familiarizados com o contexto? Os anabatistas, seekers, et al., também não? No entanto, ele traz ao nosso conhecimento a obra intitulada Praelectiones in Confessionem Fidei relatando impressões sobre um tipo rigoroso de cessacionismo puritano esposado por Dickson. Valer-se de Êxodo 17.14 para afirmar categoricamente que quanto aos modos de revelação “[...] todos findaram com a escrita” (Êx 17:14), me parece um exagero típico. Onde tal “indício” escriturístico pode ser utilizado apropriadamente como prova de cessação revelacional ad eternum? Apenas por que o Senhor ordenou que se registrasse um fato e que este fato memorial fosse lido para Josué? Usar este tipo de exemplo para determinar a cessação revelacional definitiva é o mesmo que apresentar uma faca como evidência de um homicídio praticado com arma de fogo.
A teologia reformada não é tão melindrosa como a erudição cessacionista deseja nos fazer crer. Sobre a questão que envolve a natureza do NT, por exemplo, Calvino sobre o texto de 2Tm 3.17, disse:
Ao falar 'Escritura' significa que Paulo está falando simplesmente do que chamamos de Antigo Testamento; como ele pode dizer que pode fazer um homem perfeito? Se é assim, o que foi adicionado mais tarde através dos Apóstolos parece ser supérfluo. Minha resposta é que, tanto quanto a substância da Escritura está em causa, nada foi acrescentado. Os escritos dos apóstolos não contém nada além de uma simples e natural explicação da Lei e dos profetas, juntamente com uma descrição clara das coisas nele expressas.[5]

Por conseguinte, o articulista se socorre em Robert Letham, corroborando a tese de que “a questão da revelação especial não foi alvo de discórdia que demandasse uma acomodação de opiniões divergentes.” E prossegue argumentando que “houve acordo generalizado sobre o seu conteúdo”. Mas não me ocorre tenha eu afirmado no livro que havia dissensão no Concílio sobre o conteúdo da revelação especial conforme registrado na Bíblia. Sugere também que os debates na Assembleia de Westminster mantinham-se sob um “clima ameno”, sem maiores controvérsias e polêmicas. Ora, se John Milton, herege uni assim como erastianos e representantes do Parlamento (alguns descrentes?) estavam presentes, dizer que não houve polêmica é ignorar a natureza dos conflitos humanos. John Milton mesmo é conhecido por uma posição controvertida sobre o divórcio[6] que foi rechaçada pela Assembleia. Mas ouçamos o Dr. Milne, sobre o background daqueles delegados:
“Eles vieram para a Assembleia com um pano de fundo profundamente influenciado por um protestantismo polêmico que deve muito a esses estudiosos como Martinho Lutero, João Calvino, Zwinglio Huldrich, Henry Bullinger e Pedro Mártir Vermigly. Enquanto João Calvino foi sem dúvida a força dominante entre os puritanos e os escoceses ele não era de modo algum a única. Além disso, o “Calvinismo” foi representado por um espectro de opiniões teológicas dentro de parâmetros reconhecíveis. Isso ficou evidente na própria Assembleia, onde os debates sobre a doutrina da expiação foram expostos radicalmente com diferentes interpretações da sua extensão e aplicação. Não devemos supor que porque Calvino manteve certos pontos de vista sobre a cessação da revelação sobrenatural, estes foram necessariamente espelhados nos documentos da Assembleia de Westminster.”[7]

Quanto aos comentários sobre o termo “salvação” que uso para revisar a majoritária interpretação da Confissão, o articulista subscreve que entre os puritanos havia aplicação diversa. A tese do Dr. Milne está correta, no entanto o articulista revela não ter apreendido acertadamente seu escopo. Ou seja, ele busca provar, valendo-se do Dr. Milne, que o termo “salvação” expresso no capítulo I da CFW, tem uma abrangência tal que se torna difícil saber qual tipo de salvação os delegados de Westminster tinham em mente. E que em relação a isto, tanto minha análise, quanto minha conclusão laboram em erro. A questão é que meu ponto trata especificamente do termo e seu uso no capítulo I; e mesmo este uso tem conexão direta com os demais ao longo do documento (2.1; 3.5,6). Não há conflito entre a minha tese e a do Dr. Garnet Milne. Ou seja, ainda que o termo “salvação” pudesse ter significado diverso na CFW, no capítulo primeiro ele se relaciona essencialmente com soteriologia e com uma teologia escatológica do Reino mais abrangente com referência ao seu aspecto primordialmente espiritual. Berkhof salienta que “o Reino de Deus é representado não como temporal, mas como um reino eterno (Is 9.7; Dn 7.14; Hb 1.8; 2Pe 1.11). Assim, entrar no Reino do futuro é entrar num eterno estado (Mt 7.21-22), é entrar na vida (Mt 18.8-9), é ser salvo (Mc 10.25-26)”.[8]
É flagrante neste sentido que o articulista parece não haver compreendido a conclusão do Dr. Milne. Este, quando menciona os aspectos temporais da salvação, avaliados sob o crivo da teologia do Reino de Deus mantém entendimento próximo ao meu. Contudo, sobre isto, o articulista diz:
“Milne observa ainda que uma pesquisa nos Padrões de Westminster “revela que o substantivo, as formas verbais e o conceito de ‘salvação’ aparecem muitas vezes ao longo desses documentos, mas a definição do conceito não é uniforme”.[8] Como evidência dessa afirmação creio que alguns exemplos possam ser apresentados. No Capítulo 2.1, sobre Deus e a Santíssima Trindade, salvação é entendida como perdão dos pecados e libertação da justa retribuição da ira de Deus que não inocenta o culpado. Em 3.5, sobre o Eterno Decreto de Deus, salvação é conceituada como eleição em Cristo Jesus para a glória eterna. Já no parágrafo 6 desse mesmo capítulo os elementos dessa salvação são apresentados, a saber: “santificação, justificação, obediência, santidade, adoção como filhos e boas obras”.[9] No caso, salvação compreende toda a Ordo Salutis. Milne conclui a sua investigação sobre o sentido de “salvação” na CFW afirmando: “Dentro dos capítulos da CFW nós encontramos evidência interna para uma ampla definição de salvação que transcende redenção pessoal ou salvação escatológica e que oferece ao crente benefícios que incluem bênçãos temporais”.
Agora, pedindo licença ao articulista, indago: “Perdão dos pecados”, “libertação da justa retribuição da ira de Deus que não inocenta o culpado” (uso do termo salvação na CFW 2.1), “eleição em Cristo para a glória eterna” (uso em CFW 3.5), ou, “santificação”, “justificação”, “obediência”, “santidade”, “adoção como filhos e boas obras” não representam a mesma coisa? (CFW 3.6). Só quem é salvo, é justificado, obedece, santifica-se, tem o perdão dos pecados e fica livre da justa retribuição da ira de Deus que não inocenta o culpado. Ora, se dizemos que alguém foi eleito em Cristo para a glória eterna, certamente teremos dito que ele foi o quê, senão salvo? Ou, se afirmarmos que alguém foi liberto da justa retribuição da ira de Deus, estaremos afirmando o quê? Que este alguém foi salvo, óbvio. E se eu assevero que um pecador foi justificado, não concluo que tal justificação se dá para que a salvação (como benção temporal e eterna) se estabeleça (Rm 8.29-30)? Neste sentido é que o capítulo 14 da CFW diz que salvar-se é “aceitar e receber a Cristo e descansar só nele para a justificação, santificação e vida eterna, isso em virtude do pacto da graça”.
O que o Dr. Milne sugere é que o termo “salvação” para os puritanos pode ser abrangente em certo sentido, mas está ligado a uma única ideia central (ordo salutis). E, evidente que transcende o ponto de redenção pessoal (ou particular). Isto por que, na Escritura, salvação ora é mencionada a indivíduos, ora a povos, nações, etc. Ora se fala em redenção de povos, ora, de pessoas em particular. Basta uma lida em Romanos 8-9 para compreender isso. Além do mais, trata-se de redenção escatológica tanto quanto se trata de salvação do pecado estrutural que mantém influência neste mundo tenebroso. Salva-se também aquele que se opõe à esta estrutura e se rende ao padrão do Reino de Deus em confronto com o mundo que jaz no maligno. “Salvo” pode considerar-se aquele que não se conforma com este século (Rm 8), e é neste sentido que, ao meu ver, a redenção assume também aspecto de benção temporal apontado por Milne. Todavia, o articulista se esforça inutilmente no propósito de tentar nos fazer acreditar que existe diferença etimológica substancial entre “tire uma xerox” e “tire uma xérox”, quando “tenho sede de água” e “vou à sede da empresa” é que são realmente diferentes. A palavra “sede”, a depender do contexto e uso empreendido, assume conotação diametralmente distinta.
E quanto a este último ponto, ou seja, o fato do articulista não haver entendido o que o Dr. Milne escreveu, de certa forma revela uma dificuldade hermenêutica alimentada pela teologia dogmática. Em síntese, ele leu e não entendeu Sob os céus da Escócia, tanto quanto leu e não entendeu o livro do Dr. Milne.
Por derradeiro, cabe aqui uma pergunta, prezado leitor: Porque a Confissão de Fé de Westminster inicia com um capítulo sobre as Escrituras Sagradas? Você nunca parou para se perguntar a respeito? Natural seria que o primeiro capítulo reservasse espaço para tratar sobre ontologia divina. Sendo esta, a prática corriqueira, por que os teólogos de Westminster fizeram diferente? Penso que para registrar que estas tensões eram tão fortes e significativas que exigiram lugar de destaque e primazia nos debates. Mas este é um ponto que abordaremos no volume 2.




[1] Exposição sobre Capítulo 12 de Romanos. O comportamento Cristão. Editora PES. 2003, p. 283.
[2] A propósito, o relato de Lloyd-Jones combinado com o meu, aponta que foram no mínimo duas ressurreições operadas a partir do ministério de Welsh.
[3] RUTHERFORD, Samuel. A Survey of Spiritual Antichrist. London: Printed by F.D. & R.I for Andrew Grookeand, 1648, chap. vii of revelation and inspiration, p.39.
[4] FOX, George. The Works of George Fox. Philadelphia: M.T.C Gould, Journal, vol. i, 1831, p. 171.
[5] CALVIN, John. The Second Epistle of Paul the Apostle to the Corinthians and Epistles to Timothy, Titus and Philemon, eds. D.W Torrance, T.F. Torrance, trans. T.A. Smail, vol. 1, Calvin's Commentaries. Grand Rapids: Eerdmans, 1964.
[6] MILTON, John. The Doctrine and Discipline of Divorce.
[7] MILNE. Garnet Howard, The Westminster Confession of Faith and Cessation of Special Revelation. A Thesis submitted for the degree of Doctor of Philosophy at University of Otago, Dunedin, New Zealand, 2004, pp 44-45. Como minhas consultas se deram na própria tese do Dr. Garnet, encaminhada gentilmente por ele, e não no livro como o articulista, transcrevo ipsis literis o trecho como está na tese: B. Theological inheritance: “They came to the Assembly with a background profoundly influenced by a polemical Protestantism which owed much to such scholars as Martin Luther, John Calvin, Huldrich Zwingli, Henry Bullinger and Peter Martyr Vermigli. While John Calvin was arguably the dominant theological force among the Puritans and the Scots, he was by no means the only one. Furthermore, “Calvinism” was represented by a spectrum of theological opinions within recognizable parameters. This was evident at the Assembly itself, where debates on the doctrine of the atonement exposed radically different interpretations of its extent and application. We should not assume that because Calvin held certain views on the cessation of supernatural revelation, these were necessarily mirrored in the Westminster Assembly documents.”
[8] BERKHOF. Louis, Systematic Theology. Grand Rapids: Eerdmans, 1959, p. 708.


terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

A decadência do cessacionismo

Nada em Paulo sugere que os chamados “dons espirituais” cessariam até o tempo em que “conheceremos como somos conhecidos”. O Espírito continua a soprar à vontade e qualquer um que disser “eu sei donde Ele vem” ou “eu sei para onde Ele vai” é melhor encarar João 3.8 e, assim, pensar novamente. [N.T. Wright]
Por Gutierres Fernandes Siqueira

O cessacionismo é a crença segundo a qual os dons extraordinários, especialmente a profecia e glossolalia, ficaram restritos ao primeiro século da Era Cristã. Paradoxalmente o cessacionismo no Brasil faz barulho, e muito barulho! Talvez porque vivemos na maior nação carismática do mundo e é naturalmente que a reação seja igualmente grande. Neste texto quero apontar sobre o porquê da decadência do cessacionismo e como isso explica a virulência das suas manifestações.

Não faz muito tempo o famoso pastor batista fundamentalista John MacArthur Jr. lançou uma conferência para combater o pentecostalismo, como se esse fosse um câncer perigoso ao cristianismo. Nas palestras não havia distinção entre as loucuras do Benny Hinn com o gracioso ministério de David Wilkerson, por exemplo. Para John MacArthur e os demais conferencistas, se alguém fala em línguas a hipótese mais benevolente é que essa pessoa seja uma desequilibrada ou, em alguns casos, até mesmo endemoninhada.

No Brasil não é diferente. O pastor batista fundamentalista Marcos Granconato, uma espécie de cópia de MacArthur, dedica boa parte do seu ministério a demover pentecostais ou continuístas de sua própria crença. E aqui falo em cópia no sentido positivo e negativo do termo, logo porque o autor em nada manifesta pensamento próprio senão na repetição de argumentos do pastor californiano. Ele se comporta como uma espécie de evangelista cuja missão é arrancar jovens das “trevas carismáticas”. Como um Dom Quixote, esses teólogos se aventuram a combater inimigos imaginários com toda a força e vontade. Ou seja, um verdadeiro desperdício para a causa do Reino de Deus. Além disso, esse debate parecia até superado na década de 1980, mas há sempre certo espírito reacionário que insiste em velharias e disputas mesquinhas.

Esse comportamento histérico é explicado pela degradação da teologia cessacionista. Essa teologia foi dominante nos círculos protestantes no final do século XIX e na primeira metade do século XX, mas especialmente a partir da década de 1960 a aceitação vem sendo de uma fração cada vez mais diminuta de cristãos, sejam eles protestantes ou católicos. E isso não somente entre a teologia popular e seus expoentes nos púlpitos periféricos, mas o carisma do Espírito também chegou à academia com toda a força de um vento que assopra onde quer.

O continuísmo, ou seja, a crença que todos os dons neotestamentários são válidos para a contemporaneidade é hoje exposta por teólogos de primeira linha. Nomes como J. Lee Grady, Wayne Grudem, Jack Deere, Craig Keener, Jon Ruthven, Sam Storms, Doug Oss, Mel Robeck, Paul Elbert, Randy Clark, Robert Menzies, J. P. Moreland, Gary Greig, Mark Rutland, Michael Brown, Gary Shogren, William De Arteaga, William K. Kay, Melvin Hodges, N. T. Wright, D. A. Carson, John Piper, Mark J. Cartledge, Roger Olson, Gordon D. Fee, Krister Stendahl, Grant. R. Osborne, Jon Mark Ruthven, James K. A. Smith, Amos Yong, Wilf Hildebrandt etc.

O interessante nessa lista é enxergar expoentes das mais diversas correntes concordando em um ponto: o dom do Espírito é também para hoje. Outro ponto alto é ver grandes especialistas em hermenêutica e exegese, Novo Testamento e teologia paulina como continuístas. Há, também, diversas confissões representadas: luteranos, anglicanos, batistas, presbiterianos, metodistas e assembleianos.

O debate, em termos bem mais civilizados, também chegou ao seio católico. O teólogo francês Yves Congar (1904-1995), considerado um dos maiores especialistas em pneumatologia, era um continuísta entusiasmado. Congar, enquanto vivia, era muito amigo do maior teólogo católico do último século: Joseph Ratzinger. Poucos sabem, mas Ratzinger, considerado um clérigo bem conservador, tem uma perspectiva aberta sobre o exercício contemporâneo da profecia para além do magistério ou dos sacramentos. Veja a concepção de profecia do teólogo alemão em: RATZINGER, Joseph. Ser Cristão na Era Neopagã. Vol. 3. 1 ed. Campinas: Ecclesiae, 2016. pp 131- 150.

O que mais irrita nos cessacionistas brasileiros é esse tom de superioridade, a arrogância de quem pensa ser o suprassumo da teologia. Quanta tolice de quem está a perder o bonde da história, logo porque o século XXI tem como marca a expansão do cristianismo com face carismática. Além disso, esses sempre estão prontos a gracejos e piadas de mau gosto, especialmente envolvendo a manifestação da glossolalia. Alguns, que nem sabem usar minimamente a gramática da língua pátria, querem insinuar que os outros não conseguem discernir o delírio da linguagem.

Que o Espírito Santo venha sobre nós com graça, serviço e sabedoria!
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Se você quer aprofundamento sobre o assunto não deixe de ler essas obras em português:

- O Dom de Profecia - Do Novo Testamento aos Dias Atuais (Editora Vida) de Wayne Grudem.
- Surpreendido pelo Poder do Espírito (CPAD) de Jack Deere.
- Surpreendido com a Voz de Deus (Editora Vida) de Jack Deere.
- A Manifestação do Espírito. A contemporaneidade dos dons à luz de I Coríntios 12-14 (Edições Vida Nova) de D. A. Carson.
- Paulo, o Espírito e o Povo de Deus (Edições Vida Nova) de Gordon D. Fee.
- O Batismo no Espírito Santo e com Fogo (CPAD) de Anthony D. Palma.
- Rastros de Fogo (CPAD) de José Gonçalves.
- No Poder do Espírito (Editora Vida) de Robert e William Menzies.
- Revelação e Experiência do Espírito Santo - n. 1 (Edições Paulinas) de Yves Congar.
- Quando o Espírito Vem com Poder (ABU Editora) de John White.
- Teologia do Espírito de Deus no Antigo Testamento (Editora Academia Cristã e Edições Loyola) de Wilf Hildebrandt.
- A Doutrina do Espírito Santo (CPAD) de Stanley M. Horton.

Artigos:
- Dons Espirituais em: Dicionário de Paulo e suas Cartas (Edições Vida Nova, Edições Loyola e Editora Paulus) de Gordon D. Fee.
- 1 Coríntios em: Comentário Bíblico Pentecostal (CPAD) de Anthony D. Palma.

- Pneumatologia em: Teologia Sistemática Pentecostal (CPAD) de Antonio Gilberto.

sábado, 6 de fevereiro de 2016

Uma breve resposta a Marcos Granconato

Por Gutierres Fernandes Siqueira

O teólogo Marcos Granconato, conhecido expoente do cessacionismo no Brasil, escreveu em sua página no Facebook uma breve explicação sobre o porquê ele acredita na cessação do dom de línguas. Leia o texto abaixo e em seguida veja a minha resposta.

Antes, por favor, peço o equilíbrio nos comentários, logo porque não estamos em um jogo de futebol, mas em um debate importante, porém sobre um tópico secundário da fé cristã. O cessacionismo é um equívoco, mas não uma heresia ou algo do tipo. O cessacionista merece respeito, especialmente porque continua sob a graça de Cristo como nosso irmão na fé.

Marcos Granconato escreveu:

O dom de línguas era a capacidade dada pelo Espírito Santo a alguns crentes de falar sobre as grandezas de Deus em um idioma humano jamais aprendido por quem falava (At 2.7-11). [...] Algo muito importante a ser levado em conta para entender porque esse dom acabou é que, ao definir o dom de línguas, Paulo citou Isaías 28.11-12, um texto em que as línguas figuram como sinal de juízo contra Israel. Com base nesse texto, Paulo afirmou que as línguas são um "sinal", ou seja, um sinal de juízo contra judeus incrédulos que rejeitavam a mensagem de Deus (1Co 14.21-22). [...] De fato, Deuteronômio 28.46,49 diz que ouvir uma língua desconhecida seria um sinal do juízo de Deus contra Israel sempre que esse povo rejeitasse sua mensagem (Jr 5.11-15). Ora, Israel rejeitou o Filho (At 7.51-53). Por isso, Deus usou a igreja para fazer com que os judeus daquela geração ouvissem línguas que não entendiam como sinal do juízo que estava por vir. [...] Esse juízo foi predito por Jesus (Mt 23.37-39) e chegou no ano 70 AD por mãos do general romano Tito. Tanto era verdade que línguas sinalizavam o juízo contra os que haviam rejeitado o Filho que, por razões não muito claras, os crentes de Jerusalém deixaram a cidade pouco tempo antes dos romanos chegarem e fugiram para uma cidade chamada Pelah, de modo que nenhum crente morreu durante o cerco e invasão de Tito. As línguas sinalizavam juízo contra os incrédulos e, de fato, somente os incrédulos foram alcançados por aquele juízo! [...] Uma vez que o castigo contra Israel sinalizado pelas línguas ocorreu, esse dom deixou de ser necessário e desapareceu. Obviamente, o fim do dom de línguas trouxe também o fim do dom de interpretação.

No capítulo 14 de 1 Coríntios o apóstolo Paulo disciplina a congregação sobre o exercício dos dons espirituais, especialmente o falar em línguas e a profecia. O capítulo é dividido normalmente em seis parágrafos que estruturam o desenvolvimento do argumento central, que é o princípio da edificação do corpo por meio dos carismas bem aplicados e disciplinados. É consenso entre os exegetas que o discurso paulino inserido entre versículos 20-25 é de difícil interpretação[1]. É curioso como a tese do Granconato está sustentada apenas em um trecho exegeticamente complexo. Como todos sabem, um bom princípio hermenêutico é sustentar uma proposta teórica em textos claros e objetivos, portanto uma doutrina que nasce baseada apenas em um trecho obscuro da Bíblia já é natimorto.


Não sei qual é a posição escatológica do teólogo Granconato, mas a interpretação que é feita por ele dos versículos 20 a 25 encaixa-se perfeitamente entre alguns intérpretes dispensacionalistas que enxergam o dom de línguas apenas como um sinal de juízo para os judeus. A tese dele é a mesma de Zane C. Hodges (1932-2008)[2] e John MacArthur Jr[3]. A argumentação exposta por esses autores, inclusive o próprio Granconato, é muito reducionista. Ainda que essa interpretação fosse a mais adequada, o que certamente não o é, esse texto paulino não é um único a fazer menção sobre o propósito das línguas. Por exemplo, como as línguas como devoção pessoal, mencionadas pelo apóstolo nos versículos anteriores (vv. 13-19) podem ser encaixadas apenas em um esquema escatológico já realizado? Outro lapso no argumento do Granconato é transpor o judeu rebelde de Isaías 28 para o texto paulino. Como lembra Carson, “o descrente em 1 Coríntios 14 é um gentio”[4].

Então, o que Paulo realmente quis dizer? Ora, o contexto ainda é a ordem do culto e não uma perspectiva escatológica. Nesse trecho o apóstolo mostra a necessidade de uma comunicação legível para os descrentes. O uso público das línguas estava expelindo o incrédulo da comunidade cristã por privá-los da revelação[5]. Ou como disse Horton: “as línguas transmitem ao incrédulo um sinal, apenas, e não uma mensagem”[6]. Ou seja, um descrente que entra na igreja e só ouve línguas sem interpretação será um completo alienado. O ímpio estará apenas diante de um sinal, no sentido negativo do termo, e assim como os antigos israelitas rebeldes, esse mesmo descrente só se fechará ainda mais em sua incredulidade. Anthony D. Palma escreveu: “as línguas que ouvem confirmam sua incredulidade, porque são um sinal da presença e da atividade de Deus, que continuam a rejeitar” sem entender[7].

Não há fruto de conversão em um culto sem ordem e decência onde a glossolalia toma as rédeas. Diz o pentecostal R. L. Brandt: “o uso coletivo e simultâneo deste dom não atenderia a este propósito (a edificação do ouvinte)[8]”. Hoje, infelizmente, a edificação não é um princípio observado por muitos carismáticos que tornam o culto, dentro de uma perspectiva externa, um verdadeiro ruído de comunicação, já que confunde a igreja com um hospício. Quantos descrentes vocês conhecem que possuem resistência à igreja justificando-se no barulho? Embora não ajam desculpas para não buscar a Deus, devemos evitar a alienação do incrédulo no nosso culto, logo porque “consequentemente, a fé vem por ouvir a mensagem, e a mensagem é ouvida mediante a palavra de Cristo” [Romanos 10.17 NVI].

Referências Bibliográficas:

[1] CARSON, Donald Arthur. A Manifestação do Espírito: A Contemporaneidade dos Dons À Luz de 1 Coríntios 12-14. 1 ed. São Paulo: Edições Vida Nova, 2013. p 110. Veja também: CIAMPA, Roy E. e ROSNER, Brian S. 1 Coríntios. em: BEALE, G. K. e CARSON, D. A. Comentário do Uso do Antigo Testamento no Novo Testamento. 1 ed. São Paulo: Edições Vida Nova, 2014. p 922.
[2] HODGES, Zane. The Purpose of Tongues em: Bibliotheca Sacra, Vol. 120. Julho- Setembro de 1963. p 226-233.
[3] MaCARTHUR JR., John. Fogo Estranho. 1 ed. Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2013. p 164. Veja especialmente a nota de rodapé do trecho em apreço na Bíblia de Estudo MacArthur (1 ed. Barueri: SBB, 2010).
[4] CARSON, D. A. Op. Cit. p 113.
[5] FEE, Gordon Donald. The First Epistle to the Corinthians. 1 ed. Grand Rapids: Eedmans Publishing, 1987. p 682.
[6] HORTON, Stanley M. A Doutrina do Espírito Santo. 1 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 1993. p 248.
[7] PALMA, Anthony D. 1 Coríntios. em: ARRINGTON, French L; STRONSTAD, Roger. Comentário Bíblico Pentecostal do Novo Testamento. 4 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2006. p 1029. Palma concorda com F. F. Bruce que escreveu: “uma comunicação divina em línguas estranhas, dirigida àqueles que são deliberadamento desobedientes, não fará nada mais do que confirmá-los em sua desobediência: permancendo ainda mais incrédulos”.
[8] BRANDT, R. L. Falar em Línguas: O Maior Dom? 1 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2005. p 79.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

Os pioneiros e o reteté

Por Gutierres Fernandes Siqueira

Sempre que tenho a oportunidade de dialogar com pastores veteranos das Assembleias de Deus, especialmente aqueles que tiveram a experiência da conversão antes da década de 1970, é quase unânime a classificação do chamado "reteté" como "meninice".

Na década passada conversei bastante com o pastor Miguel Saraiva, ordenado ao ministério nos anos de 1960 no interior do Maranhão, e falecido aos 97 anos a poucos meses atrás. O reverendo dizia pra mim que a pregação não demandava gritaria. Várias vezes pude escutá-lo pregar, mas sempre sereno. A única vez que o ouvi falar em línguas ao microfone não durou mais do que alguns segundos. Ele levava 1 Coríntios 14 muito a sério. Miguel teve como professor outro pioneiro: Estevam Ângelo de Souza.

Hoje os histéricos querem transformar o culto em um hospício e dizem ainda que seguem os passos dos pioneiros. Na verdade, esses meninos na fé e no entendimento são frutos de dois congressos modistas: os GMUH e a ADHONEP. Ambos os eventos dessas entidades em muito jogaram laranjas podres na cesta do pentecostalismo brasileiro. Se tivessem aprendido com Gunnar Vingren, Estevam Ângelo de Souza, Alcebíades Pereira de Vasconcelos, Donald Gee, Orlando Boyer etc. jamais agiriam com palhaçada, indecência e desordem.

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NEM SEMPRE É POSSÍVEL DISTINGUIR O VERDADEIRO E O FALSO MINISTÉRIO

João Calvino escreveu:
Os genuínos servos de Deus nem sempre se distinguem devidamente dos falsos obreiros, porque os pontos bons e maus são encobertos pelo manto da noite; todavia, essa noite não durará para sempre. Porque a ambição é cega, a generosidade humana é cega, o aplauso do mundo é cego, porém Deus um dia dissipará essas trevas, a seu próprio tempo.

Como não concordar com o reformador francês? Nem sempre é possível discernir o verdadeiro do falso, o joio do trigo, o homem de Deus do homem orgulhoso. Muita coisa hoje é oculta, nublada, escondida, mas o Dia do Senhor virá e toda obra passará pelo teste do fogo. Vamos pensar sempre: O meu edifício sobreviverá como sólida edificação ou virará pó? Estou construindo uma obra para reflexo na eternidade ou para mera satisfação da minha vaidade? Estou vivendo para a glória de Deus ou para o louvor dos homens?

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O QUE SIGNIFICA SER "CHEIO DO ESPÍRITO"?

Biblicamente, especialmente nas epístolas paulinas, ser cheio do Espírito é ter o coração transformado e moldado ao caráter de Cristo. Billy Graham dizia que ser cheio do Espírito Santo não é "uma questão de haver mais dEle, como se a sua obra em nós fosse quantitativa. Não se trata de quanto do Espírito nós temos, mas quanto o Espírito tem de nós... À medida que entendemos cada vez mais a liderança de Cristo, nós nos entregamos e cedemos cada vez mais a Ele. Assim, ao buscar a plenitude do Espírito, recebemos e desfrutamos do seu preenchimento e da sua plenitude, cada vez mais."

Agora, a plenitude do Espírito também envolve a capacitação sobrenatural para testemunhar de Cristo neste mundo, como vemos nos escritos de Lucas. É uma capacitação que não vem do nosso próprio esforço, mas é recebido como um carisma do Espírito. Não é só a salvação e a santificação que recebemos pela graça, mas a própria capacidade de realizar grandes obras para o Reino. Deus nos dá dons, sejam visíveis ou não, mas o Senhor sempre capacita a Sua Igreja.

Portanto, ser cheio do Espírito é o caráter moldado e o poder do alto para testemunho eficaz. Uma coisa não anda saudavelmente sem a outra. Não se mede o enchimento do Espírito, especialmente pelo barulho ou movimentos corporais, pois quem assim pensa está reduzindo terrivelmente a obra do Espírito.

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HOUVE AVIVAMENTO EM AZUSA?

Recentemente eu estava numa livraria evangélica quando me deparei com mais um novo livro estrangeiro sobre a história dos avivamentos. Pensei em comprá-lo, mas antes conferi o índice. O autor contaria história de diversos avivamentos em todo o mundo, mas simplesmente ignorou o Avivamento da Rua Azusa. Seja ignorância ou preconceito antipentecostal, aquele teólogo falhou ao jogar fora um dos maiores avivamentos da Igreja moderna. Em Azusa tivemos todos os elementos de um verdadeiro avivamento: arrependimento de pecados, inúmeras conversões, impulso missionário, paixão pelas Escrituras e transformação social, pois naquela casa de Los Angeles não havia distinção de homens em raça ou classe social. E também houve exageros emocionais, algo igualmente comum em todos os grandes avivamentos. Ainda que Azusa seja esquecida pelos historiadores cristãos, vejam vocês, a sua influência continua e continuará a marcar a Igreja Cristã contemporânea.

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A ORAÇÃO MOVE O BRAÇO DE DEUS?

Deus é soberano, portanto não manipulável. Em Isaías 38 lemos como a oração do rei Ezequias transformou o monarca em um homem mais quebrantado. A oração não guia a Deus. É Ele quem nos guia por meio da oração. A oração não transforma o coração de Deus. É Deus quem transforma nosso coração por meio da oração. Ou como disse Søren Kierkegaard (1813 —1855): "A função da oração não é influenciar Deus, mas especialmente mudar a natureza daquele que ora."

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