domingo, 29 de maio de 2016

O Cessacionismo

Por Gordon Chown

Um dos assuntos levantados, ao lidar com o volume traduzido agora, foi o “cessacionismo,” defendido por um dos participantes do debate. É a teoria de que muitos milagres, bem como dons espirituais, existiam em função da formação do cânon do Novo Testamento – quer dizer que houve um poderoso derramamento de milagres na vida de Jesus, e dos apóstolos, mas que cessou depois de encerrado o cânon do Novo Testamento. A idéia é que os milagres confirmaram a divindade de Cristo (fato este que está fora de dúvida) e, semelhantemente, confirmaram a origem divina da atuação e doutrina dos apóstolos (outro fato inabalável).

Tudo isso concorreu para os registros em todos os livros do Novo Testamento serem reconhecidos como obra legítima e permanente de Deus, parte integrante das Escrituras Sagradas. E isso também é certo. Quando me converti a Cristo, a conversão envolveu a aceitação da inspiração plenária, inerrância e infalibilidade da Bíblia. Inclusive entendo que qualquer conceito da Bíblia que não a reconhece assim, está fora do arraial do cristianismo.

a) Quando cessou a atuação do Espírito na Igreja? Só que é mais difícil entender como o cessacionismo vai explicar em qual momento, uma vez completadas as Escrituras, o Espírito Santo, de quem elas falam e que justamente foi prometido por Jesus à Igreja, antes da sua crucificação e ascensão, especificamente para continuar com os fiéis, para fazer as vezes de Jesus, de ser sua presença real entre nós hoje – quando teria cessado a atuação do Espírito Santo? O cessacionismo quer declarar que os dons milagrosos do Espírito Santo cessaram com a morte dos apóstolos e com a definição do conteúdo do Novo Testamento.

b) Cânon Fechado. A intenção dos cessacionistas parece ser preservar o “cânon fechado” contra novas revelações que se colocariam de encontro com o Novo Testamento que possuímos. Contudo, nenhum crente pentecostal, que eu possa imaginar, está pensando que algum dom de profecia ou de línguas com interpretação vá diminuir, substituir, ou acrescentar à Bíblia que, por si só, é obra do Espírito Santo. Jesus disse, ao prometer a vinda do Espírito Santo aos fiéis, que seria para nosso bem que Ele iria embora. Foi para poder nos enviar o Espírito Santo (Jo 16.7), que estará conosco para sempre (Jo 14.16). E a atuação do Espírito Santo fica semelhante àquela narrada nos Evangelhos e em Atos. “O Espírito Santo que o Pai enviará em meu nome lhes ensinará todas as coisas e lhes fará lembrar o que eu lhes disse”, Jo 14.26. Este texto refere-se ao conteúdo didático. A aplicação de ensinos existentes está em: “Aquele que crê em mim fará também as mesmas obras que tenho realizado. Fará coisas ainda maiores do que estas, porque eu estou indo para o Pai”, Jo 14.12. Que é o conteúdo prático, já que o Espírito Santo confirmava com milagres a divindade de Jesus e a doutrina dos apóstolos. Ele continuará com a confirmação dos mesmos fatos, por onde quer que os cristãos levarem a fé.

---------------------------------------

Gordon Chown é pastor jubilado e membro da Assembleia de Deus em Jundiaí (SP). Britânico de nascimento e ordenado pela Igreja Presbiteriana, Chown é um dos maiores exegetas vivos do Brasil. É responsável pela tradução e publicação dos manuais de exegese mais usados no país, como, por exemplo, o Dicionário Internacional de Teologia do Antigo e Novo Testamento (Edições Vida Nova). Realizou Estudos Avançados em Hebraico e Grego na Universidade de Cambridge. É autor do livro Dons do Espírito (Editora Vida) e Gramática Hebraica (CPAD). Trecho de um texto publicado na revista Obreiro (CPAD).

Diante da montanha

Por Gutierres Fernandes Siqueira

No relato da tentação de Jesus o texto bíblico diz: "O diabo o levou a um lugar alto e mostrou-lhe num relance todos os reinos do mundo. (...) O diabo o levou a Jerusalém, colocou-o na parte mais alta do templo e lhe disse: 'Se você é o Filho de Deus, jogue-se daqui para baixo'" [Lucas 4. 5, 9]. Você percebe a repetição da expressão "o diabo o levou para um lugar/parte alto(a)"? Na filosofia de Satã a tentação é apresentada em lugares altos, de cima pra baixo, da grandeza soberba olhando para tudo como algo menor... Há sempre a ilusão do poder. Já nos Salmos 121.1 onde diz "levanto os meus olhos para os montes e pergunto: De onde me vem o socorro?" a posição é inversa. No vale pedimos socorro diante do monte. Estamos frágeis. Na parte baixa é a montanha que nos deixa preocupados por sua grandeza. E é nessa posição que lembramos da necessidade de ajuda.

domingo, 22 de maio de 2016

Como deveria ser a relação entre cristãos tradicionais e pentecostais?

Por Gutierres Fernandes Siqueira

Tenho um enorme carinho pelos irmãos das igrejas protestantes tradicionais, sejam eles da Convenção Batista Brasileira (CBB), Igreja Presbiteriana do Brasil (IPB), Igreja Presbiteriana Independente (IPI), Igreja Metodista do Brasil (IMB), etc. E, da mesma forma, a maior parte dos pentecostais que conheço, sejam eles acadêmicos ou pessoas simples, nutrem o mesmo respeito.

É cada vez mais comum na minha denominação, especialmente nas maiores congregações, o convite aos pregadores de igrejas tradicionais para ministrarem em nossos púlpitos. O reverendo Hernandes Dias Lopes, ministro da Igreja Presbiteriana do Brasil (IPB), por exemplo, é figura carimbada em muitos eventos das Assembleias de Deus. Mas não só ele. Eu mesmo já ouvi outros nomes como Russell Shedd, Augustus Nicodemus, Luiz Sayão etc. em igrejas pentecostais.


Infelizmente, o contrário não é verdadeiro. Raramente um pastor pentecostal prega em púlpitos tradicionais, especialmente de igrejas calvinistas, e as exceções, normalmente, são de pentecostais calvinistas. Isso é por que temos poucos pregadores bons? Evidente que não. Há inúmeros pregadores e ensinadores pentecostais que são homens comprometidos com a boa interpretação das Escrituras. E eventos teológicos de igrejas tradicionais? É mais fácil ver um palestrante católico do que pentecostal, por exemplo.

Será que apenas nós, como pentecostais, temos que aprender e ouvir? Reconheço na teoria e na prática que os tradicionais são ótimos professores. Eu mesmo tenho muito deles como as maiores referências na teologia. Mas, calma lá, e os tradicionais? Nada podem aprender conosco? Essa “interação” é uma via de mão única? Alguns podem alegar que faltam bons acadêmicos nos meios pentecostais. E eu pergunto: no meio tradicional é assim tão diferente? Ou a carência acadêmica é fruto de nossa cultura pouca afeita à leitura?

Por que a interação é deficiente?

1. Em parte porque muitos tradicionais, até hoje, ainda debatem se os pentecostais podem ser considerados “irmãos em Cristo”. Isso mesmo, em pleno ano de 2016 há tradicionais, especialmente de igrejas calvinistas, travando esse debate infértil, prepotente e infantil.

2. Preconceito. O conceito antecipado que se é pentecostal não há qualidade exegética reflete a mentalidade de muitos tradicionais. Até o tom como discordam de doutrinas pentecostais como a glossolalia, por exemplo, envolve o deboche e não há a assertividade de uma argumentação. Ignoram completamente os trabalhos acadêmicos sobre o assunto e focam nas manifestações populares. 
3. Muitos tradicionais precisam reconhecer que não somos apenas um movimento, no sentido sociológico do termo, mas também uma teologia. E como teologia já há solidez. Ninguém que conheça a teologia pentecostal a fundo, especialmente manifestada em autores contemporâneos como Robert Menzies e Roger J. Stronstad pode desprezar a importância da mesma. Considerar não é concordar, mas respeitar como um par a ser ouvido. 
4. Há alguns pentecostais que também não ajudam na interação. Seja porque nutrem um sectarismo semelhante aos grupos reformados seja porque não valorizam a riqueza da tradição cristã anterior e posterior ao Avivamento de Azuza.

Conclusão

Escrevo isso não porque os pentecostais necessitam da reafirmação dos tradicionais para se sentirem gente. Não, nada disso. Escrevo isso porque a verdadeira unidade e interação entre as diversas tradições cristãs só nos enriquecem como Igreja do Nosso Senhor Jesus Cristo. O fundamentalismo sectário é um atraso para a Igreja Evangélica e, ao tentar defender a ortodoxia, os sectários matam a essência da comunhão e confundem o próprio pensamento como doutrina essencial da fé, ou seja, uma verdadeira usurpação da doutrina. 

sábado, 21 de maio de 2016

Índios e a Evangelização

Por Gutierres Fernandes Siqueira

Determinada artista evangélica postou uma foto com uma família indígena onde lamenta a não-evangelização de muitas tribos no Brasil. Por essa mensagem trivial houve quem convocasse até um "vomitaço" nas redes sociais. A crítica mais recorrente à essa postagem foi que "a cantora não respeita a cultura dos povos indígenas".

Como assim? Acaso a cultura indígena é um bem imaterial intocável que deve ser isolado de qualquer influência externa? Não são eles que defendem com unhas e dentes a interação cultural? O próprio índio não tem discernimento para rejeitar ou abraçar a nova cultura que lhe é apresentada? O homem por ser indígena precisa ser tutelado? A tutela de um adulto é compatível com a dignidade humana? Por que o antropólogo ou militante de esquerda deve defender o quê o índio deve ou não ouvir?

A evangelização é um convite, uma apresentação; não é uma imposição, uma obrigação. O índio aceita se quiser, assim como qualquer homem branco, negro, amarelo etc. Ser contra a apresentação de uma nova cultura religiosa aos índios é uma visão essencialmente autoritária.

Essa imagem o escandaliza? Ora, por qual motivo? Assim como você pode se divertir com um celular o índio também pode. Assim com você pode mudar de religião ou escolher não ter religião, o índio também pode. 

terça-feira, 17 de maio de 2016

O jornalista ateu e a pastora ateia

Por Gutierres Fernandes Siqueira

Uma líder religiosa da Igreja Unida do Canadá assumiu publicamente o ateísmo (leia a notícia aqui). Nos cultos dirigidos pela pastora Gretta Vosper não há orações, leitura da Bíblia ou qualquer liturgia sagrada, mas apenas conversas sobre “os problemas da sociedade” e músicas. Vários comentários foram feitos na Internet sobre esse “sinal dos tempos”, mas o melhor texto que eu li foi justamente de um ateu. Leia abaixo o comentário do jornalista Jerônimo Teixeira sobre a pastora Vosper:


Eu tinha 16 ou 17 anos quando concluí que Deus é uma entidade fictícia. Eu era só um bobalhão, como são todos os garotos dessa idade, mas eu já tinha clara e plena consciência de que o mundo da religião estava, a partir de então, fechado para mim. Nada mais de igreja, missa, oração, procissão e promessa para santo. Agora veja os personagens desta reportagem. Todos, a pastora inclusive, são velhos. Mas se recusam a viver no mundo adulto - um mundo em que toda e qualquer escolha implica alguma penalidade, em que todo ganho vem acompanhado de alguma perda. Querem ser ateus, mas continuar frequentando a igreja. Uma das fiéis (se ainda cabe a palavra) da congregação diz que passou por todas as religiões, mas nunca se sentiu acolhida por nenhuma, até encontrar Gretta Vosper, a tal pastora ateia. Ora, uma pessoa que "passou por todas as religiões" demonstra um anseio que não me parece muito próprio de ateus (se não for demais citar meu próprio exemplo novamente: eu passei só pelo catolicismo - e, olha, bastou...). O que ela buscava, afinal? Um lugar de "tolerância", grande mantra do progressismo dodói. Entenda-se: um lugar que a aceite sem exigências, sem impor custo ou esforço. O culto, pelo que descreve o texto, é uma mistura de terapia grupal com roda de debates de programa televisivo (pense em Oprah, ou até em Saia Justa): a pastora fala muito em "amor" e convida os presentes a "dividir experiências".

O que se vê aqui é mais uma manifestação do que eu chamo de progressismo dodói - essa débil conjunção de um ideário de esquerda com manuais de autoajuda. Importa apenas que todos os envolvidos sejam sempre convencidos da própria virtude imaculada. O progressista dodói adora falar em amor e tolerância - mas o que ele de fato não tolera é ter sua própria fé onfálica submetida a exame ou posta em dúvida. Todos os membros da congregação ateia (e só essa expressão já deveria acordar nosso senso do ridículo) falam da religião e de seus dogmas com termos agressivos: são coisas da Idade Média, que promovem a divisão entre as pessoas, e que servem apenas à dominação dos privilegiados etc. E, no entanto, querem continuar sob abrigo da Igreja Unida do Canadá. Desejam fazer parte de uma organização, mas não aceitam as regras dessa organização. Isso é típico dos dodóis: acreditam que o mundo está todo errado, mas eles não só estão certos, como também guardam o segredo para sua corrigir o mundo: basta adaptá-lo a seus caprichos e a sua santimônia.

No que é talvez o depoimento mais imbecil coletado pela reportagem, uma senhora reclama que não seja possível contestar que Jesus é o filho de Deus que nasceu de uma virgem. Ora, isso vem sendo contestado há séculos - eventualmente, por gente que enfrentou censura e perseguição de verdade. O único risco que a aposentada canadense corre? Ver sua pastora expulsa da Igreja Unida do Canadá.
Vou repetir: um bando de senhores e senhoras idosos do Canadá está se mobilizando para impedir que uma igreja cristã expulse uma pastora que declara publicamente não acreditar em Deus. 
Tem coisas que são apenas idiotas. Outras são de tão idiotas a ponto de serem exemplares. Esta aqui sintetiza o espírito do tempo - que é, afinal, a idiotia.

domingo, 15 de maio de 2016

Eco da sedução do antigo Jardim do Éden

Jardim do Éden por Wenzel Peter (1745-1829)
Por Sara Alice Cavalcanti

“Homem de Deus, há morte na panela!” Esse grito de alerta registrado nas Escrituras, por incrível que pareça, é tão atual e pertinente, quando analisamos o pão, que tem sido repartido a partir de muitos púlpitos evangélicos brasileiros, ainda com fortes resquícios da teologia que invadiu de maneira insidiosa o cristianismo nas últimas décadas. A capa de colocíntidas parece estar agarrada às folhas de muitos sermões e às aulas de seminários e de Escola Dominical. Nossa própria linguagem revela-se impregnada de termos que bem denunciam a presença contaminadora do desvio doutrinário. Ainda que trabalhos de reconhecida importância tenham sido publicados alertando quanto ao perigo da chamada Teologia da Prosperidade, sempre convém lançar alguns grãos a mais de farinha – e cremos que muitos ainda serão necessários – até que o veneno seja dissipado. Filha da Pós-modernidade, sem a preocupação de esconder a origem, a Teologia da Prosperidade avançou rapidamente com suas afirmativas de que: pobreza é pecado, de que o pobre está debaixo de maldição, assim como aquele que se acha enfermo; Deus nos quer fazer a todos ricos nessa Terra; o homem possui o direito de gozar uma vida terrena de pleno sucesso e o fato de ser cristão lhe outorga o direito de requerer tais coisas a Deus, sob o risco (para quem?) de que sua fé Nele seja posta em dúvida.

1. Proposições afirmadas pelos pregadores da Teologia da Prosperidade

Para quebrar toda e qualquer resistência a essa seqüência de inverdades, seus pregadores costumam iniciar suas prédicas advertindo os ouvintes de que:

a) Estão debaixo de uma poderosa, nova e infalível revelação, normalmente citando algum encontro especial, seja por visão, arrebatamento, sonho ou com o próprio Senhor;
b) Advertindo sobre o perigo de não receber a palavra pregada como vinda da parte de Deus – muitas vezes exortando o público a não cometer pecado contra o “Espírito de Deus”;
c) Alertando quanto à “ação do Diabo”, que começará a por dúvidas acerca da pregação;
d) Pedindo que se rejeite a “religiosidade” e se aceite o “novo de Deus”;
e) Diante de qualquer resistência, assumem uma postura superior, como se a profundidade da revelação fosse apenas privilégio de certos “iniciados”;
f) Concentrando toda a responsabilidade pelo fluir ou não da manifestação espiritual almejada na falta de fé dos ouvintes. Não é preciso dizer que gerou um imenso número de ovelhas feridas, decepcionadas com Deus, consigo mesmas, com seus pastores, iludidas por promessas, presas às dívidas – contraídas em irresponsáveis “atos de fé” – e que se vêem sem respostas para seus problemas, enquanto alguns encontraram, nesse caminho, o meio de seu enriquecimento pessoal. Vale lembrar que o Senhor da Seara a tudo observa e que, um dia, todos nós prestaremos contas de nossa administração. É com este temor, além do zelo por aqueles que nos foram confiados como discípulos e do amor que arde em nossos corações e que nos faz clamar diária e constantemente: “Livra-me de errar!”, “Livra-me de pecar contra Tua Palavra!”, “Livra-me de pregar outro evangelho!”, que nos detemos mais uma vez para meditar sobre os perigos desse nada novo desvio.

2. Antigas Raízes.

Para a sociedade industrializada, repleta de bens de consumo e vazia de ideais, faltou, num determinado momento, uma teologia que justificasse, no coração do crente, o atirar-se ao meio competitivo em que vivia, sem que isso lhe gerasse conflitos interiores. Era necessário trazer novos valores e, para que fossem aceitos, revesti-los de biblicidade. A resposta foi uma teologia que coloca palavras de estímulo à posse nos lábios “do próprio Deus”. Junte-se a isso que tal conselho era o que o homem queria ouvir. Embora atrelada em sua manifestação à era Pós-moderna, na qual encontrou o pluralismo, o relativismo, a mentalidade empresarial, podemos dizer que as raízes dessa teologia são mais distantes no tempo. A concupiscência dos olhos, estimulada pela sedução satânica, abriu a porta do caminho à cobiça já no Éden. Enquanto a indução sussurrava dúvidas à Palavra de Deus e às suas intenções, os olhos de Eva se enchiam antecipadamente do prazer de possuir. “…cada um é tentado pela sua própria cobiça, quando esta o atrai e seduz. Então a cobiça, depois de haver concebido, dá à luz o pecado; e o pecado consumado, gera a morte” (Tg 1.14-15); “Cobiçais e nada tendes” (Tg 4.2). Nada ter é, paradoxalmente, o ganho daqueles que investem sua vida em construir celeiros para amealhar bens materiais. O convite ao desvio, ainda que atribuído a Deus, nada mais é do que um eco da sedução no antigo Jardim.

3. Perigos da Teologia da Prosperidade

3.1. No propósito de sua existência (Ter versus Ser)

Quando se esquece de sua gloriosa criação, o homem fica preso à civilização do espaço em que vive, e onde o poder material triunfa. A civilização do espaço subsiste por seus monumentos, por aquilo que se vê. Nisso está a glória de seus participantes. Desejosos de manipular e de construir um nome, fazem dos objetos seu maior objetivo. Esquecem-se de que a tudo o que fez o Senhor chamou de bom, mas a um só, ao homem, deu domínio sobre as coisas criadas (Gn 1.26).

3.2. No alto preço a pagar (Meios versus Fins)

Para possuir é preciso alcançar. Os métodos utilizados para isso acabam por ferir a ética cristã, uma vez que a cobiça acaba por minar resistências morais. O homem, então, não se importa em mentir, roubar ou jogar. “A bênção”, aparentemente, não está mais em ganhar o pão com o suor do trabalho honrado, mas em “se dar bem”, não importa por quais meios. Quantos casais têm abdicado de oficializar sua união junto ao altar por não abrirem mão de alguma pensão ou pecúlio? Quantos resistem às exortações contra os jogos de azar? Quantos criticam o ensinamento bíblico dos dízimos e ofertas ou utilizam-se da prática como barganha para com Deus? Que dizer dos altos preços de algumas “participações” em cultos? Nesses e noutros terríveis exemplos algo de muito mais valioso que o dinheiro foi perdido – a aprovação divina. Alguns, no desejo de obter riquezas, votaram ao Senhor que, se os abençoasse, investiriam na obra missionária. Muitos prosperaram financeiramente, mas nem todos retornaram com as mãos cheias de gratidão. Ninguém precisa possuir muito para dar muito. Duas moedas podem ser uma riqueza incomensurável. “Disse-lhe o senhor: Muito bem, servo bom e fiel; foste fiel no pouco, sobre o muito te colocarei: entra no gozo do teu senhor” (Mt 25.23).

3.3. Na relação com Deus (Senhorio versus Serviço)

A experiência do filho pródigo, antes um ávido possuidor, depois um humilde servo, deveria tocar os defensores da Teologia da Prosperidade. Servir a Deus é um privilégio a nós concedido. Ele é Senhor e o único Deus. A fina ironia expressa no Salmo 82 tem sido, muitas vezes, interpretada como uma declaração da divindade do homem. Era a postura do pródigo antes de sua conversão: cheio de si, requerente, determinista. Ao pai cabia, segundo sua visão, o dever de atender suas petições. Afinal, era filho. Filhos e herdeiros, devido ao sacrifício do Filho de Deus, que assumiu a “forma de servo, sendo obediente até a morte, e morte de cruz” (Fp 2.8), temos a consciência de que é mister servi-lo, pois Ele é Digno. Não há, em Deus, obrigação de atender nossas petições, embora o faça por sua graça e misericórdia. Determinar a Deus que faça, impor-lhe respostas e prazos assemelha-se mais à postura da criança mimada ao bater os pés e a fazer muxoxos. “Pedis e não recebeis, porque pedis mal, para esbanjardes em vossos prazeres” (Tg 4.3). Ao longo da caminhada cristã, quantas vezes glorificamos a Deus por não ter atendido a uma determinada oração? E quantas vezes fomos agraciados por respostas muito além de nossas expectativas? Portanto, longe de ser um gesto de incredulidade, acrescentar um se em algumas de nossas orações é uma rendição ao Soberano, reconhecendo que, embora fazendo a Ele conhecidas todas as nossas petições, somente Ele sabe o que é melhor para nós.

Assim, oraremos por curas que se realizarão e por outras que o Senhor não fará realizar. Alguns idosos de muitos dias serão levantados dos leitos e crianças de poucos dias, por vezes, morrerão. Não nos foi dado especular, mas orar com fé, sabendo que nenhuma oração a Deus volta vazia, mas que algo superior está sendo efetuado mesmo antes de nós pedirmos. É preciso resgatar a postura de entrega humilde que o pródigo conseguiu conquistar: “Faze-me como um de teus trabalhadores!” (Lc 15.11-32).

3.4. Na relação com o próximo (Possuir versus Partilhar)

Um dos mais terríveis danos da Teologia da Prosperidade está em que minou de muitos filhos de Deus a bênção de partilhar, não apenas seus bens materiais, mas suas alegrias e dores. “Alegrai-vos com os que se alegram, e chorai com os que choram. Tende o mesmo sentimento uns para com os outros; em lugar de serdes orgulhosos” (Rm 12.15-16). A orientação bíblica foi trocada, em muitas vidas, por uma postura de acusação ao próximo. Assim, se o irmão está doente é porque pecou. Se estiver em dificuldade é porque não tem fé. Se seu carro foi roubado é porque há algo de errado em sua vida. Se um casal gerou um filho portador de alguma deficiência, logo está debaixo de maldição. Arrazoando, buscando causas ocultas, perderam aquela sensibilidade de achegar-se ao ir-mão, dividir um sentimento e emprestar a voz em concordância às suas petições. Em alguns ministérios, pessoas que estejam passando por problemas de saúde são impedidas de orar pela cura de outra pessoa, entendendo-se que está sob peso espiritual. Quedemo-nos a pensar no Senhor ferido na cruz, com seu lado traspassado, jazendo, e, naquele instante, estendendo seu poder curador a todos nós. Também lembremos de que somos chamados a consolar os outros com as mesmas consolações com que temos sido consolados. Em lugar de pensar no irmão enfermo como alguém sob um jugo, que tal pensá-lo como estando debaixo de tremenda unção fortalecedora, consoladora e, Deus sabe, curadora? Também quanto aos bens materiais, não sei se houve, em outra época da história da Igreja, igual quantidade de carros, casas, sítios, etc, declarados “consagrados”. Parece que trocamos o simples gesto de consagrar a vida, entendendo que, conseqüentemente, todo o restante estaria consagrado, e passamos a fazer uma “consagração por parcelas”. Porém, quando o mesmo carro se torna necessário para conduzir uma irmã grávida, acompanhada de seus filhos, de volta para casa depois do culto, num dia de chuva, por vezes, a consagração é esquecida.

4. Perigos para a Igreja

4.1. No centro de sua mensagem (Homem versus Cristo)

Nossa mensagem é cristocêntrica. Tudo o que se distanciar disso também está distanciado da Bíblia e precisa retornar ao alvo original. A mensagem da Teologia da Prosperidade é humanista. Seu centro é o desejo do coração do homem, esteja ele controlado ou não por Deus. O teólogo Ricardo Gondin declarou: “Hoje, por mais que se prometa que Deus resolverá todos os problemas e que as pessoas alcançarão a autêntica felicidade, as multidões permanecem passivas diante da pregação do Evangelho. Por quê? Usamos os métodos errados?… Por que os métodos evangelísticos usados hoje não têm a força das cruzadas de Charles Finney? Qual o segredo de John Wesley que evitou na Inglaterra um derramamento de sangue semelhante ao da Revolução Francesa?” A resposta não está nos métodos, segundo esse autor conclui, mas na mensagem. Não fomos chamados para apregoar que todos os homens devem vir a Jesus para receber saúde, dinheiro, casa própria, casamento… Somos testemunhas da morte e ressurreição de Cristo. Pregamos o arrependimento dos pecados, o perdão e a reconciliação com Deus mediante o sangue de Jesus. Anunciamos a Vida Eterna. Convidamos a uma vida de separação e serviço. Nossa mensagem não é moderna ou pós-moderna. Mas é infalível e eterna. A pregação da prosperidade pode ser desejada por pessoas de países com grandes dificuldades financeiras, mas desprezada por países com boa infra-estrutura na área da saúde, moradia e educação, embora em muitos deles seja uma maneira de supremacia econômica sobre os outros. O Evangelho é a necessidade do homem em qualquer tempo, condição e lugar. O problema primordial do homem é o pecado. Certa senhora buscou auxílio em uma igreja para a cura de uma terrível ferida em sua perna, que a afligia há anos. Uma irmã, comovida com aquele terrível sofrimento orou. Pelo poder de Deus, a senhora foi imediatamente curada, podendo ser visto o fechamento da ferida e a restauração do tecido atingido. Alegres, a irmã e suas companheiras de oração convidaram aquela senhora a uma entrega a Jesus. A resposta foi negativa. Perguntada se sabia quem lhe havia curado, se estava claro que o poder emanara do Senhor e que Ele, amorosamente, a convidava a receber algo muito mais precioso, a resposta continuou a mesma: “Sei quem me curou. Mas não o quero…” Não podemos perder de vista que há uma chaga maior e mais terrível do que a que podemos ver – a chaga do pecado na alma, para a qual somente Jesus tem a cura. “Vendo-lhes a fé, Jesus disse ao paralítico: Homem, estão perdoados os teus pecados” (Lc 5.20). 5.2. Em sua missão (Monumento versus Templos para Deus). É com alegria que vemos um belo edifício, construído para que ali se reúna o povo de Deus. É reconfortante ver o resultado do esforço de irmãos dedicados que, com seus dízimos e ofertas estão procurando fazer o melhor pela obra. Sabemos, porém, que uma bem arquitetada construção não é o objetivo primordial da Igreja. Cabe a nós o cumprimento da Grande Comissão e, para tal, não podemos poupar recursos. Num estabelecimento de prioridades, o luxo, a suntuosidade, enfim, a já citada aparência, que a sociedade do espaço persegue, não podem falar mais alto que os campos já brancos para a ceifa. Esse é outro e gravíssimo resultado da Teologia da Prosperidade. Não apenas pessoas estão buscando o proveito próprio, mas igrejas deixaram as indicações prioritárias do Reino, trocando-as por um fazer incessante em “Jerusalém” e reservando para a “Judéia”, Samaria e os confins da Terra’ apenas as sobras, quando existem. Talvez não possamos mensurar o abalo que a Teologia da Prosperidade causou, nestes últimos anos, nos campos missionários. Ocupados em realizações monumentais, denominações deixaram de enviar obreiros aos campos ou os fizeram retornar. Outras, ainda, é custoso admitir, deixaram de corresponder às expectativas daqueles que um dia enviaram. Perderam a cosmovisão, trocaram-na por outra, tacanha e fragmentada – pós-moderna. Pode-se compreender que, eventualmente, falte aos cofres da igreja o necessário para a compra de Bíblias. O que é difícil de ser entendido é que se gaste tanto em granitos ou acrílicos que não sobre o suficiente para uma caixa de folhetos para a evangelização. Cada homem que se rende aos pés da cruz é um templo amado de Deus e lugar, por ele escolhido, para sua habitação. É a planta que lhe é mais confortável, a que lhe dá a mais ter-na satisfação. Se nos deixamos envaidecer por grandes estruturas, corremos o risco de deter o melhor em vidas humanas para sua manutenção. Dessa forma, em lugar do melhor ser entregue para o campo, é mantido para fazer funcionar a obra local. Entendendo que a regra é: “dai e ser-vos-á dado”, o que também se aplica a recursos humanos.

5.3) Em sua estrutura (Organização versus Organismo)

Surge uma lógica corporativa na qual busca-se a produtividade; focalizam-se os sistemas de organização em detrimento da comunidade. Assim, instala-se uma filosofia fabril para substituir o investimento em vidas, onde a lógica é a da competição e não a da compaixão; os números, o dinheiro e a lucratividade sobrepujam a nutrição de vidas com a Palavra de Deus”. Competência, visão empresarial, lucro, são palavras que rondam reuniões ministeriais influenciadas pelos novos ventos. Jesus passou à condição de mercadoria e as ovelhas à condição de clientes. O mundo, como clientela em potencial, precisa ser atraído por superproduções que em nada devem ficar devendo aos chamados shows. ü Igreja – corpo ou empresa. Todos perdem em conseqüência da falta de visão de corpo. Um organismo vivo, organizado, afetivo, moral, onde cada um é importante para a edificação do outro. Igreja-corpo se, por um lado, requer trabalho e atenção, também retribui seus obreiros e membros, que crescem juntamente. A igreja-empresa apenas exaure. Os obreiros se dão à exaustão para depois serem repelidos por conta de sua “baixa produtividade”. Mesmo aos entusiastas da Teologia da Prosperidade está reservado dias difíceis, quando não estiver mais dando o retorno esperado, quando não der mais “ibope”. “…vós sois Corpo de Cristo…” (1 Co 12.27).

5.4. Em sua postura profética (O que o homem quer ouvir versus o que Deus quer falar)

A Igreja não pode perder, jamais, a condição de ser instrumento para a proclamação da vontade de Deus na Terra. Sua mensagem, caríssima, não foi dada como objeto de compra e venda ao mercado. Nem sempre ela atende àquilo que o homem quer ouvir, mas ao que o Senhor faz proclamar, por seu terno amor ao homem que criou. Falsas bênçãos são, em algumas ocasiões, “ofertadas” às igrejas em troca da divulgação de nomes com propósitos políticos ou comerciais. Nesses momentos, o preço do sangue deve clamar mais alto, fazendo outras dádivas parecerem pequenas. A obra do Senhor tem sido feita por pessoas humildes e fiéis, aqueles de quem fala a Palavra: “Vi os servos a cavalo, e os príncipes andando a pé como servos sobre a terra” (Ec 10.7). Preguiça (Pv 6.6-11), inveja (Sl 85.68), avareza (Pv 28.22), extravagâncias e vícios (Pv 20.13; 23.21), apostasia, catástrofes naturais, injustiças sociais, podem estar entre as causas da pobreza. Mas há um fator supremo que foge à compreensão do homem. É Deus quem empobrece. É Deus quem enriquece. Mesmo a distribuição dos talentos na parábola não foi equânime. Não terá correspondido à capacidade administrativa de cada um? A Palavra nos ensina que os pobres sempre estarão entre nós. Ela também nos orienta sobre a melhor maneira de administrar os recursos e estimula-nos a dar socorro aos necessitados. Mesmo um simples copo d’água oferecido é segurança de recompensa nos céus. Pastor Isaltino Coelho Filho declarou, em conferência: “Dinheiro não enche a alma de significado”. É um recurso que usamos para executar, na Terra, nossa verdadeira missão. Não é um fim em si mesmo, e os que dele fazem senhor, encontram em Mamon um ídolo tirano e cruel. As adorações – ao Deus vivo e a Mamon – são mutuamente excludentes. Alguém que pensa estar prestando um duplo serviço se engana e acorrenta sua alma com algemas eternas (1 Tm 6.7-8). A simplicidade das pombas e a prudência das serpentes são uma forma segura de caminhar nestes dias de fartura de pão, mas também de parras bravas e até de colocíntidas. “Eis que esta foi a iniqüidade de Sodoma, tua irmã: soberba, fartura de pão, e próspera ociosidade teve ela e suas filhas: mas nunca fortaleceu a mão do pobre e do necessitado” (Ez 16.49).

Bibliografia

A BÍBLIA ANOTADA. Versão Almeida, Revista e Atualizada. São Paulo: Mundo Cristão, 1994.

GONDIM, Ricardo. Fim de Milênio: Os perigos e Desafios da pós-Modernidade na Igreja. 1 ed. São Paulo: Abba, 1996.

ALMEIDA, Abraão de. Teologia Contemporânea – A influência das correntes teológicas e filosóficas na Igreja. 2 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2002.

SPROUL, R. C. Filosofia para Iniciantes. 1 ed. São Paulo: Vida Nova, 2002.

COELHO FILHO, I. A pós-modernidade, um desafio à pregação do evangelho. Conferência apresentada aos pastores do Sul de Minas Gerais. www. ejesus.com.br. Arquivo 2929, 2002.

HESCHEL, A. O Shabat – seu significado para o homem moderno. 1 ed. São Paulo: Perspectiva S.A., 2000.

------------------------------------------

Sara Alice Cavalcanti é mestre em Letras pela UERJ, professora de Hebraico e Literatura Hebraica na Faculdade Evangélica de Ciências e Tecnologia das Assembleias de Deus (FAECAD), colunista do jornal Mensageiro da Paz e membro da Assembleia de Deus em Bonsucesso (RJ). Artigo originalmente publicado na Revista OBREIRO, Ano 26 – nº 26, pp. 25-29.

O antissemita e o judaizante: polos que devemos evitar!

Por Sara Alice Cavalcanti

Entre o ódio e a idolatria oscilam os corações de cristãos evangélicos acerca do povo e do Estado judeus. Enquanto a acusação de deicídio alimenta, em alguns púlpitos, o desprezo aos filhos de Israel, outros ministérios optam pelo uso de símbolos da cultura judaica em seus cultos.

Os extremos dessas variações revelam o antigo antissemitismo ou o farisaísmo revivido nas posturas judaizantes. Os dois polos demonstram falta de entendimento bíblico do papel presente e futuro dos descendentes de Abraão.

A Inglaterra é exemplo de uma nação que viveu esse movimento pendular. Em 1290, ela expulsou os judeus de seu território e, em 1650, sob a influência de cristãos pré-milenistas, chamou-os ao retorno, num momento em que eram fortes as tendências judaicas na Teologia daquele país.

1. Antissemitismo

O antissemitismo poderia ser entendido como o antagonismo à descendência de Sem, filho de Noé. Nesse caso, todos os povos semitas estariam incluídos. A aplicação mais comum do termo, no entanto, é à descendência física de Abraão. O ódio e a consequente perseguição aos judeus caracterizaria o antissemitismo que, ao longo da História, alcançou momento de extrema violência.

a) A Perseguição romana. Segundo historiadores, mais de 14 milhões de judeus foram mortos desde o ano 70 d.C. A data marca a destruição do Templo pelos romanos e a dispersão dos judeus pelas nações. Se o Império Romano foi responsável pelo massacre ocorrido na ocasião, a Roma “cristianizada” foi, por sua vez, responsável pelos horrores das Cruzadas e da Inquisição.

b) A perseguição russa e alemã e sua extensão muçulmana. A Rússia czarista, com os “pogrons”, e a Alemanha nazista, com o holocausto, levaram adiante a bandeira do extermínio dos judeus, hoje passada, como um bastão numa corrida de revezamento, aos terroristas islâmicos. Hamã, na antiga Pérsia, já destilava antissemitismo em atos políticos, manipulações e conchavos com o intuito de perverter as ações reais e destruir aqueles que tomou como seus inimigos. No curso dos acontecimentos, observamos que prevaleceu o decreto do Rei dos reis a favor de Israel: “Abençoarei os que te abençoarem e amaldiçoarei os que te amaldiçoarem”. Com seu ódio, Hamã tipifica o grande mentor do antissemitismo secular – Satanás. Entende-se tal sentimento: Jesus, Aquele que foi prometido desde o Éden, o único poderoso para destruí-lo, nasceria de Abraão. Aquele que esmigalharia a cabeça da serpente viria ao mundo como judeu. Usando Ramsés ou Herodes, Satanás tentou impedir a chegada de seu destruidor. Usando Torquemada, Hitler ou Arafat vingou-se da “mulher [Israel] que deu à luz a um filho varão [Jesus]” (Ap 12.13). É necessário entender que o Diabo, “príncipe deste mundo”, age nos filhos da desobediência suscitando o ódio. Especialmente agora, sabendo que “pouco tempo lhe resta”, seduz os corações dos homens, especialmente o dos poderosos, para lançá-los na conta de Israel e assim tocar aquela que é a “menina dos olhos de Deus” (Zc 2.8) sabendo que, nela tocando, fere-O diretamente. Para estar a salvo do antissemitismo, a Igreja precisa aprofundar seu conhecimento das Escrituras. Nelas são revelados os propósitos do Senhor para com Israel. Por ignorância ou preconceito, nem sempre a Igreja acertou o alvo. No dizer de um judeu: “Primeiro nos disseram: ‘Vocês não merecem viver entre nós como judeus’. Depois nos disseram: ‘Vocês não merecem viver entre nós’. Finalmente decretaram: ‘Não merecem viver’”. Ações erradas partem de teologias equivocadas.

c) A Teologia da Substituição apregoou e apregoa que Israel deixou de ser alvo dos planos de Deus, sendo substituída pela Igreja. Ora, a existência da Igreja não anulará jamais a necessidade essencial de Deus ser fiel a Si mesmo e à palavra que proferiu. Baseado na substituição, o antissemitismo evangélico foi o pano-de-fundo teológico que levou ramos da Igreja alemã e outros a, no mínimo, cruzar os braços (quando não apoiar) o holocausto.

d) No Brasil, onde o antissemitismo foi alimentado pelas ideias de Gabineau (amigo pessoal do imperador Dom Pedro II) e de Le Bon, os conceitos de superioridade racial levaram às políticas de branqueamento que ainda vigoravam a Era Vargas, e sendo amplamente repetidas como conceitos “científicos” nas escolas, reafirmadas em verbetes preconceituosos de enciclopédias e dicionários. Outros livros omitem o sofrimento dos judeus durante a Inquisição ou durante o regime nazistas. Livros nacionais desprezam a presença judaica na formação do povo brasileiro.

Em consequência disso e sem a adequada refutação bíblica, muitos cristãos carregam o peso de uma tradição de ódio aos judeus. Quantos ainda acreditam que “todos os judeus são ricos”, que “judeus são avarentos” ou que “Jesus morreu por culpa dos judeus”. No entanto, a razão da nossa fé está em Jesus, nascido judeu, imerso nas tradições culturais de Seu povo para, a partir daí, alcançar todas as nações da Terra.

2. Por amor de Sião

Quando os ramos de jambuzeiro enxertado na oliveira reconhecem que Deus pode facilmente reenxertar nela os ramos naturais, o antissemitismo é vencido pelo amor.

O primeiro ministro de Israel, Benjamim Netanyahu, declarou certa vez que os cristãos se anteciparam “ao movimento sionista moderno em pelo menos meio século”.

Quando nossos irmãos, antes de 1948, pregavam sobre o retorno dos judeus dentre as nações e o restabelecimento da nação de Israel, isso parecia distante ou impossível ao ouvido de alguns. A Palavra inspirava os pregadores: “Canta e exulta, ó filha de Sião, porque eis que venho e habitarei no meio de ti, diz o Senhor” (Zc 2.10).

Sabemos que virão tempos difíceis para a descendência de Israel após o Arrebatamento da Igreja, mas o Senhor tratará com eles e salvará para Si um povo. Quando as forças do Anticristo se levantarem contra Israel, o Senhor entrará em juízo com elas (Jl 3.1-2).

Todas as promessas serão cumpridas: a posse da terra, desde o rio do Egito até o rio Eufrates; o sacerdócio no Templo milenial; a Raiz de Davi reinando eternamente; e a alegria da “Filha de Sião”, quando vir o seu Senhor habitando e reinando no meio dela. A esperança será cumprida (Zc 12.9-10).

Firmados numa base teológica bíblica, pregadores cristãos pré-milenistas como Arno Gaebelein (século 19) e William Blackstone (reconhecido pela comunidade judaica por seu amor a Israel) e muitos outros defenderam no passado o que seus sucessores continuam a defender: a infalibilidade das promessas e do amor de Deus, ressuscitando Israel como a um vale de ossos secos.

3. Movimento judaizante

Perigoso desvio tem levado alguns irmãos a uma postura para com Israel que chega à idolatria. Não é um toque de shofar (instrumento musical feito de chifre de carneiro ou antílope) ou a presença de uma menorah (candelabro de sete lâmpadas de ampla simbologia) que torna uma igreja judaizante.

Também as festas, quando tomadas como recurso que possa propiciar ao povo um ensino da simbologia veterotestamentária e sua aplicação à experiência cristã, não constituem um problema em si mesmas. Ainda parece melhor realizar uma celebração sob inspiração bíblica, seja ela uma “Festa da grande pesca” ou “Festa da volta do filho pródigo”, do que adotar costumes pagãos, transportando-os para o seio da Igreja. O cuidado especial que se deve ter é jamais desviar o foco das verdadeiras e mais significativas de nossas celebrações: o Batismo e a Santa Ceia.

3.1. Exageros e Contradições
O problema do uso de objetos como Kippah (cobertura para a cabeça) e o talid (manto judeu de orações), além das festas judaicas, é que, por trás do uso, se esconde a substituição da graça pelo ritual religioso.

A ênfase do cerimonial do culto disfarça a prevalência da forma. A forma tende a substituir a essência, principalmente quando alcança status salvífico.

Grupos há que iniciaram por estabelecer as festas judaicas como eventos isolados, como eventos estratégicos para o ensino e a evangelização.

A prática, quando não administrada com sabedoria, leva ao que aconteceu com tais grupos: o que era eventual tornou-se calendário eclesiástico; outras práticas foram acrescentadas; chegaram à obrigatoriedade da circuncisão. Existem mesmo os que julgam que para invocar Deus é mister fazer uso de seus nomes em hebraico. Proíbem o nome de Jesus, exigindo sua forma hebraica Yeshua.

Ainda é necessário dizer que as águas do Jordão não lavam pecados e que o óleo vindo de Israel não tem mais poder do que um óleo de outra procedência, sendo um símbolo da unção de Deus, derramada do alto.

O apego à forma era a prática farisaica nos dias de Jesus. Mesmo entre os nascidos de novo houve aqueles que se apegaram às antigas práticas e deram trabalho a Paulo em seu ministério aos gentios. O grupo de judaizantes, desde então, tem provocado polêmica. Pior do que isso, tem despertado no coração de líderes zelosos aversão por tudo que diga respeito aos judeus, com prejuízo do que se poderia adquirir num contato equilibrado e firme em sua ortodoxia.

4. Mesmas trevas

Quer no antissemitismo, quer na idolatria aos costumes judeus, percebe- se a ação das trevas. Desvia-se do amor caem no ódio aos judeus, desviados da prática sucumbem aos costumes que não salvam.

Talvez alguém defenda a aproximação às praticas judaicas como prova de amor a Sião. E o que ocorre é que dificilmente aquele que diz que ama os judeus sabe que a ação desse amor é a evangelização mundial.

4.1. Amor a Israel e Missões.

Uma Igreja que ama os judeus não pretende ser uma igreja judaica. Ela evangeliza, faz missões, para que o tempo dos gentios se cumpra, e o Senhor nos arrebate e volte a tratar diretamente com a nação de Israel nos tempos trabalhosos que virão. Se a Igreja de Cristo assim procede, não teme um mergulho nas sombras da Antiga Aliança reconhecendo que somos participantes daquela revelação.

Assim, qualquer semelhança com Israel é naturalmente entendida como um entrelaçamento dos ramos, naturais ou enxertados, da mesma oliveira.

Nota do editor: A publicação do artigo visa incentivar o conhecimento sobre dois extremos relacionados ao povo de Israel, como a autora sabiamente propõe, mas o editor deste blog acha exagerado o retrato que a mesma faz da Teologia da Substituição como meio de colaboração do antissemitismo. Na verdade, o mais correto seria afirmar que a Teologia Liberal foi um fator (de ideias) decisivo na relação das igrejas alemãs com o totalitarismo nazista. 

----------------------------------

Sara Alice Cavalcanti é mestre em Letras pela UERJ, professora de Hebraico e Literatura Hebraica na Faculdade Evangélica de Ciências e Tecnologia das Assembleias de Deus (FAECAD), colunista do jornal Mensageiro da Paz e membro da Assembleia de Deus em Bonsucesso (RJ). Artigo originalmente publicado na Revista RESPOSTA FIEL, Ano 5, n. 18, pp 7-9. 

sábado, 14 de maio de 2016

Se o seu e-mail não foi respondido...

Por Gutierres Fernandes Siqueira

Recebo muitos e-mails e não tenho como responder a todos. Alguns leitores ficam nervosos. Entenda o porquê do seu e-mail não respondido.

1. Tempo. O blog é uma atividade extra do meu dia, eu tenho emprego e uma vida social a zelar. Não posso dedicar muito tempo para uma atividade que me dá prazer, mas que não paga minhas contas. Ao mesmo tempo tenho como princípio não pedir doações ou patrocínios, pois o objetivo desta página é oferecer bons textos de graça. E esse objetivo continuará.

2. Perguntas Wikipédia. Algumas perguntas parecem questões de prova e que bastaria uma rápida pesquisa na própria Internet para a resposta. Não se pode colocar em um blogueiro ou no seu professor de Escola Dominical o fardo da pesquisa em seu lugar. Exemplo de perguntas Wikipédia: “Quais são as principais escolas escatológicas?”; “Qual era a língua falada por Jesus?”; “O que é Septuaginta?” etc. Põe no Google, meu amigo!

3. Perguntas já respondidas em textos publicados. Sugiro, neste caso, uma rápida pesquisa no campo de busca do blog.

4. 50% dos e-mails são pedidos de dicas de livros sobre o pentecostalismo. O blog dispõe de uma aba específica com essas dicas.

Certos da compreensão dos leitores, por favor, eu peço desculpas se alguém se sentiu ofendido por não ter o e-mail respondido.

terça-feira, 10 de maio de 2016

O Espírito Santo e Sua Pessoalidade

Por Stanley M. Horton

Tanto explícita como implicitamente, a Bíblia trata o Espírito Santo como uma Pessoa distinta. ‘E aquele que examina os corações sabe qual é a intenção do Espírito; e é ele que segundo Deus intercede pelos santos’ (Rm 8.27). ‘O Espírito penetra todas as coisas’ (1 Co 2.10). Desse modo. Ele age com inteligência e sabedoria (ver Efésios 1.17; Isaías 11.2). Ele tem emoções e pode ser entristecido ou ofendido (magoado, desgostado: Efésios 4.30; Isaías 63.10). Ele reparte dons ‘a cada um como quer’ (1 Co 12.11). Ele guiou a Igreja Primitiva e dirigiu os principais movimentos missionários de forma nítida, específica e pessoal. (Ver Atos 13.2; 16.6). O apóstolo João até usa pronomes pessoais masculinos para indicar a pessoa do Espírito. (A palavra espírito em grego é sempre neutra, e exige, gramaticalmente, pronomes neutros).

Mais importante do que isso, a Bíblia deixa claro que homens e mulheres, os quais foram movidos pelo Espírito Santo, conheciam-no de modo específico e pessoal.

[...] O Espírito Santo fornecia calor, a dinâmica, e a alegria que caracterizavam todo o movimento do Evangelho no primeiro século. Cada parte da vida diária dos crentes, inclusive seu trabalho e sua adoração, era dedicada a Cristo Jesus como Senhor e estava sob a orientação do Espírito Santo.

-------------------------

Stanley M. Horton (1916-2014) recebeu sua formação educacional em grandes centros universitários americanos como Berkeley e Harvard. Na ordem: Los Angeles City College (A.A., 1935); Universidade da Califórnia-Berkeley (B.S., 1937); Gordon-Conwell Theological Seminary (M.div, 1944); Universidade de Harvard (S.T.M., 1945); e Central Baptist Theological Seminary (th.d.,1959). E ainda fez estudos complementares no New York Theological Seminary. Era professor emérito de teologia no Assemblies of God Theological. Fonte do texto: A Doutrina do Espírito Santo. 5.ed., Rio de Janeiro: CPAD, 1995, p.8.9.

É a Assembleia de Deus wesleyana? (Parte 2)

Por Gutierres Fernandes Siqueira

Caros leitores,

Alguns esclarecimentos sobre os comentários que recebi sobre o texto "É a Assembleia de Deus wesleyana?".

1. O texto não nega a influência decisiva do wesleyanismo sobre o pentecostalismo. Revejam o último parágrafo onde deixo esse ponto bem claro.

2. O texto não é sobre o Movimento Pentecostal, mas sobre a Assembleia de Deus. O Movimento Pentecostal, como um todo, ainda mantém fortes laços com o wesleyanismo, mas já não é o caso das Assembleias de Deus que, desde a década de 1960, alterou sua confissão de fé para justamente “romper” com a influência wesleyana.

3. Doutrinalmente a Assembleia de Deus no Brasil em nada, absolutamente em nada, difere da matriz norte-americana. Inclusive, o “Cremos” da AD brasileira é um resumo do documento ‘Verdades Fundamentais” da AD norte-americana.

4. Em momento algum falo que o wesleyanismo seja um problema para o pentecostalismo. O pentecostalismo é muito completo e complexo para jogar fora tradições ricas como wesleyanismo, arminianismo clássico, calvinismo etc. A questão do texto é sobre a identidade assembleiana.

5. Em qual ponto o wesleyanismo representa uma dificuldade para o pentecostalismo assembleiano? A doutrina do Batismo no Espírito Santo. Os pentecostais wesleyanos costumam associar esse dom à santidade. O próprio Seymour fazia isso. Aliás, os primeiros pentecostais em massa associavam o Batismo à santidade. Todavia, isso é bem problemático. Não há qualquer embasamento bíblico para associar o Batismo no Espírito Santo com a santificação. A santificação é papel do Espírito Santo, o Espírito santificador, mas tal processo está relacionado à salvação e não aos dons de serviço. O Batismo no Espírito Santo é um dom. Os dons espirituais, como um todo, não são atestados de santidade. Exemplo clássico é a Igreja em Corinto, uma igreja que não faltava nenhum dom, mas sobrava carnalidade. A capacitação sobrenatural para o trabalho do Senhor não garante nem a justificação nem a santificação. Talvez muitos pentecostais esquecem que o Batismo no Espírito é um dom de serviço, é um dom que capacita o crente ao testemunho do Evangelho. Não é à toa que após o pentecostalismo houve um impulso evangelístico e missionário como nunca antes visto na cristandade desde o advento do Iluminismo. Todavia, no tocante ao exemplo de piedade, moralidade, pureza, etc. muitas vezes o Movimento como um todo tem falhado em escândalos públicos e pecados ocultos. E, é claro, associar o Batismo no Espírito Santo a um estágio de santidade é “elitismo” espiritual.

segunda-feira, 9 de maio de 2016

É a Assembleia de Deus wesleyana?

Por Gutierres Fernandes Siqueira

(A) santificação não é concluída num único momento; já o pecado de cujo domínio fomos libertados pela cruz e pela morte de Cristo, é enfraquecido, cada vez mais, pelas perdas diárias, e o homem interior é, dia a dia, mais e mais renovado, enquanto levamos conosco, em nossos corpos, a morte de Cristo e, dessa forma, o homem exterior vai perecendo. - Jacó Armínio [1]

Há um redescobrimento do arminianismo entre os assembleianos. Tal fenômeno é interessante sobre diversos aspectos: a) solidifica a identidade; b) expulsa o perigoso semipelagianismo; c) amadurece a discussão soteriológica e d) permite uma volta à ênfase na salvação como norte da pregação pública e do ensino privado. Porém, alguns desconhecendo a própria dinâmica doutrinária da denominação têm comprado o pacote completo dos autores arminianos mais populares, especialmente metodistas, e acabam abraçando o wesleyanismo.

O wesleyanismo não é nenhuma doutrina nociva ou algo do tipo, mas é contraditório assembleianos buscarem consolidação da identidade soteriológica ao englobar o pacote wesleyano junto ao arminiano. É claro que a Assembleia de Deus é arminiana, mas não wesleyana. Isso é apenas uma constatação histórica. Ora, pergunte a qualquer aluno veterano de Escola Dominical das Assembleias de Deus se é possível um crente alcançar a perfeição nesta vida e a resposta será - articulada ou não - em torno da crença na santificação progressiva.

Há cinco décadas as Assembleias de Deus claramente romperam com a tradição de Wesley. É bom lembrar que a teologia assembleiana rejeita a ideia wesleyana de “segunda obra da graça” onde a santificação é vista como definitiva. O teólogo assembleiano Timothy P. Jenney afirma: “Não há uma segunda obra específica da graça, conforme querem alguns”[2]. Os wesleyanos afirmam que “ninguém tem sido santificado gradualmente”. Os pentecostais assembleianos desde a década de 1960 reafirmam a crença na santidade progressiva segundo a perspectiva luterana/reformada.

Exemplos não faltam. No livro Doutrinas Bíblicas: Os Fundamentos da Nossa Fé os teólogos Stanley Horton e William Menzies comentam os 16 pontos da Declaração de Verdades Fundamentais produzida pelo Concílio Geral das Assembleias de Deus dos Estados Unidos e afirmam categoricamente: “A Bíblia mostra que a santificação é posicional e instantânea, mas é também prática e progressiva”[3]. O brasileiro Antonio Gilberto concorda: “De acordo com a Bíblia, a santificação do crente é tríplice: posicional, progressiva e futura” [4]. Em outra obra Gilberto escreve:

Quando o indivíduo expressa a verdadeira fé em Jesus como Salvador e nasce de novo do Espírito não significa que ele seja imediatamente perfeito. O processo operado nele começa a partir da natureza semelhante a Cristo. Isto ocorre quando o Espírito Santo, pela Palavra de Deus, começa a aparar as atitudes e comportamentos que não são iguais a Cristo. O cristão mostra progressivamente mais sinais de frutificação na vida espiritual, semelhante ao ramo que mostra progressivamente sinais de frutificação muito antes de o fruto atingir um estado maduro. A poda espiritual desenvolve maior evidência da natureza de Cristo, levando o crente à maturidade espiritual. [5]

Jenney também observa:

A diferença fundamental entre um cristão e um não-cristão não está no estilo de vida, na atitude ou mesmo no sistema de crenças. É que o crente deixa que Deus o santifique, enquanto o inconverso não o permitiu. [...] Sendo assim, o cristão não é necessariamente perfeito, mas alguém que se arrependeu do seu pecado e submeteu-se ao poder purificador do Espírito de Deus. [6]

Portanto, é fato consolidado que há um distanciamento entre as tradições wesleyanas e das Igrejas de Santidade, tão importantes no início do pentecostalismo, com a segunda fase da teologia assembleiana. Qualquer assembleiano que preze pela identidade soteriológica pode valorizar o arminianismo, mas o wesleyanismo é um intruso na história.

A exceção

Donald Stamps foi uma exceção. Ex-membro da Igreja do Nazareno, uma denominação de tradição wesleyana, o missionário Stamps produziu a popular obra Bíblia de Estudo Pentecostal onde, vez ou outra, deixou escapar uma vertente de perfeccionismo. Stamps afirmou: “Segundo o Novo Testamento, a santificação não é descrita como um processo lento, de abandonar o pecado pouco a pouco”, mas logo após defendeu que a “santificação é (também) descrita como um processo vitalício” [7]. A Bíblia de Estudo foi revisada por uma comissão, mas o vice-presidente da mesma era John Wesley Adams, outro ex-ministro nazareno. Porém, esse assunto foi motivo de controvérsia com outros membros da comissão editorial, como o falecido William M. Menzies, que certa vez afirmou em relação a Stamps: “Senti a necessidade de ser ‘enfadonho’ em argumentar o advento da graça de Deus”[8].

Conclusão

O reavivamento wesleyano no século XIX foi essencial para o nascimento do pentecostalismo. Todavia, algumas décadas depois o assembleianismo, uma das vertentes do pentecostalismo, rompeu claramente com essa tradição. O Batismo no Espírito Santo não é mais visto como uma “segunda obra da graça” como vertente santificadora, mas tão somente como um dom de capacitação evangelística e de serviço comunitário. Embora o arminianismo possa ser considerado como parte importante da identidade assembleiana eu, por assim dizer, repito que o resgate do wesleyanismo não é o resgate da nossa identidade.


------------------------
[1] ARMÍNIO, Jacó. As Obras de Armínio. Vol 2. 1 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2015. p 110.

[2] JENNEY, Timothy P. O Espírito Santo e a Santificação. Em: HORTON, Stanley M. (Ed). Teologia Sistemática: Uma Perspectiva Pentecostal. 10 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2006. p 424.

[3] HORTON, Stanley. Doutrinas Bíblicas: Os Fundamentos da Nossa Fé. 8 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2010. p 123.

[4] SILVA, Antonio Gilberto da. Verdades Pentecostais. 1 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2006. p 140. Veja a mesma posição em: BERGSTÉN, Eurico. Teologia Sistemática. 2 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2004. p 188. HORTON, Stanley M. Santidade: A Perspectiva Pentecostal. Em: GUNDRY, Stanley (ed). Cinco Perspectivas sobre a Santificação. 1 ed. São Paulo: Editora Vida, 2006. p 125-140. Para uma posição oficial em inglês veja o documento Sanctification & Holiness: ttp://ag.org/top/beliefs/topics/gendoct_05_sanctification.cfm

[5] SILVA, Antonio Gilberto da. O Fruto do Espírito: A Plenitude de Cristo na Vida do Crente. 1 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2004. p 23.

[6] JENNEY, Timothy P. O Espírito Santo e a Santificação. Em: HORTON, Stanley M. (Ed). Teologia Sistemática: Uma Perspectiva Pentecostal. 10 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2006. p 425.

[7] STAMPS, Donald. Bíblia de Estudo Pentecostal. 1 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 1995. p 1937, 1938.

[8] ARAÚJO, Isael. Dicionário do Movimento Pentecostal. 1 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2007. p 556.

domingo, 8 de maio de 2016

O Vento e o Fogo

Por Anthony D. Palma

Três fenômenos não usuais aconteceram no dia de Pentecostes: ‘um som, como de um vento veemente e impetuoso’, ‘línguas repartidas, como que de fogo’, e o falar em línguas (At 2.1-4). É tentador enxergar as três manifestações do Espírito Santo como indicações de sua atuação em salvação (vento), santificação (fogo) e serviço (línguas).

O vento e o fogo algumas vezes são chamados de teofanias — manifestações visíveis de Deus. Em ocasiões históricas, como a entrega da Lei, houve trovões, relâmpagos e nuvens densas, e um som muito alto de buzinas (Êx 19.16); então naquele dia histórico o Senhor se manifestou de um modo inesquecível com fogo e vento enviados do céu. Precisamos perceber, no entanto, que o vento e o fogo precederam o enchimento do Espírito; não foram parte dele. E mais, em nenhum outro trecho no livro de Atos esses elementos são mencionados novamente em paralelo às pessoas sendo cheias com o Espírito. Esses foram acontecimentos únicos e para marcar a total inauguração de uma nova era no procedimento de Deus com o seu povo.

O fenômeno audiovisual de vento e fogo é remanescente da entrega da Lei no monte Sinai (Êx 19.18; Dt 5.4); o vento não é mencionado em conexão com aquele vento, mas com a travessia do mar Vermelho (Êx 14.21), bem como em outras manifestações especiais no Antigo Testamento da presença de Deus (2 Sm 22.16).

O vento é um emblema do Espírito Santo (Ez 37.9; Jo 3.8); de fato, a palavra hebraica ruach tanto significa ‘vento’ quanto ‘espírito’, como acontece com a palavra grega comparável pneuma.

---------------------------------

Anthony D. Palma é pastor ordenado pelas Assembleias de Deus norte-americana. É mestre em Divindade pelo New York Theological Seminary e doutor em Teologia (Th.D.). Fonte do texto:O batismo no Espírito Santo e com fogo. 2.ed., Rio Janeiro: CPAD, 2002, p.58-59.

Missões Pentecostais

Por John York

Para os pentecostais, o derramamento do Espírito Santo por todo mundo é um sinal do fim de uma era de colheita. As missões estão longe de se tornar anacrônicas. De fato, as missões estão ganhando terreno entre muitas das igrejas mais novas nessa era final, a era do Espírito. Embora os pentecostais tenham muitas coisas em comum com outros evangélicos, o movimento pentecostal tem o seu próprio paradigma de missões. [...] Os pentecostais acreditam que o Espírito Santo tem sido derramado sobre a Igreja como um revestimento de poder para o discipulado de Cristo e dos apóstolos. Como vemos, por exemplo, em Atos 1.8, onde Cristo declara que o enchimento com o Espírito Santo aconteceria para que houvesse testemunho dEle até aos confins da terra. Os pentecostais encorajam os crentes a serem cheios com o Espírito Santo para que a igreja possa evangelizar o mundo antes do retorno de Cristo. [...] A orientação do movimento pentecostal em essência é cristológica. Para os pentecostais, o poder do Espírito Santo é dado para pregar a Cristo.

----------------------------------------

John York é ministro ordenado pela Assembleia de Deus norte-americana. Serviu como missionário na Nigéria, Malauí e Togo (1974-1997) e por 16 anos ele dirigiu uma faculdade teológica na Nigéria, onde o Assembleia de Deus floresceu de cerca de 150.000 para mais de dois milhões de membros nos últimos anos. É doutor em missiologia pela Trinity Evangelical Divinity School. Fonte: Missões na era do Espírito Santo. 1 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2002, p  154, 155..

Propósito dos Dons Espirituais: Fortalecer a Igreja

Por Jack Deere

Visto ser o propósito dos dons espirituais fortalecer a Igreja, as curas, os milagres, as línguas e a profecia não se confinam aos apóstolos, ou a umas poucas pessoas do primeiro século da era cristã. Antes, esses dons foram largamente distribuídos no seio da Igreja. Como já disse, o dom de profecia encontrava-se na igreja em Roma (Rm 12.6), Corinto (1 Co 12.10), Éfeso (Ef 4.11), Tessalônica (1 Ts 5.20) e Antioquia (At 13.1). O Novo Testamento também cita alguns indivíduos não-apóstolos, mas que eram chamados profetas ou exerciam dons de revelação: Ágabo (At 11.28; 21.10,11), Judas e Silas (At 15.32), as quatro filhas de Filipe, que profetizavam (At 21.9), e Ananias (At 9.10-19). Milagres eram operados em Corinto (1 Co 12.20) e nas igrejas da Galácia (Gl 3.5). Havia dom de línguas em Jerusalém (At 2.1-13), em Cesaréia, entre os convertidos gentios (At 10.44-48), em Éfeso (At 19.1-7), em Samaria (At 8.14-25) e em Corinto (1 Co 12-14).

O propósito de fortalecer a Igreja é particularmente verdadeiro quanto ao dom da profecia. Paulo mantém que ‘o que profetiza, fala aos homens, edificando, exortando e consolando’ (1 Co 14.3). E, novamente: ‘O que profetiza edifica a igreja’ (1 Co 14.4). Visto ser a edificação o propósito primário dos dons espirituais, como poderia alguém concluir que foram retirados da Igreja? Se esses dons edificaram a Igreja no primeiro século, por que não a edificariam no século XX? As próprias declarações da Bíblia forçam-nos a crer na sua continuidade.

------------------------------------------------

Jack Deere, ex-professor de Antigo Testamento no Dallas Theological Seminary, é um escritor e conferencista que fala em todo o mundo sobre os dons do Espírito Santo. Ele é o autor do livro best-seller Surpreendido pelo Poder do Espírito. Fonte: Surpreendido pelo poder do Espírito. 1 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 1995, p.135.

Autoridade


Por Gutierres Fernandes Siqueira

Há igrejas onde um casal deve pedir permissão ao pastor antes do namoro ou noivado. O pastor agora faz o papel de pai? Outras onde o líder humilha publicamente membros que não seguiram determinada ordem. Acaso a igreja é um exército? Etc e tal. Esses exemplos são abusos de autoridade.

Há igrejas onde o pastor nunca é chamado para um aconselhamento. Cadê a confiança no ministério? Há congregações onde cada indivíduo é uma sentença, mas, ora, igreja é corpo e não um conjunto de cabeças... Onde está a autoridade devida?

A igreja sadia cultiva a autoridade sem autoritarismo, a ordem livre, a comunhão sem amarras, a liberdade sem anarquismo, a interação sem invasão, a individualidade sem individualismo, a comunhão sem coletividade...

sábado, 7 de maio de 2016

A beleza de Cristo

O Sepultamento de Cristo,
Caravaggio, 1604. 
Por Gutierres Fernandes Siqueira

Cristo é a própria expressão da beleza. Em um dos salmos messiânicos está escrito: “Tu és mais formoso do que os filhos dos homens” (45.2). Em João 10.11 lemos Ele mesmo declarando: “Eu sou o bom pastor” (ἐγώ εἰμι ὁ ποιμὴν ὁ καλός), sendo que a palavra grega καλός (kalos) significa “belo”, “formidável”, “digno”e “bom”. Porém, diante da morte vicária Jesus ficou irreconhecível: “Ele não tinha qualquer beleza ou majestade que nos atraísse, nada em sua aparência para que o desejássemos. Foi desprezado e rejeitado pelos homens, um homem de tristeza e familiarizado com o sofrimento. Como alguém de quem os homens escondem o rosto, foi desprezado, e nós não o tínhamos em estima”, escreveu o profeta Isaías sete séculos antes do evento pascal (53.2b,3). O nosso pecado roubou-lhe por algum momento a Sua própria beleza.

A beleza tem um significado especial para o cristão. Ela nos remete ao próprio Deus. Não é mero estímulo ou espetáculo. Não está escravizado pelo prazer sensorial, portanto, não é nem efêmero nem egocêntrico. A beleza na vida nos joga para a glória formidável do Senhor. Cada beleza que vemos no nosso dia a dia nos lembra sobre o único Ser que é esplêndido, perfeito, simétrico, puro e especial. Ou você nunca teve a experiência de se sentir no céu ao ouvir uma bela canção? Ou mesmo ver anjos ao olhar um bebê sorrindo? "Os céus declaram a glória de Deus; o firmamento proclama a obra das suas mãos", como canta o Salmo 19.1.

Enquanto isso, infelizmente, o pecado enfeia o mundo. O pecado é expresso em trevas, sujeira, borrões, assimetrias, indignidade. É errar o alvo. É distorção. Não é à toa que sem a graça de Cristo o mundo celebra a própria miséria e a toma como referência. Até nossas cidades, sem a graça comum, ficam cheias de misérias, pichações, poluições, sons ensurdecedores, vícios e violência. A política tradicional transforma-se em um espetáculo de indelicadeza, baixaria e corrupção e os protestos, a politica das ruas, convertem-se numa escatologia (no sentido ruim da palavra). A arte passa a celebrar o estrume de um animal e a música vira mero barulho- como as batidas do funk - que mais lembra o som irritante de uma britadeira. O mundo sem a graça é a própria celebração da indignidade. "Dizendo-se sábios, tornaram-se loucos, e trocaram a glória do Deus imortal por imagens feitas segundo a semelhança do homem mortal, bem como de pássaros, quadrúpedes e répteis" (Romanos 1.22,23).

Já em Cristo o homem não só discerne o bem do mal, mas também o belo do feio. Nos diz um antigo hino:

Que a beleza de Cristo se veja em mim
Toda sua admirável pureza e amor
Ó Tu, Chama Divina
Todo meu ser refina
Té que a beleza de Cristo se veja em mim

Isso mesmo. A beleza de Cristo nos traz dignidade, restauração e ordem na liberdade. Cristo é aquele que não deixa a nossa miséria nos devorar.