domingo, 24 de abril de 2016

Não é no grito que se expulsa o mal

Uma congregação que se banha na presença de Jesus não precisa berrar ordens aos poderes do mal. O próprio poder de Jesus leva embora tudo que for do mal! Satanás e as suas hostes malignas simplesmente não coexistem com a presença de Cristo. Resistimos ao diabo estando cheios de Jesus - por vivermos e adorarmos na Sua presença! [David Wilkerson]

quinta-feira, 21 de abril de 2016

Jerry L. Walls e a identidade soteriológica das Assembleias de Deus

Por Gutierres Fernandes Siqueira

O cristianismo já possui dois milênios, mas a Igreja Evangélica Assembleia de Deus tem apenas 102 anos. A maior e mais influente igreja pentecostal do mundo é, e ainda será por algum tempo, uma criança histórica. Portanto, é inegável que alguns pontos de sua identidade ainda estão em formação. Seria ignorância e estultícia afirmar que uma denominação tão nova já esteja consolidada em todas as suas bases doutrinárias. Não, não está. De alguma forma, a identidade assembleiana ainda está em construção.

E quanto à soteriologia? É inegável a forte tendência arminiana na teologia oficial da denominação. Ou pelo menos anticalvinista, por assim dizer, nas expressões mais populares dos púlpitos e conversas entre crentes. Sim, a soteriologia assembleiana nas bases populares sempre foi mais reativa do que propositiva, assim não seria exagero afirmar que o que a caracteriza é mais o anticalvinismo do que o próprio arminianismo.

A segurança da salvação

Um ponto pacífico tanto entre pregadores populares e teólogos assembleianos, por exemplo, é a crença na possibilidade da apostasia. O que, naturalmente, aproxima os assembleianos dos arminianos, embora, é claro, nem todo arminiano rejeite a doutrina da perseverança dos santos. A frase “uma vez salvos, salvos para sempre” é quase anátema nos ouvidos de muitos assembleianos. Donald Stamps, autor da popular Bíblia de Estudo Pentecostal, escreveu: “a apostasia individual é possível somente para quem já experimentou a salvação, a regeneração e a renovação pelo Espírito Santo; não é simples negação das doutrinas do Novo Testamento pelos inconversos dentro da igreja visível” [1]. Em um documento doutrinário oficial do Concílio das Assembleias de Deus dos Estados Unidos de 1978 intitulado Security of the Believer (segurança do crente) se afirma: “A Bíblia reconhece a possibilidade de perder a salvação, mas nunca deixa de oferecer esperança para qualquer um que queira responder a súplica do Espírito Santo”. Em um texto mais acadêmico poderíamos citar mais referências, mas basta uma rápida consulta na bibliografia assembleiana para comprovar tal posição. 

Lembro esse ponto porque a forte crença na possibilidade da apostasia traz naturalmente uma barreira para qualquer ministro que queria se assumir calvinista numa Assembleia de Deus. Isso é bem observado pelo teólogo metodista Jerry L. Walls recoando Roger Olson no livro Qual o caminho das Assembleias de Deus: amor para todos ou somente alguns? (Editora Reflexão). O livro como análise do fenômeno calvinista entre assembleianos é bem fraco, logo porque, sejamos justos, não é a proposta primária. A obra serve como apologia do arminianismo em forma compacta para os pastores assembleianos. O único ponto analítico sobre o fenômeno em si é levantado sobre o conflito interno entre a doutrina assembleiana tradicional e os novos calvinistas a respeito da possibilidade de perda da salvação na soteriologia [2].

Walls lembra um artigo do teólogo batista Roger Olson [3], que aponta uma aparente contradição nos documentos oficiais das Assembleias de Deus, onde ao mesmo tempo se prega a possibilidade de apostasia, como no paper de 1978, mas não se condena totalmente a ideia de um ministro ser confessadamente calvinista. Olson estranha o tom permissivo do último documento An Assemblies of God Response to Reformed Theology publicado pelo Concílio em agosto de 2015. Ele pergunta: como um ministro pode ser calvinista e ainda estar em conformidade com a posição da denominação sobre a doutrina da perseverança dos santos?

O questionamento de Olson e Walls é bem pertinente. Embora, pelo menos no Brasil, a Assembleia de Deus seja oriunda de batistas, a doutrina da perseverança dos santos sempre foi contestada com certa paixão. Como alguém pode ser um pastor confessadamente calvinista sem confundir a congregação com tamanho choque teológico?

Em minha opinião sempre haverá algum grau de choque quando um pastor resolve destoar da opinião majoritária da denominação. Todavia, seria um erro a Assembleia de Deus retirar a sua tradicional tolerância para com opiniões teológicas divergentes. A tolerância ainda é melhor do que aguentar eventualmente algum choque em pontos específicos da soteriologia. Como isso, também, não quer dizer que a denominação não possa reafirmar e confirmar a sua natureza arminiana no decorrer dos debates. É possível consolidar aos poucos uma identidade sem uma caça às bruxas, como exceção, é claro, para quem viola radicalmente a ortodoxia.


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[1] STAMPS, Donald. Bíblia de Estudo Pentecostal. 1 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 1995.p 1903.

[2] WALLS, Jerry L. Qual o Caminho das Assembleias de Deus: amor para todos ou somente alguns? 1 ed. São Paulo: Editora Reflexão, 2016. p 35.

[3] OLSON, Roger. Patheos. My Response to “An Assemblies of God Response to Reformed Theology”. 2015. Acesso em: 21/04/16. Disponível em: http://www.patheos.com/blogs/rogereolson/2015/11/my-response-to-an-assemblies-of-god-response-to-reformed-theology/

sábado, 16 de abril de 2016

A incompatibilidade da fé cristã com a ideologia política

Por Gutierres Fernandes Siqueira

O sociólogo Herbert José de Sousa (1935-1997), o Betinho, foi um importante militante de esquerda no Brasil e um dos principais nomes da Ação Popular, um grupo ligado à Teologia da Libertação. Cito o famoso militante porque ele dizia que não era de “esquerda cristã”, mas apenas de “esquerda”. Gosto muito dessa definição do Betinho, pois, de fato, não há esquerda cristã, nem direita cristã, existe apenas cristianismo. O cristianismo, como visão de mundo, não precisa de qualificação ideológica. A cosmovisão cristã suplanta a ideologia.

Qual o problema da ideologia? Ela é totalizante. Toda ideologia toma um aspecto das virtudes conhecidas e eleva esse valor como categoria de pensamento. A esquerda faz isso, por exemplo, com a ideia de igualdade. A igualdade é o valor supremo da esquerda. Assim, o ideal do esquerdista é a igualdade absoluta. Nisso, não deve existir hierarquia, riquezas, estrutura familiar, gênero, etc. Tudo deve ser levado à igualdade.

A igualdade é um ideal ruim? É óbvio que não. Em muitos aspectos precisamos de igualdade. O problema está justamente na elevação dessa virtude como parâmetro para todas as outras.



E no cristianismo, qual é a virtude por excelência? Alguns responderão que é o amor. Logo porque “Deus é amor” (1 Jo 4.8) e seremos conhecidos como discípulos do Senhor pela arte de amar (Jo 13.35). Será? O mesmo Deus que é amor é também luz (1 Jo 1.5). Seria na teologia joanina o amor a definição definitiva de Deus? Se sim, então por que a declaração sobre a luz não é tomada com a mesma força? Ou mesmo a paz em Paulo (2 Co 13.11)? Tal escolha pela primeira opção é simplesmente arbitrária e não responde a uma correta correlação hermenêutica.

Pensar em apenas num atributo como propriedade inerente à particularidade de Deus como característica própria e definidora, cuja realização consuma a excelência ou perfeição dEle, é mais filosófica do que bíblica. Enquanto os gregos tomavam a justiça com a virtude suprema, muitos cristãos tomam o amor na mesma qualidade. A sustentação bíblica dessa ideia não vai longe.

Em Deus todas as virtudes são plenas e estão em equilíbrio. Nenhuma se sobrepõe sobre a outra. Deus não pode ser mais amoroso amanhã. Nele está a completude e a infinitude. Assim, conceitualmente o cristianismo como visão de mundo não pode valorizar apenas um aspecto dos atributos humanos, seja esse a igualdade, a liberdade ou a honra, por exemplo. O cristianismo nos convida ao equilíbrio. Não que o equilíbrio seja a virtude suprema, não, nada disso, mas como comportamento o equilibrado reconhece que nenhuma solução é totalizante diante da complexidade humana.

segunda-feira, 11 de abril de 2016

A idealização do passado como revelação do presente

Por Gutierres Fernandes Siqueira

No meio reformado há uma constante busca referencial do puritanismo como exemplo de piedade, fervor espiritual e compromisso com a santidade. Outros grupos protestantes, especialmente os luteranos evangelicais, fazem a mesma investida conceitual com o pietismo. Agora, pensando nos diversos grupos cristãos do século XXI, qual segue mais diligentemente essa tradição espiritualista senão o pentecostalismo? Por qual motivo os grupos neopuritanos do meio reformado ojerizam o pentecostalismo como a gênese da heresia e do próprio humanismo?

É sempre mais fácil buscar referências daquilo que nos falta em cadeias históricas; longevas e distantes. Sim, a distância normalmente é confortável. Não precisamos prestar contas no dia a dia das idiossincrasias dos nossos pares, nem suportar os seus pecados e nem admitir a complexidade e pecaminosidade da natureza humana a cada momento. Assim, o neoreformado neopuritano tem horror e até nojo quando ouve falar do pentecostalismo, mas ao mesmo tempo ele quer lutar contra a frieza do racionalismo e a incredulidade do modernismo ressuscitando aqueles que já estão sob a terra há três séculos. Enquanto isso, o neopuritano despreza aquele que pode ser o seu maior aliado na resistência à filosofia moderna do tempo presente transvertida de linguagem religiosa das diversas modalidades de liberalismo teológico.

O pentecostalismo é uma fé antimoderna por natureza. Não há espaço para a incredulidade naquele que crê na constância do milagre. Não há como ser deísta entre aqueles que sempre esperam a intervenção divina. A crença na providência evita no meio carismático qualquer namoro com o Iluminismo. Todavia, parte dos ditos reformados preferem atacar tal grupo como uma peste do Egito enquanto idealizam os antigos puritanos.

Vamos lidar com o real e a não com a idealismo, meus caros. Certo? Não estou dizendo que devemos desprezar os referenciais do passado, mas depender apenas deles enquanto se despreza o povo de Deus no presente não é nada sábio.

domingo, 3 de abril de 2016

Batismo com fogo?

Por Gutierres Fernandes Siqueira

Como entender a expressão “Ele (Jesus) vos batizará com Espírito Santo e com fogo” nos textos de Mateus 3. 11-12 e Lucas 3. 15-17? Será que o batismo no Espírito Santo tem um aspecto purificador (santificador) do homem já regenerado ou esse fogo é simplesmente escatológico e, portanto, indica o juízo futuro sobre o ímpio?

Como aprendemos no último Batman versus Superman, a ignorância não é sinônimo de inocência. Muitos especialistas em detratar o pentecostalismo, mesmo sem nunca tê-lo estudado a partir das suas fontes teológicas, dizem por aí que a primeira interpretação é consenso entre os pentecostais (e somente entre eles). Não é bem assim. A questão é bem mais complexa do que esse preconceito rasteiro costuma admitir. Em primeiro lugar, não há consenso entre os exegetas sobre a interpretação correta do texto em apreço. Em segundo lugar, nem mesmo entre os próprios pentecostais há unanimidade sobre a interpretação mais adequada.

Vejamos os pontos de vistas divergentes entre os intérpretes e comentaristas, sejam eles pentecostais ou não.

1ª opção: “O batismo com fogo é o aspecto purificante e esplêndido do batismo no Espírito”

Assim é o entendimento do exegeta pentecostal canadense French L. Arrington, por exemplo, onde ele faz uma relação de uma continuidade temática em Lucas entre “batismo com fogo” (Lucas 3.16) e “línguas de fogo” (Atos 1.5; cf. 2. 1-4)[1]. O fogo, portanto, antes de indicar o juízo seria a própria representação da glória divina. Daí que podemos destacar o batismo efetuado por Jesus como superior ao ministrado por João Batista. O primeiro como expressão do arrependimento e o segundo indicando a própria plenitude de uma vivência com o Deus vivo tanto no Espírito como no fogo da glória divina.

A questão é: a quem João Batista se dirige nesse discurso? Se o foco é a própria comunidade de crentes a menção ao fogo não seria mais litúrgica do que escatológica? O fogo no Antigo Testamento muitas vezes indica juízo, mas quase sempre aponta para a purificação (cf. Números 31.23; Isaías 6.6; Êxodo 29.34 etc.). Já no contexto litúrgico o fogo remete à ideia da presença divina (cf. Levítico 6.12) que, naturalmente, leva o homem à santidade. A presença de Yahweh acompanhava a comunidade de Israel no deserto como uma “coluna de fogo” (Êxodo 13.21, 22; 14.24), ou seja, não indicando juízo, mas sinalizando a presença e a proteção do Senhor. Os eleitos também tinham relações de experiência com o “fogo” não no sentido de juízo aos impenitentes, mas de depuração da vida diante do Santo de Israel. O fogo simbolizava, inclusive, o beneplácito de Deus diante do sacrifício que Lhe agradava (Gênesis 15.7; Levítico 9.24; Juízes 6.21; 1 Reis 18.38). Em o Novo Testamento o fogo igualmente indica a glória de Cristo (cf. Apocalipse 1.14; 2.18).

D. A. Carson chama a atenção para a expressão grega βαπτίσει ἐν Πνεύματι Ἁγίῳ καὶ πυρί (Mateus 3.11) onde a preposição ἐν (com) não aparece antes da palavra πυρί (fogo). Logo, a palavra com que liga dois elementos de uma frase, estabelecendo uma relação entre eles, está apenas após “do Espírito”, indicando assim a natureza dupla de um único batismo. Sem uma segunda preposição a tradução poderia ser: “batismo no Espírito, ou seja, fogo”. Carson comenta: “O batismo de água de João relaciona-se com arrependimento; mas aquele de quem ele prepara o caminho administra o batismo de Espírito-fogo que purifica e refina a pessoa”[2]. Ou ainda como escreveu Leon Morris: “Parece melhor entender que João está pensando nos aspectos positivos e negativos da mensagem do Messias. Os que O aceitam serão purificados como pelo fogo e fortalecidos pelo Espírito Santo”.[3]

Interpretes já no século XIX apontavam nessa direção. Exemplo é o exegeta inglês Henry Alford (1810-1871). Ele via esse batismo como único em uma dupla função e achava um erro básico separar o público destinatário de cada elemento (Espírito e fogo) se o texto em grego assim não o faz. Alford dizia que essa promessa foi plenamente cumprida no Dia de Pentecostes (Greek Testament Critical Exegetical Commentary). Entre outros exegetas antigos que concordaram com essa posição temos nomes como de George Campbell Morgan (1863-1945) e Philip Arthur Micklem (1876–1965)[4].

2ª opção: “O batismo de fogo é uma metáfora escatológica que indica o juízo vindouro sobre os ímpios”

Orígenes de Alexandria (185-254) já defendia essa interpretação nos primórdios do cristianismo. E assim se repete na maior parte dos comentários, sejam eles devocionais ou exegéticos. Não seria exagero afirmar que 80% dos comentários ou mais seguem a interpretação do fogo como juízo. O ponto alto dessa interpretação é justamente o contexto (cf. Mateus 3.12; Lucas 3.17).

Há pentecostais que seguem essa linha? Sim, ninguém menos que Stanley M. Horton, o maior teólogo assembleiano do pós-guerra, assim pensava e defendia. Em um longo comentário Horton rebate cada ponto exposto acima como a associação do “batismo de fogo” com “língua de fogo” ou sobre a falta de preposição antes da expressão como indicador de um único batismo. Para Horton “quando Jesus fala sobre fogo refere-se ao do juízo ou da destruição, especialmente o Inferno”[5]. Outro teólogo pentecostal que concorda com Stanley M. Horton é James B. Shelton: “O foco da mensagem de João Batista para os impenitentes é o batismo de julgamento, e para os arrependidos, o batismo de arrependimento”[6].

E é bem verdade que na maioria das vezes quando a palavra fogo é mencionada em o Novo Testamento há a ideia de juízo embutida (cf. Mateus 7.19; 13.40; Lucas 9.54; 17.29; João 15.6; 1 Coríntios 3. 13, 15; Hebreus 10.27; 12.29; Tiago 5.3; 2 Pedro 3.7; Apocalipse 8.7; 9.17; 11.5). Além disso, os textos de Mateus 3. 11-12 e Lucas 3. 15-17 não apresentam conotação litúrgica ou sacramental, mas preditiva. O fogo como elemento litúrgico está tão somente associado ao altar e, nesse ponto, essa figura perde sentido como elemento do culto neotestamentário.

Não é possível afirmar que o auditório de João Batista fosse constituído apenas de crentes (cf. Mateus 3.7). A mensagem de juízo fazia todo o sentido para uma “raça de víboras” que ouvia João na busca de implicá-lo em um crime. O contexto como um todo aponta para a ideia de juízo dos fariseus e saduceus. A mensagem de João, assim como de Jesus, sempre foi muito dura para essa classe de religiosos.

Então por que João Batista coloca na mesma frase uma promessa que se concretiza na festa de Pentecostes (cf. Atos 1.5; 2.1-4) e uma sentença de juízo que se realizará apenas no final dos tempos? Stanley Horton responde que João Batista fazia parte do profetismo veterotestamentário onde “não foi relevado o intervelo entre a primeira e a segunda vinda de Cristo”[7].  Assim como a profecia de Joel no Antigo Testamento relacionava o derramamento do Espírito e o juízo sobre o mundo (cf. Joel 2, 28-32) e os discípulos relacionaram a promessa do derramamento do Espírito ao fim dos tempos (cf. Atos 1. 1-14), João não discernia entre os intervalos do Dia do Senhor.

Outro ponto importante: relacionar a ideia de purificação com o Batismo no Espírito Santo, que é um dom de poder testemunhal, cria mais problemas do que soluções exegéticas para a própria teologia pentecostal. É bom lembrar que a teologia assembleiana rejeita a ideia wesleyana de “segunda obra da graça” onde a santificação é vista como definitiva. Os wesleyanos afirmam que “ninguém tem sido santificado gradualmente”. Os pentecostais assembleianos desde a década de 1960 reafirmam a crença na santidade progressiva segunda a perspectiva reformada[8]. E, na teologia assembleiana, o Batismo no Espírito Santo não é santificador[9]. Ou como escreveu William e Robert Menzies: “O batismo no Espírito não pode servir como emblema de santidade, marca de maturidade cristã. Em vez disso, deve ser visto de acordo com o propósito que Lucas afirma que de ser: a fonte de intrepidez e poder em nosso serviço e testemunho. Não deve ser confundido com a maturidade cristã”[10]. E Robert P. Menzies complementa: “Nós procuramos em vão por uma referência sobre o derramar messiânico do Espírito que purifica e transforma moralmente o indivíduo”[11].

Associar o “batismo de fogo” com “línguas de fogo”, como faz alguns exegetas, é bem problemático. Como lembra o teólogo pentecostal Anthony D. Palma: “precisamos perceber; no entanto, que o vento e o fogo precederam o enchimento do Espírito; não foram parte dele”[12]. Ou ainda, as línguas de fogo foram uma imagem associada unicamente ao evento do Pentecostes sem uma ligação de continuidade entre outras manifestações do Espírito no decorrer do livro de Atos.

Conclusão

Diferente de alguns teólogos que vivem de polêmicas e tratam opiniões contrárias com gracejos vemos que, em matéria exegética, muitas vezes há mais complexidade do que simplicidade diante de textos difíceis das Escrituras. Outrossim, o pentecostalismo é complexo e não é unânime nessa questão, como já visto acima, e indica que associar uma interpretação ao nosso grupo só demonstra ignorância. Eu, apesar dos bons argumentos do primeiro grupo, concordo com Stanley Horton e a maioria dos exegetas: o “batismo de fogo” é o juízo escatológico do Senhor.





[1] ARRINGTON, French L . Lucas. Em: ARRINGTON, French L; STRONSTAD, Roger (Ed). Comentário Bíblico Pentecostal do Novo Testamento. 4 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2006. p 335.
[2]    CARSON, Donald Arthur. O Comentário de Mateus. 1 ed. São Paulo: Shedd Publicações, 2010. p 135.
[3]    MORRIS, Leon. Lucas: Introdução e Comentário. 1 ed. São Paulo: Edições Vida Nova, 1983. p 94.
[4]  Um resumo da posição desses autores pode ser visto em: EARLE, Ralph; SANNER, A. Elwood; CHILDERS, Charles L. Comentário Bíblico Beacon: Mateus a Lucas. 1 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2006. p 42.
[5] HORTON, Stanley M. A Doutrina do Espírito Santo: no Antigo e Novo Testamento. 1 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 1993. p 97.
[6] SHELTON, James B. Mateus. Em: ARRINGTON, French L; STRONSTAD, Roger (Ed). Comentário Bíblico Pentecostal do Novo Testamento. 4 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2006. p 26.
[7] HORTON, Stanley M. Idem. p 94.
[8]  HORTON, Stanley M. Santidade: A Perspectiva Pentecostal. Em: GUNDRY, Stanley. Cinco Perspectivas sobre a Santificação. 1 ed. São Paulo: Editora Vida, 2006. p 125-140.
[9]  SILVA, Antonio Gilberto da. Verdades Pentecostais. 1 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2006. p 60. Teólogos assembleianos como Stanley Horton, Antonio Gilberto, Robert Menzies e William Menzies criticam a associação entre santidade e Batismo no Espírito Santo. Uma exceção é Donald Stamps, escritor da popular Bíblia de Estudo Pentecostal, que era de origem da Igreja do Nazareno, portanto, wesleyano.  Veja: STAMPS, Donald. Bíblia de Estudo Pentecostal. 1 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 1995. p 1629.
[10]  MENZIES, Robert e MENZIES, William. No Poder do Espírito. 1 ed. São Paulo: Editora Vida, 2002. p 254.
[11]  MENZIES, Robert. Empowered for Witness. 1 ed. Sheffield: Sheffield Academic Press, 1994. p 128.
[12]  PALMA, Anthony D. O Batismo no Espírito Santo e com Fogo. 4 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2006. p 58. Lembrando que a obra de Palma em inglês possui como título apenas a expressão Baptism in the Holy Spirit.