quinta-feira, 30 de junho de 2016

O que é evangelização

Por Gutierres Fernandes Siqueira

Evangelizar é a ação de proclamar as boas novas de Cristo Jesus. Todavia, toda definição é limitada diante de uma realidade complexa. Assim, é necessário ampliar o escopo de entendimento sobre a natureza evangelizadora da Igreja.

A evangelização é um processo comunicativo. Comunicação é definida como um “processo que envolve a transmissão e a recepção de mensagens entre uma fonte emissora e um destinatário receptor, no qual as informações, transmitidas por intermédio de recursos físicos (fala, audição, visão etc.) ou de aparelhos e dispositivos técnicos, são codificadas na fonte e decodificadas no destino com o uso de sistemas convencionados de signos ou símbolos sonoros, escritos, iconográficos, gestuais etc.” (Dicionário Houaiss). Logo, não existe comunicação se o receptor não receber a mensagem e, também, se os ruídos da comunicação não impedirem a fluência da boa notícia. É importante observar que a mensagem nunca será recepcionada numa tabula rasa, ou seja, cada palavra, gesto e ação do evangelizador serão igualmente codificados pelo ouvinte ao mesmo tempo em que será ele- o evangelizado- julgará o evangelizador e sua mensagem segundo premissas e valores próprios.


Quando Paulo perguntou aos efésios se esses haviam recebido o Espírito Santo ele recebe uma resposta sincera: "Não, nem sequer ouvimos que existe o Espírito Santo” (Atos 19.2). Como entender e experimentar uma verdade sem o contexto da necessidade?  Da mesma forma, a comunicação evangelizadora sempre precisa apresentar o contexto de sua novidade. O escritor inglês G. K. Chesterton dizia que “o jornalismo consiste em anunciar que 'Lord Jones morreu’ para pessoas que nem sabiam que Lord Jones estava vivo". Irônico, não é? Na evangelização o mesmo pecado é cometido: muitas vezes se fala de um Salvador, Jesus Cristo, sem antes mostrar por qual razão eu necessito de salvação. Não me esqueço de uma entrevista que assisti pela TV há alguns anos; isso porque um dos apresentadores perguntou ao convidado, um filósofo com formação teológica, por qual motivo ele precisava ser salvo. Não lembro qual a resposta dada ao entrevistador cético, mas aquela pergunta sintetizava a essência do homem contemporâneo. Ora, se há uma coisa que o homem moderno mais abomina é a ideia que ele precisa ser salvo, especialmente de si mesmo, quando desde criança o sujeito é educado como o próprio salvador do mundo.

A herança cultural, a personalidade, os vícios, as manias, a ideologia etc. afetará a forma como o ouvinte recebe, recepciona, examina e interpreta a mensagem, seja aceitando-a ou rejeitando-a. Quem evangeliza, portanto, precisa entender o terreno onde pisa. O evangelizador sempre será um missionário transcultural em sua própria cultura, um estrangeiro entre os seus compatriotas. Assim, embora não seja necessário mudar o léxico, o evangelizador precisa aprender novas línguas. O teólogo Bruce J. Nicholls observa que há pregadores que proclamam o evangelho da mesma maneira para todos os tipos de audiência: “quer seja ela composta de católicos, hindus, muçulmanos ou marxistas”[1]. Não há lógica do discurso monocromático. Evangelizar, portanto, sempre será um choque de visões de mundo, mas, antes, é necessário entender a visão de mundo do ouvinte.

A evangelização não é proselitismo. A pregação do Evangelho consiste numa atividade humana dependente inteiramente da graça divina. O evangelista, e todo cristão é um evangelista, precisa entender que o impacto da mensagem do Evangelho não depende dele. É o Espírito Santo quem convence o homem do pecado, da justiça e do juízo (cf. João 16.18). Portanto, a pregação do Evangelho não é um jogo de convencimento, não é uma disputa retórica e nem mesmo um debate, mas tão somente uma proclamação embalada de misericórdia.

Atenção, eu não estou dizendo que não seja possível (e até desejável) evangelizar em debates acadêmicos ou mesmo por meio da oralidade rebuscada, mas apenas que o evangelismo não depende desses mecanismos para a sua eficácia. Há filósofos e pensadores cristãos que fazem até mesmo seguidores fiéis, alguns verdadeiros prosélitos, mas não necessariamente levam tais pessoas a Cristo, mas a somente si mesmas. Há sempre um limite para o nosso labor, mesmo o intelectual.

Observe os destaques desses textos bíblicos:

E (a igreja dos primeiros dias) perseveravam na doutrina dos apóstolos, e na comunhão, e no partir do pão, e nas orações. Em cada alma havia temor, e muitas maravilhas e sinais se faziam pelos apóstolos. Todos os que criam estavam juntos e tinham tudo em comum. Vendiam suas propriedades e fazendas e repartiam com todos, segundo cada um tinha necessidade. E, perseverando unânimes todos os dias no templo e partindo o pão em casa, comiam juntos com alegria e singeleza de coração, louvando a Deus e caindo na graça de todo o povo. E todos os dias acrescentava o Senhor à igreja aqueles que se haviam de salvar. (Atos 2.42-47).

E eu, irmãos, não vos pude falar como a espirituais, mas como a carnais, como a meninos em Cristo. Com leite vos criei e não com manjar, porque ainda não podíeis, nem tampouco ainda agora podeis; porque ainda sois carnais, pois, havendo entre vós inveja, contendas e dissensões, não sois, porventura, carnais e não andais segundo os homens? Porque, dizendo um: Eu sou de Paulo; e outro: Eu, de Apolo; porventura, não sois carnais? Pois quem é Paulo e quem é Apolo, senão ministros pelos quais crestes, e conforme o que o Senhor deu a cada um?  Eu plantei, Apolo regou; mas Deus deu o crescimento. Pelo que nem o que planta é alguma coisa, nem o que rega, mas Deus, que dá o crescimento. Ora, o que planta e o que rega são um; mas cada um receberá o seu galardão, segundo o seu trabalho. Porque nós somos cooperadores de Deus; vós sois lavoura de Deus e edifício de Deus. (1 Coríntios 3. 1-9).

Inúmeras vezes o Evangelho é apresentado como se fosse mais uma ideia na prateleira das ideologias existentes ou, ainda, mais uma fé entre inúmeras crenças religiosas, porém sendo a melhor e mais adequada. O apóstolo Paulo quando defrontado com a realidade de pregar em um ambiente que respirava pluralismo religioso tomou o cuidado de mostrar como a essência do próprio paganismo só podia ser inteiramente satisfeita em Cristo (cf. Atos 19). O apóstolo dos gentios usa a figura do “deus desconhecido” justamente para mostrar como a fé do homem pagão só encontraria plenitude e sentido no Senhor do Universo. O evangelista cristão apresenta a fé não como algo estranho ao ouvinte, mas como o encontro com o desejo mais profundo de sua alma.

Evangelizar não é brincar de falso profetismo. No fundamentalismo protestante é comum o discurso inflamado em favor da moralidade e dos bons costumes. À semelhança dos profetas veterotestamentários, esses evangelistas midiáticos anunciam o juízo sobre a condição deplorável de pecado e imoralidade na sociedade contemporânea. Embora tais alertas sejam inspirados no Velho Testamento, é bom lembrar que naquela época os mesmos profetas anunciavam e ofereciam a esperança da redenção após a dureza do juízo. Ou seja, existiria uma aliança pós-exílica. Ora, não parece que tais evangelistas moralistas de hoje ofereçam qualquer esperança de redenção, logo porque não há salvação no moralismo. Evangelizar não é teocratizar uma sociedade; não é forçar uma santidade sem a graça, uma moral sem Cristo e uma “vida correta” sem redenção. Ou como dizia John Owen: “Aquele que troca a soberba pelo mundanismo, a sensualidade pelo farisaísmo, a vaidade pelo desprezo do próximo, não pense que mortificou e abandonou o pecado. Mudou de dono, mas continua escravo”[2]. Evangelizar é proclamar que apenas em Cristo temos a vida transformada, remida, santificada, justificada, regenerada e, por fim, glorificada.

Portanto, sempre é necessário entender as diversas dimensões da evangelização.

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Este texto serve como subsídio da Lição 1 – O que é Evangelização nas Lições Bíblicas da Escola Dominical. Boa aula! 



[1] NICHOLLS, Bruce J. Contextualização: Uma Teologia do Evangelho e Cultura. 2 ed. São Paulo: Edições Vida Nova, 2013. p 9.

[2] OWEN, John. A Mortificação do Pecado. 1 ed. São Paulo: Editora Vida, 2005. p 73.

segunda-feira, 20 de junho de 2016

É realmente necessário congregar?

Esta é uma pergunta que eu não posso responder. Minha própria experiência é que logo que eu me tornei um cristão, cerca de quatorze anos atrás, eu pensava que poderia me virar sozinho, me retirando a meu quarto e lendo teologia, e não frequentava igrejas ou estudos bíblicos; e então mais tarde eu descobri que era o único modo de você agitar sua bandeira; e, naturalmente, eu descobri que isso significava ser um alvo. É extraordinário o quão inconveniente para sua família é você ter que acordar cedo para ir à Igreja. Não importa tanto se você tem que acordar cedo para qualquer outra coisa, mas se você acorda cedo para ir à igreja é algo egoísta de sua parte e você irrita todos na casa. Se há qualquer coisa no ensinamento do Novo Testamento que é na natureza de mandamento, é que você é obrigado a participar do Sacramento e você não pode fazer isso sem ir à igreja. Eu não gostava muito dos seus hinos, os quais eu considerava poemas de quinta categoria com música de sexta categoria. Mas à medida em que eu ia eu vi o grande mérito disso. Eu me vi diante de pessoas diferentes de aparência e educação diferentes, e meu conceito gradualmente começou a se desfazer. Eu percebi que os hinos (os quais eram apenas música de sexta categoria) eram, no entanto, cantados com tamanha devoção e entrega por um velho santo calçando botas de borracha no banco ao lado, e então você percebe que você não está apto sequer para limpar aquelas botas. Isso o liberta de seu conceito solitário. [C. S. Lewis]

fonte: LEWIS, Clive S. God in the Dock: Essays on Theology and Ethics. 1 ed Grand Rapids: Eerdmans Publishing, 2014. p 52-53. Tradução: Sandro Baggio.

domingo, 19 de junho de 2016

Jesus Cristo foi um revolucionário político?

Muitos substituíram o liberalismo, o conservadorismo ou algum outro “ismo” por Cristo e cooptam Cristo para a causa deles. Cristo não pode ser cooptado por nenhuma causa; todas as causas têm de ser cooptadas por ele. Todos os “ismos” são abstrações. Até mesmo o “ismo” perfeito, se houver algum, não pode nos salvar nem nos amar. [Peter Kreeft][1]

Por Gutierres Fernandes Siqueira

Não há dúvida que Jesus trouxe um tsunami para o judaísmo de sua época e, consequentemente, para a história de todo o mundo antigo e moderno. A forma como o homem entende a religião e a própria vida mudou com o nazareno. O mundo é outro depois do nascimento do Messias. Isso é reconhecível mesmo para um homem sem fé. Porém, historicamente Jesus tinha pretensões políticas na Palestina do primeiro século? Jesus, como líder humano e carismático, teve qualquer vontade de provocar uma revolução política? Jesus tinha algum projeto de poder temporário? Queria Ele assumir o lugar de César para libertar os oprimidos da Judeia contra o imperialismo romano?

De vez em quando vejo a turma teológica-ideológica-progressista postulando a ideia que Jesus era uma espécie de revolucionário político. Esse pensamento é tão estranho, exótico e absurdo que o erudito Joachim Jeremias (1900 – 1979), um dos maiores especialistas em Novo Testamento e um intelectual ponderado, dizia que quem faz essa interpretação "não entendeu Jesus”[2]. É a velha tentativa da teologia de cunho racionalista em produzir um Cristo segundo a própria imagem e semelhança do homem moderno. O estudioso judeu Géza Vermès (1924-2013), que não foi propriamente um cristão tradicional, escreveu: “Não que pareça ter havido algum desacordo fundamental entre Jesus e os fariseus no tocante a temas essenciais... Não há na minha leitura dos evangelhos indícios que apontem para qualquer envolvimento de Jesus nas questões revolucionárias dos zelotes”[3].  Essa leitura ideológica de Jesus partiu de teólogos com bases marxistas como Fernando Belo, Michel Clévénot e George Casalis. É óbvio que tais nomes influenciaram ideólogos da Teologia da Libertação e, também, do próprio renascer adocicado do liberalismo teológico.  

Vejamos os motivos para rejeitar como ficção de quinta categoria qualquer alegação de revolução política em Jesus:

1.      Relação amistosa com os samaritanos. O tratamento dado aos samaritanos afastava o Mestre de qualquer postura ultranacionalista, traço tão comum aos zelotes de sua época. Bem, quem eram os zelotes? Era um grupo ultranacionalista de judeus que enxergava na aceitação da dominação estrangeira e no pagamento de impostos a Roma um ato blasfemo contra o próprio Yahweh. Os zelotes eram extremistas, usavam táticas de ataques repentinos (terrorismo) contra os inimigos e eram minoritários entre os judeus, mas foram essenciais no levante contra Roma na década de 60 do primeiro século. O historiador judeu Flávio Josefo (37 d.C.- 100 d.C.) atribui aos zelotes “a primeira causa da ruína de Jerusalém”[4]. Os zelotes, inclusive, matavam judeus que, na visão deles, colaboravam com Roma. Pelas táticas de ataque os zelotes eram conhecidos como sicários (apunhaladores) pelos romanos porque tinham o costume de esconder um punhal embaixo das vestes para atacar em meio a uma multidão sem serem pegos facilmente. 

2.  A purificação do templo (João 2.12-22). Os discípulos ao lembrar o Antigo Testamento, especialmente do Salmo 69.9, mostraram que a motivação de Jesus não era subversiva, mas de purificação ritualística, profética e escatológica. Jesus, ao purificar o templo, é imediatamente remetido ao servo sofredor do Salmo 69.  A escatologia do judaísmo pregava o estabelecimento de um novo templo na era messiânica (Ez 40-44; 1 En 90.28-36; Sl. Sal. 17.30; 4QFlor 1.1-13). Ora, é importante observar que a ação purificadora de Jesus se deu “no pátio do templo” (v. 14), uma área destinada aos gentios. Portanto, para Jesus, na era messiânica o espaço dos gentios deveria ser igualmente livre para adoração.  O significado teológico da ação de Jesus foge de qualquer escopo nacionalista, pois, ao contrário, tal “revolta” mostrou como Jesus valorizava a figura do não-judeu na adoração estabelecida.

3.    Nenhum discípulo preso. Como lembra Gerd Theissen: “Nenhum dos discípulos de Jesus foi preso com ele, o que certamente seria de esperar na hipótese de um movimento de rebelião”[5].

4.    A espada em Lucas 22.38. Jesus mostra aos discípulos que não esperassem mais hospitalidade e generosidade no trabalho missionário. Agora, ao contrário, iniciaria um tempo sombrio e hostil. Não é nenhum convite a qualquer revolta, pelo contrário, mas apenas a preparação comum de um viajante nas estradas perigosas do mundo antigo.  O historiador Flávio Josefo mostra que até mesmo os essênios, conhecidos pela vida pacata e asceta, usavam armas em suas viagens[6].

5.    Simão, o zelote. A adjetivação de Simão como zelote (Lc 6.15) mostra que os demais discípulos, excetuando Judas, e o próprio Jesus estavam excluídos desse grupo revolucionário. Se eu falo que congrego numa igreja onde o Karl, o alemão, também congrega, logo estou mostrando que esse estrangeiro é uma exceção entre os meus.

Sobre essa leitura míope de um “Cristo revolucionário”, o teólogo e exegeta Francis Pierre Grelot (1917-2009) escreveu e sintetizou bem o assunto:

Trata-se de fantasias sem valor histórico: a ótica de leitura adotada falseia constantemente os textos, projetando neles a ideologia (dos autores). (...) Ficamos surpresos ao constatar entre esses (teólogos) uma adoção ingênua dos postulados marxistas, classificados como ‘científicos’, sem distância nem espírito críticos. Se é verdade que a análise sociológica do judaísmo antigo e do cristianismo primitivo seria fecunda para renovar a leitura dos textos (bíblicos), é verdade também que a “redução” à qual conduz este espírito de sistema introduz neles verdadeiros preconceitos que falseiam sua compreensão.[7]

Portanto, reduzir Cristo a uma espécie de Che Guevara primitivo não é só pobreza exegética, é acima de tudo uma forma de idolatria idiota.




[1] KREEFT, Peter. Jesus: o maior filósofo que já existiu. 1 ed. Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2009. p 145.
[2] JEREMIAS, Joachim. Teologia do Novo Testamento. 1 ed. São Paulo: Hagnos, 2008. p 334.
[3] VERMES, Geze. Jesus e o Mundo do Judaísmo. 1 ed. São Paulo: Edições Loyola, 1996. p 20.
[4] JOSEFO, Flávio. História dos Judeus. 1 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 1990. pos 25160.
[5] MERZ, Annette e THEISSEN, Gerd. Jesus Histórico: um Manual. 2 ed. São Paulo: Edições Loyola, 2004. p 486.
[6] JOSEFO, Flávio. História dos Judeus. 1 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 1990. pos 21689.
[7] GRELOT, Pierre. Esperança Judaica no Tempo de Jesus. 1 ed. São Paulo: Edições Loyola, 1996. p 126.

sábado, 18 de junho de 2016

O massacre de Orlando iniciou uma guerra contra os cristãos

Por David A. French
Tradução: Charles Souza

De alguma maneira, o massacre realizado por Omar Mateen colocou os cristãos americanos na defensiva

Nós estamos olhando completamente através de um espelho[1]. Um muçulmano entrou em uma boate gay e matou a tiros 49 homens e mulheres, sendo a maioria de gays e lésbicas. Ele parou no meio do massacre para ligar para a polícia e para uma emissora de TV local, deixando claro que ele queria que o mundo todo tomasse conhecimento de sua promessa de lealdade ao ISIS. Não há nada a esconder aqui. Isso é um evidente caso de jihadismo na prática- claro e simples.

Mas de alguma forma, o caso de Omar Mateen colocou os cristãos americanos na defensiva.

No último dia 14, Anderson Cooper, apresentador da CNN, questionou a advogada geral da Flórida, Palm Bondi, acusando-a de hipocrisia por expressar apoio aos mortos da Flórida. Por que ela seria hipócrita? Por causa de sua oposição ao casamento homossexual.

No último dia 15, o jornal The New York Times fez um editorial sobre as ameaças nos EUA contra a sua comunidade LGBT e declarou que eles eram vítimas de uma sociedade onde o ódio tem raízes profundas. A "sociedade" que o jornal The New York Times condenou não era o Estado Islâmico - era a América, e especificamente os estados do Texas e da Carolina do Norte, que estão lutando contra um decreto federal que exige que homens devam ter acesso ao banheiro feminino. O The New York Times não consegue condenar Abu Bakr al-Baghdadi, mas ataca com facilidade o governador da Carolina do Norte, Pat McCrory, e o governador do Texas, Greg Abbot.


Até mesmo cristãos bem-intencionados estão adotando uma linha progressista e secular. Em uma publicação de Facebook que se tornou viral, a escritora popular e palestrante, Jen Hatmaker, declarou: "Nós não podemos, com alguma integridade, honrar na morte aqueles que falhamos em honrar na vida." Ela então continua propondo uma típica abordagem de esquerda, argumentando que o sentimento anti-LGBT dos cristãos pavimentou uma longa estrada para crimes de ódio.

Os princípios, tais como eles existem, parecem ser assim: Se você é contra o casamento homossexual ou o uso de banheiros de acordo com a identidade de gênero, então você não só é capaz de lamentar legitimamente a perda de vidas de gays, como é também parcialmente responsável pelo massacre em Orlando. Os esforços por parte dos conservadores para proteger a liberdade religiosa e a liberdade de associação a qualquer grupo de infrações externas irão matar pessoas. Esqueça que todas as atuais evidências do caso apontam para motivações tiradas de uma conhecida e largamente compartilhada interpretação da lei Shariah, mas alguma forma esses malditos batistas são os culpados.

Isto significa que Barack Obama teria sido cúmplice no massacre caso tivesse acontecido quatro anos atrás, antes de ele alterar publicamente seu posicionamento sobre o casamento homossexual? E quanto a Hillary Clinton? Ela era contra o casamento gay até 2013. Seu marido assinou a lei de defesa do casamento tradicional. O atirador de Orlando morou por vários anos sob administrações democratas que se opunham ao casamento entre pessoas do mesmo sexo. Eu acho que Bill Clinton também tem um pouco de culpa.

Eu não tenho palavras para expressar meu desdém por essa visão. Algum ser humano sensato acredita que se um cristão tivesse começado este ataque, esses mesmos progressistas não culpariam suas crenças religiosas? A suposta comunidade baseada na realidade ignora a atual evidência do ataque - o próprio Mateen declara em alto e bom senso suas crenças jihadistas - em uma tentativa de envergonhar um grupo cujo principal pecado é se opor à revolução sexual.

Mas há algo ainda mais sinistro acontecendo do que as diversas variedades de intolerância anticristã, com a ajuda de crentes ingênuos como Hatmaker: Os americanos estão sendo, propositalmente e intencionalmente, distraídos dos nossos verdadeiros inimigos. De novo, a ameaça jihadista está sendo minimizada.

Alguns à esquerda simplesmente recusam a acreditar que terroristas dizem sobre eles mesmos e sobre suas intenções. Osama Bin Landen não poderia ter atacado o World Trade Center a parte de um desejo de se vingar contra os cristãos do século XV pela conquista da Espanha muçulmana. Líderes iranianos não querem realmente dizer "morte aos Estados Unidos”. As nações muçulmanas que aplicam pena de morte ou outras punições criminais extremamente rigorosas e severas para a homossexualidade não expressam verdadeiramente a vontade do seu povo.

O resultado é a intolerância ocorrendo de duas maneiras - um irracional ódio a cristãos americanos e uma compreensiva negação da agência moral muçulmana. Os cristãos americanos são responsáveis por coisas que eles não creem. Muçulmanos que seguem a Shariah, entretanto, não são responsáveis pelas coisas que eles acreditam.

E não cometa erros, dizem os muçulmanos que não se importam nem um pouco com o que o The New York Times, Anderson Cooper, Jen Hatmaker ou qualquer outro apologista contrário ao cristianismo tem a dizer. Para eles, tirar uma vida americana é tão bom quanto tirar qualquer outra. Eles atacarão novamente, talvez em alguma outra boate gay, ou em uma confraternização na empresa durante o Natal, ou em uma cafeteria, ou em um evento esportivo, ou uma igreja. E quando eles atacarem, certamente haverá alguns americanos que justificarão essas ações com a intenção de culpar outros americanos no lugar.

David A. French é advogado formado pela Harvard University, major aposentado do exército americano e membro da Igreja Presbiteriana, além de colunista da National Review. Atualmente é presidente da Foundation for Individual Rights in Education. Ainda em 2014 escreveu um livro sobre a ascensão do Estado Islâmico: The Rise of ISIS: A Threat We Can’t Ignore. Artigo publicado originalmente na National Review. (leia neste link).




[1] Referência ao último filme da saga Alice Through the Looking Glass. No Brasil o título do filme é Alice Através do Espelho.

domingo, 12 de junho de 2016

A cristologia estranha do Granconato e um chamado à humildade!

Por Victor Leonardo Barbosa

As redes sociais e os teólogos facebookianos estiveram à flor da pele nesta semana com a divulgação do trecho de uma pregação do famoso e polêmico professor Marcos Granconato, onde este, baseando-se em textos como Mateus 24 e Atos 1, afirma que dentro do relacionamento intratrinitariano (ou como tecnicamente é conhecido em teologia, dentro da Trindade Imanente) há uma submissão (ou até mesmo uma certa inferioridade) no que tange as pessoas do Filho e do Espírito Santo ao Pai.  No caso em questão, Jesus não possui plena onisciência junto com o Pai, ou melhor, não é plenamente onisciente acerca da mente e dos pensamentos do Pai, apenas no que tange à mente dos homens e dos anjos e dos acontecimentos terrenos.

Não é à toa que a polêmica se alastrou grandemente. É preciso primeiramente analisar a proposição do príncipe dos cessacionistas e antipentecostais brasileiros para depois tecer alguns comentários.

1.      O debate recente sobre a “Submissão Eterna do Filho”

Atualmente o meio reformado vem debatendo acerca dos posicionamentos de alguns de seus mais prestigiados teólogos, como Bruce Ware e Wayne Grudem, que defendem que, no relacionamento entre as três pessoas da trindade, o Filho apresenta uma submissão funcional (não essencial) com relação ao Pai não somente na encarnação, mas igualmente na eternidade. Ainda que essas afirmações não sejam tão recentes, ao que parece vêm ganhando grandes proporções nestes últimos dias, ganhando inclusive comentários em blogs como a Alliance of Confessing Evangelicals[1] e gerado polêmicas com teólogos como Mark Jones e Carl Trueman. 

2. A visão granconiana: muito além da submissão.

Ainda que haja um debate relevante que envolva Grudem, Ware e outros, vejam bem, em nenhum momento tal posição macula essencialmente o cerne da fé cristã. A visão que Granconato defende, porém, vai muito além de uma simples submissão funcional, expressando, a bem da verdade, uma verdadeira inferioridade na pessoa do Filho e Espírito em relação ao Pai. O grande problema é o texto-prova apresentado por ele.

3. Uma exegese pobre e anômala ao texto bíblico.

No vídeo em questão, Granconato apela para Atos 1.6-7, quando os discípulos perguntam se Jesus iria restaurar imediatamente o Reino a Israel. Granconato vê na resposta de Jesus uma ignorância acerca dos planos estabelecidos por Deus: “não vos convém saber os tempos e as estações que o Pai estabeleceu pelo seu próprio poder...” (At 1. 7a).

Não é preciso ser profeta ou filho de profeta para saber que nosso Senhor, ao dar essa resposta, não está nem um pouco preocupado em falar acerca de sua suposta ignorância acerca dos planos escatológicos de Deus (que nada tem a ver com a economia da salvação), e sim que não cabia aos discípulos saber quando se dariam essas coisas. Cabia a eles, na verdade, pregar o Evangelho a todas as nações e deixar o resto com Deus.  Achar mais coisas do que o texto diz torna-se eisegese, ou seja, é uma mera declaração teológica carente de respaldo bíblico.

4. Os perigos desse tipo de entendimento.

A posição teológica apresentada por Granconato toca em algo extremamente caro para qualquer cristão, a diminuição da glória de Jesus Cristo, e consequentemente, abre as portas do pensamento teológico para as piores (e bastante antigas) heresias que já desafiaram a igreja cristã. Defender o pensamento teológico deste autor é incorrer em um caminho perigoso, em um campo minado. Dentro desse campo minado, vemos que princípios preciosos podem ir pelos ares. Dentre os quais podemos destacar:

a) Mina o entendimento ortodoxo da pessoa de Jesus: Que Jesus é plenamente igual ao Pai e compartilha de todos os seus atributos fica claro nas declarações escriturísticas: “Ninguém conhece o Filho a não ser o Pai, e ninguém conhece o Pai a não ser o Filho, e a quem o Filho quiser revelar” (Mateus 11.27). Não há segredos dentro dos relacionamentos trinitarianos ou algo obscuro entre as pessoas. O Filho conhece plenamente o Pai, sua vontade e seus pensamentos, e por isso, cumpriu plenamente a vontade de Deus e faz o que lhe agrada.  Glória a Cristo!

b). Mina o entendimento ortodoxo da Pessoa do Espírito: O pensamento de Granconato fere diretamente 1 Coríntios 2.10, onde o apóstolo Paulo, de maneira inequívoca, mostra claramente o pleno conhecimento do Espírito acerca do Pai. O crente tem apenas uma opção, aceitar a opinião do príncipe cessacionista ou do apóstolo Paulo. Não há meio-termo.

c). Mina a adoração a Cristo: O apóstolo João nos diz que todos os que honram o Pai devem igualmente honrar o Filho da mesma maneira (João 5.20). Se aceitarmos a posição de Granconato, não há como exaltar todos os atributos do Senhor Jesus Cristo como Deus plenamente onisciente.

5. Um chamado ao alerta evangélico.

Diante das questões apresentadas, surge aqui uma conclusão latente: a visão de Granconato é extremamente perigosa, se não perigosamente herética. O Jesus apresentado por ele possui um “kenosticismo” não somente na terra, mas também eternamente no Céu. Tal visão se aproxima de uma visão perigosamente ariana de inferioridade. Ainda que de maneira alguma afirmemos que Granconato esteja nessa categoria, sua visão certamente abre perigosas brechas para um entendimento como esse.

O caso Granconato nos leva a refletir sobre o papel muitas vezes desempenhado por aqueles que, por vezes, se mostram extremamente belicosos em questões secundárias no meio evangélico conservador, assim se apresentado como guardiões da santa doutrina e desprezando os “hereges”, mas que acabam por apresentar em seu bojo teológico algo muito mais pernicioso. O pastor Granconato é conhecido por sua chacota aos pentecostais, taxando-os como ignorantes supersticiosos e sem Deus. Todavia, propaga algo que fere a ortodoxia cristã em seus próprios fundamentos. Que possamos orar por ele, e que ele tenha igualmente a humildade de reconhecer seu grave erro. Quanto a nós, oremos para que não aconteça conosco algo pior. Que esse caso possa nos alertar para não sermos especialistas em tirar os supostos “ciscos” teológicos de nossos irmãos, enquanto cultivamos traves heréticas em nossas próprias pupilas.

Amém!

Soli Deo Gloria.

domingo, 5 de junho de 2016

Por que precisamos de avivamento contínuo?

Por Antonio Gilberto

Uma igreja sem renovação espiritual constante cai na rotina, isto é, fica parada no tempo, no espaço e no trabalho. Ela pode até trabalhar, mas não avança, não progride, porque algum fruto que surja é destruído pelas contendas, inveja, ganância, desunião e outras obras da carne. Tal igreja não resiste, nem supera as rápidas mutações de comportamento da sociedade ímpia ao seu redor.

Tal igreja, ainda, perde a guerra espiritual contra a ‘carne’ e as potestades do mal (Gl 3.3; 5.17). O crente regenerado pelo Espírito Santo precisa também manter-se renovado pelo mesmo Espírito Santo (Tt 3.5; 2 Co 4.16). O avivamento espiritual não é só ter o fogo e o calor do Espírito Santo; é preciso continuar a avivar a chama do fogo espiritual (2 Tm 1.6 — lit., ‘aviva de novo a chama viva do fogo’).

As palavras do evangelista Billy Graham, em seu sermão, três dias após os atentados terroristas contra os Estados Unidos: “Prostemo-nos perante Deus, humilhados, contritos, arrependidos, confessando os nossos pecados como cristãos, para que venha sobre nós um avivamento celestial”. Precisamos de avivamento contínuo da parte do Senhor, para que sejamos vencedores. Somente um real e contínuo avivamento é capaz de restringir, deter e neutralizar na igreja a atual avalanche de secularismo, de mundanismo, de comodismo, de conformismo, de transigência com o erro, com o pecado e com o mal.

Segundo o modelo bíblico, o reavivamento resulta em santidade do crente em toda a sua maneira de viver (1 Pe 1.15). Se um avivamento não resultar nisso — nessa mudança de vida —, tudo não passará de mero entusiasmo, mecanicismo e emoção, como acontece com certos ‘avivamentos’ orquestrados pelos homens. O avivamento sob Esdras e Neemias, nesse sentido, obteve grandioso resultados (Ne 8; 9.1-38).

A santificação deve ocorrer em ‘todo o vosso espírito, e alma, e corpo’, conforme lemos em 1 Tessalonicenses 5.23. Isso significa que devemos ser santos em nosso viver, e em nossa conduta — isto é, em nosso caráter, inteiramente —, e em nosso proceder, externamente. Mantenhamo-nos, pois, separados do mundo pecaminoso.

Preparemos, pois, “o caminho do Senhor” para o avivamento — ou reavivamento — celestial, como proclamou João Batista (Jo 3.3).

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Antonio Gilberto da Silva é pastor e um dos principais nomes da teologia pentecostal brasileira. Mestre em teologia, bacharel em psicologia, pedagogia e letras. É também mestre em educação pela Biola University, nos Estados Unidos. É membro da diretoria da Global University (GU), um complexo universitário das Assembleias de Deus norte-americana (AG). Gilberto atua como consultor doutrinário e teológico da Casa Publicadora das Assembleias de Deus (CPAD) desde 1997. Ainda trabalhou na diretoria da Sociedade Bíblica do Brasil (SBB) e no Conselho Mundial de Evangelismo do Congresso Mundial de Lausanne (Suíça). O texto é extraído da obra: Verdades Pentecostais. 1 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2006, p. 26, 27 e 89.

Alguns esclarecimentos necessários sobre a Declaração de Fé das Assembleias de Deus

Edição do "Mensageiro da Paz" de 1969.
Por Gutierres Fernandes Siqueira

Nas redes sociais há inúmeros boatos e informações desencontradas sobre a Comissão Especial da Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil (CGADB) que está elaborando um documento doutrinário oficial, a fim de atualizar e ampliar o Cremos (leia aqui). Infelizmente, alguns internautas viciados em polêmicas estão trazendo mais confusão do que claridade sobre o tema. Veja abaixo o que de fato está acontecendo. 

1. A CGADB não está criando nenhuma Confissão de Fé, mas sim e tão somente uma Declaração de Fé.

Essa distinção não é mera questão semântica, mas tecnicamente importante. A pretensão da convenção não é criar um manual compatível ou rival aos grandes documentos da Reforma. As Confissões de Fé históricas são documentos produzidos no contexto e na efervescência da Reforma Protestante. A Assembleia de Deus brasileira, na representação jurisdicional da CGADB, não tem tal nenhuma ideia megalomaníaca de criar um compêndio doutrinário a fim de competir com esses documentos. Outro ponto, a AD também não está criando um credo. Os credos são documentos doutrinários produzidos no contexto da patrística e representam o consenso doutrinário da cristandade, seja essa católica, ortodoxa ou protestante. O documento é uma declaração e refletirá o atual Cremos e, também, pretende abordar assuntos éticos como aborto, homossexualidade, eutanásia etc.

2.      Esse não será o primeiro documento doutrinário oficial da denominação.

Desde a década de 1960 a AD brasileira dispõe do Cremos, um documento com quatorze pontos. O Cremos é basicamente um resumo da Declaração de Verdades Fundamentais das Assembleias de Deus norte-americana. Além disso, a Convenção Geral trabalha com resoluções e recomendações doutrinárias onde, por exemplo, já se posicionou oficialmente contra a chamada Bênção de Toronto, o Movimento G-12 e a Teologia da Prosperidade.

Em um manifesto oficial publicado em abril de 2000 a CGADB assim definiu o Movimento G-12:

Por vezes, aparecem no cenário evangélico brasileiro alguns movimentos de características eminentemente flutuantes. Nestes dias, o mais novo deles é o G-12, que promove sutilmente um novo estilo de vida cristã, calcado na visão de um sucesso rápido e fácil, e de um crescimento mágico e milagroso da igreja, através de uma suposta revelação de Deus recebida pelo líder do G-12, que sonha em ter a maior igreja do mundo, fazendo assim qualquer coisa para alcançar os seus intentos de se autopromover como líder mundial interdenominacional, propondo um "novo conceito" religioso com mudanças na liturgia, nos bons costumes, na doutrina sagrada, no conceito real da Igreja de Cristo, na linguagem genuína da pregação do evangelho, na conduta cristã, no comportamento ético-estético do crente, com uma dose excessiva de estímulos à busca frenética por prosperidade instantânea, libertação autossuficiente, unção mágica e perfeição absoluta, utilizando-se para tanto de desavisados e inocentes para espalharem suas heresias.

E sobre a Benção de Toronto, vejam só, assim a Convenção Geral se posicionou oficialmente em 2002:

Sob o esfuziante tema “Não extingais o Espírito” o 8° ELAD trouxe a tona os fenômenos promovidos pelos movimentos neopentecostais como: “cair no Espírito”, “sopro do Espírito”, “benção de Toronto”, “dançar no Espírito”, “dentes de ouro” e outras enxurradas de práticas inovadoras que andavam perturbando o seio da igreja. Nas palestras ministradas pelos pastores José Wellington Bezerra da Costa, Antonio Gilberto, Elienai Cabral e Elinaldo Renovato de Lima, os mais de 700 pastores e evangelistas inscritos no encontro, puderam constatar que a Bíblia não oferece nenhum respaldo para tais acontecimentos e reafirmaram que o autêntico mover do Espírito é aquele que traz avivamento espiritual, batismo no Espírito Santo e transformação na vida do homem.

Outro exemplo recente, em outubro de 2003, esteve na conhecida carta de repúdio aos modismos doutrinários do pastor Ouriel de Jesus, que acabou expulso da CGADB por pregar novas revelações autoritativas e maluquices como a “unção da capa de Elias”. Sobre a tal “unção da capa” o pastor Esequias Soares, então presidente da Comissão de Apologia, declarou ao jornal Mensageiro da Paz, órgão oficial de comunicação da denominação:

Isso é uma invenção do homem e não uma doutrina, e está trazendo problemas para a igreja, porque a pessoa ora com imposição de mãos e quem recebe a oração tem de sentir um peso nas costas. Caso isso não aconteça, ela não recebeu a unção. É a mesma coisa ensinada no mormonismo, onde a pessoa precisa sentir um ardor no peito para ser abençoado, e se ela não sentir nada, ela não é fiel. Tudo isso não passa de pressão psicológica sobre as pessoas.

Ou seja, falar que a Assembleia de Deus não tem posição oficial é desconhecer a história recente e antiga dessa igreja centenária.

3.      Ora, por que pastores assembleianos calvinistas não foram convidados?

Esse tipo de pergunta só faz quem não conhece a denominação. Os pastores calvinistas nas Assembleias de Deus são um grupo importante, mas ínfimo. A denominação tem milhares de pastores e milhões de obreiros, mas os declaradamente calvinistas não enchem um ônibus, especialmente entre aqueles com acesso a postos de influência nas convenções estaduais. É claro que é sempre bom ouvir a divergência, mas sem delimitação esse trabalho duraria anos ou até décadas. O número proporcional de pastores calvinistas nas Assembleias de Deus deve ser parecido com o número de pastores arminianos na Igreja Presbiteriana do Brasil (IPB), embora esses últimos sejam mais, digamos, discretos, logo porque a tradição presbiteriana não é conhecida pela tolerância com aqueles que contrariam seus sínodos.

Outro ponto. A maior parte dos nomes da atual comissão já fazia parte de outros grupos doutrinários, como o Conselho de Doutrina e a Comissão de Apologética da Convenção Geral, além da consultoria teológica da Casa Publicadora.

E por último: qual denominação no mundo cria comissões doutrinárias para discutir todo tipo de divergência? Não é sensato exigir da Assembleia de Deus o que não é exigido de outros grupos históricos. Eu, por exemplo, gostaria muito que a escatologia assembleiana fosse menos apegada ao dispensacionalismo clássico, mas quem pensa como eu na denominação? Alguns poucos sujeitos que não enchem outro ônibus. A maioria esmagadora dos assembleianos é dispensacionalista, sejam eles obreiros ou leigos, e exigir uma mudança nesse ponto seria imaturidade da minha parte, ainda mais porque esse tipo de escatologia é uma marca identificada historicamente.

E, outra, se a Declaração de Fé terá inclinações arminianas, eu sinceramente não sei. Até onde pude apurar é provável que esse ponto fique mais claro (mas o quanto claro?). Caso isso venha a se confirmar, meus caros, não é nenhum fim do mundo para os calvinistas da denominação. A instituição tem o direito de se posicionar. O que eu sempre repudiarei é a ideia de “caça às bruxas”, assim como o sectarismo. Todavia, não vislumbro tal perigo nesse documento e nem na postura, sempre lenta e tolerante, da Convenção.

4.      Quem não subscrever o documento pode ser expulso da Convenção Geral?

Em tese sim, mas esse cenário é pouquíssimo provável. A CGADB não é conhecida pela vigilância sobre o ensino doutrinário dos seus pastores filiados. Tal liberdade é para o bem e para o mal, pois ao mesmo tempo permite a tolerância com quem diverge em algum pouco como permite pastores e pregadores sem nenhum compromisso doutrinário, ético e, acima de tudo, bíblico. O caso Ouriel de Jesus é uma exceção porque, convenhamos, era escandaloso demais para que a Convenção simplesmente ignorasse.  

5.      O trabalho da comissão já está concluído?

Ainda não. O esboço da nova Declaração será apresentado nas convenções estaduais e nacionais. 

Conclusão. E, por último, recomendo aos interessados nesse importante assunto que acompanhem o trabalho da comissão especialmente pelo jornal Mensageiro da Paz. Assim, se evitará comentários baseados em boatos e mentiras. E, também, oremos para que a equipe faça o melhor trabalho possível. 

sábado, 4 de junho de 2016

Pensando em Línguas

Por James K. A. Smith

Durante a última década, o pentecostalismo se tornou uma espécie de assunto acadêmico predileto para historiadores, sociólogos, antropólogos e cientistas da religião. Pesquisadores abrigados nas cercarias das universidades seculares têm produzido uma enxurrada de livros e estudos sobre os “mundos fantásticos” do Pentecostalismo global. No entanto, embora às vezes com simpatia e irenismo, o interesse acadêmico pelo Pentecostalismo teve um efeito duvidoso de curiosidade e desencanto. O fascínio sociológico apenas força um disfarce para a incredulidade indulgente diante do Pentecostalismo, que fica reduzido a uma espécie global de “encantadores de serpentes”[1].

Essa redução do Movimento Pentecostal a uma amostra laboratorial impede qualquer articulação do Pentecostalismo como um tipo de voz teológica. Na verdade, a descrição sociológica feita do Pentecostalismo implica que ideia de uma "a teologia pentecostal" é oxítono[2]. O que é uma pena, porque, desde ao longo do século passado, uma teologia interessante está se desenvolvendo entre as tradições pentecostais clássicas como as Assembleias de Deus e da Igreja de Deus em Cristo, assim como nos movimentos carismáticos dentro da Igreja Católica e da Comunhão Anglicana (a sensibilidade compartilhada pelas tradições pentecostais e carismáticas é frequentemente descrita sob a égide da palavra pentecostalismo com p minúsculo).

No coração da teologia pentecostal há uma afirmação ontológica: o mesmo Espírito que animou os apóstolos no Pentecostes continua a ser presente, ativamente e milagrosamente de forma dinâmica, tanto na comunidade eclesial como na criação. A teologia pentecostal é uma teologia do terceiro artigo do Credo e se baseia na crença de que o Espírito Santo é um Espírito que nos surpreende, enquanto continua a falar, a curar e a manifestar a presença de Deus de forma a embaralhar o naturalismo da modernidade. Como resultado, seguindo na esteira do Espírito, é uma teologia ágil, que busca explicar e compreender o caos controlado do culto carismático. É uma fé que busca entendimento sobre as experiências e formas surpreendentes do Espírito.

Embora o Pentecostalismo, às vezes, fique em um espaço sobre a mesa como meramente um objeto de estudo, raramente obtém um assento no banquete teológico como um contribuinte para a conversa, mesmo entre os teólogos de primeira linha. Em certo nível, isso não é surpreendente. O Movimento Pentecostal surgiu em grande parte de uma subclasse com pouco acesso à educação formal. Em uma história muitas vezes contada, um dos seus santos encarna essa marginalização: William J. Seymour, "o pregador no centro do avivamento da Rua Azusa, em 1906, filho de ex-escravos”. Seymour recebeu a sua formação teológica no Texas apenas ouvindo a aula do lado de fora da sala onde só os alunos brancos poderiam entrar. O pentecostalismo é uma tradição de pregadores e evangelistas, e não estudiosos e médicos.

E ainda, embora o Pentecostalismo esteja claramente focado em uma espiritualidade encarnada, isso não significa que careça de uma teologia reflexiva. Assim concedido, os primeiros pentecostais nunca produziram uma teologia acadêmica ou tentaram uma síntese da revelação bíblica e das estruturas filosóficas. Mas podemos distinguir entre uma teologia implícita ou baixa incorporada em uma espiritualidade e uma teologia explícita ou alta que articula a teologia implícita como uma visão intelectual de mundo. Embora no pentecostalismo primitivo faltasse a essa última, era, ao mesmo tempo, rico na primeira teologia. E com o desenrolar do século XX, o Pentecostalismo gradualmente desenvolveu uma teologia mais explícita, ou seja, acadêmica.

Este pedido de desculpas para a teologia implícita dos primeiros pentecostais tem sido o refrão consistente do historiador da Igreja Douglas Jacobsen da Faculdade Messiah. Em seu livro de 2003, Thinking in the Spirit: Theologies of the Early Pentecostal Movement, Jacobsen nos convida a ver que vozes teológicas construtivas estavam sempre em ação no pentecostalismo pioneiro. Ele agora tem completado sua tese histórica com um leitor útil da Teologia Pentecostal, que oferece oportunidade para encontros em primeira mão com vozes primitivas "incluindo alguns que são bem conhecidos (Charles Fox Parham, Williiam J. Seymour, A. J. Tomlinson, C. H. Mason e a inimitável Aimee Semple McPherson) e outros que foram pouco reconhecidos (G. F. Taylor e David Wesley Myland)”.


Essa é uma teologia forjada no púlpito e na oração, no calor do reavivamento e do fervor das reuniões campais, é “uma teologia que tem a marca de suas origens litúrgicas”. A teologia pentecostal no início não conseguiu organizar as categorias intelectuais de uma alta teologia, mas como aponta Jacobsen no livro A Reader in Pentecostal Theology: Voices from the First Generation, a Teologia Pentecostal demonstrou que não era essencialmente ateológica ou anti-intelectual (embora, na verdade, o anti-intelectualismo se manifestou ao longo do tempo.) Jacobsen observa: "pode-se mesmo ir tão longe para argumentar que, além da teologia, o pentecostalismo não existiria” e “não é necessariamente a singularidade das experiências que definem os pentecostais como um grupo à parte; mas é a forma como essas experiências foram teologicamente categorizadas e definidas”.

Os fenômenos milagrosos que se manifestaram no reavivamento da Rua Azusa, por exemplo, compeliram à reflexão sustentada. Os eventos necessitavam de explicação, e os pregadores e líderes pentecostais abraçaram o recurso que mais estimavam: a narrativa da Escritura. A teologia implícita resultante não era uma síntese entre revelação e filosofia, mas sim uma síntese que tentava dar o sentido da experiência à luz da narrativa bíblica.

Assim, os primeiros pregadores pentecostais constantemente citavam a narrativa de Atos e do Evangelho de Lucas a fim de interpretar o falar em línguas e outros "sinais e maravilhas". Sua conclusão teológica era que, como o derramamento inicial do Espírito os apóstolos foram habilitados para serem testemunhas em Jerusalém, Samaria e até os confins da terra, de modo que o derramamento na Rua Azusa se constituía essencialmente numa capacitação para missões. Eles não simplesmente deleitavam-se com a experiência do sobrenatural; os fenômenos empurraram-os a procurar respostas para questões teológicas difíceis.

O rigor e a seriedade da Teologia Pentecostal inicial foram incorporados à experiência do reavivamento e ao trabalho de cuidado pastoral, de pregação e de missões. Mas a centralidade da experiência Pentecostal eventualmente empurraria a Teologia Pentecostal em suas ideias filosóficas centrais ao desenvolvimento de uma epistemologia Pentecostal implícita: uma visão da compreensão humana. Isto talvez seja mais bem resumido em um livro inovador publicado em 1993 do teólogo Steven Land, Pentecostal Spirituality. O pentecostalismo é primariamente uma espiritualidade que incorpora uma visão de mundo, Land argumenta, mesmo que essa visão de mundo não tenha sido originalmente articulada em categorias intelectuais.

Em outras palavras, o Pentecostalismo permanece, sobretudo, uma espiritualidade: uma harmonia de rituais e práticas, orações e apelos. Mas isso produz uma posição de importância teológica e filosófica. Os Pentecostais tomam o ponto central da narrativa de Atos 2 a fim de tomarem para si a coragem e vontade de Pedro que reconheceu em fenômenos estranhos a operação do Espírito e os declarou como obra de Deus. Para declarar "isto é o que" (Atos 2.16) era necessário ser aberto ao fato que Deus trabalha de maneiras inesperadas e, assim, fazer uma declaração teológica sobre os fenômenos. O coração do Pentecostes é uma abertura radical para Deus, especialmente uma abertura a um Deus que ultrapassa os horizontes da expectativa e que surge inesperadamente.

Ainda assim, é inegável que os primeiros escritos deixados pelos pentecostais eram totalmente implícitos. O que emergiu nos últimos anos é a tentativa de tornar as ideias explícitas, além de testá-las na arena da alta teologia. As obras Pentecostal Theology for the Twenty-First Century de May Ling Tan-Chow e a coleção The Work of the Spirit de Michael Welker são dois livros recentes que contam a história do surgimento da Teologia Pentecostal de uma teologia popular implícita até a sua articulação como uma agenda teológica acadêmica explícita.

O Pentecostalismo é geralmente associado ao reavivamento da Rua Azusa que ocorreu entre de 1906 e 1913 (eventos avivalísticos similares, mas independentes estavam acontecendo naquele momento em todo o mundo). Com raízes profundas na tradição Wesleyana de Santidade e na espiritualidade africana, o avivamento da Rua Azusa gerou o pentecostalismo clássico representado em denominações como a Assembleia de Deus, Igreja de Deus em Cristo, e a Igreja de Deus (Cleveland, Tennessee). O pentecostalismo clássico também foi normalmente identificado por uma ênfase distinta sobre o falar em línguas. Tomando a teologia segundo a perspectiva de sua herança wesleyana, os pentecostais identificaram o falar em línguas como "a evidência física inicial do batismo do Espírito Santo" (embora eles também enfatizassem a manifestação contínua de todos os dons do Espírito).

A energia resultante foi inicialmente dirigida quase inteiramente em relação ao trabalho missionário. Em 1960 e 1970 fenômenos e experiências semelhantes começaram a ser observados nas principais denominações e igrejas tradicionais. Esse movimento foi identificado como "renovação carismática" e sinalizou um alastramento da espiritualidade pentecostal em comunhões clássicas, incluindo a Renovação Carismática Católica (RCC) e movimentos de renovação nas tradições luterana, anglicana e presbiteriana.

Enquanto compartilham na espiritualidade e na prática certas semelhanças, especialmente na ênfase na surpresa do Espírito e na operação contínua de dons milagrosos, o movimento carismático não adotou a noção de línguas como "primeira prova" do Batismo no Espírito Santo. Assim o Pentecostalismo com P maiúsculo é tomado geralmente para se referir ao pentecostalismo clássico, enquanto que termo "carismático" identifica as tradições e os teólogos que também enfatizam um papel central para a surpresa do Espírito, mas dentro dos quadros litúrgicos e teológicos existentes. 

Estes foram posteriormente seguidos por aquilo que é frequentemente chamado de movimento carismático da terceira onda associado com Peter Wagner. Isto se refere ao crescimento de igrejas carismáticas não-denominacionais como Vineyard Fellowship. Como a Renovação Carismática, os carismáticos da terceira onda não afirmavam a evidência inicial, mas também não se identificavam com as denominações ou comunhões tradicionais.

Entre todos esses pentecostais, com p minúsculo, há semelhanças importantes, nomeadamente sobre a forma da prática religiosa. E, como o trabalho teológico recente começou a explicitar, há uma compreensão única de Deus, das pessoas e do mundo que está embutido e implícito no culto e na práxis pentecostal.

Vários aspectos da visão de mundo pentecostal são dignos de nota, em particular, começando com a abertura radical a Deus, ou seja, abertura ao Deus que está fazendo algo diferente ou novo. Isso gera uma ênfase na continuidade, na presença dinâmica, na atividade e no ministério do Espírito, incluindo a revelação contínua, a profecia e a centralidade de dons carismáticos na comunidade eclesial. Incluído nesse ministério do Espírito existe uma crença distinta na cura do corpo como um aspecto central do trabalho da Expiação de Cristo. Em contraste com a teologia evangélica racionalista, a Teologia Pentecostal está enraizada em uma epistemologia afetiva. E ao contrário dos pressupostos comuns sobre a alienação dos pentecostais, o movimento é caracterizado por um compromisso fundamental com missões, e com um forte sentido de que a missão inclui preocupação com a justiça social. Aqui, penso eu, a Teologia Pentecostal está pronta para fazer contribuições únicas para as discussões mais amplas. Na verdade, o movimento carismático já influenciou a renovação litúrgica dentro da tradição católica.

A afirmação central da atividade contínua do Espírito toca em outras esferas do pensamento. Teólogos, por exemplo, começaram a trazer à tona as implicações para a cosmologia e ontologia, considerando a presença dinâmica e ativa do Espírito em toda a criação. Com uma compreensão pneumatológica da criação, segue-se uma afirmação de atividade contínua do Espírito na natureza, bem como na cultura humana (essa tese é sugerida no ensaio de John Polkinghorne no livro editado por Michael Welker, mas foi expandido e aprofundado com a contribuição do teólogo assembleiano Amos Yong). A mesma presença e atividade do Espírito no trabalho cultural da humanidade também precisam ser consideradas (como ao longo das linhas sugeridas pelo livro de Vincent Bacote publicado em 2005 com o título The Spirit of Public Theology).

O ministério de cura do Espírito também tem consequências teológicas interessantes: está implicitamente incorporada nessa afirmação a ideia central de que Deus se preocupa com nossos corpos. É uma afirmação radical da bondade na criação que se traduz em uma afirmação radical da benignidade dos corpos e da materialidade em si.

Aqui, penso eu, está um dos elementos mais subvalorizados da cosmovisão pentecostal, pois a mudança provocada pela obra física do Espírito e pela nova compreensão da fisicalidade é, assim, oferecida à cristandade uma possibilidade de superar alguns dos dualismos mais perniciosos dos tempos modernos. O culto pentecostal envolve o corpo: braços levantados ou estendidos, corpos prostrados no chão ou dançando nos corredores, a imposição de mãos, os corpos ajoelhados no altar, bandeiras acenadas, etc. (as "mentes" cartesianas nunca poderiam se envolver na adoração pentecostal!). Eis porque alguns teólogos pentecostais como Frank Macchia e Simon Chan têm sugerido que uma cosmovisão pentecostal é uma cosmovisão sacramental. Essa visão de mundo enfatiza a bondade, a necessidade e a instrumentalidade dos elementos materiais: o Espírito de Deus está ativo através de fenômenos concretos e palpáveis. É uma espiritualidade corajosa "aquele que afirma toda a confusão e constrangimento da encarnação, porque é em e através de tal personificação que o Espírito de Deus está trabalhando”.

Os pentecostais têm, muitas vezes, acatado uma visão de rejeição do mundo, mas os elementos principais de uma cosmovisão pentecostal estão objetivamente em direção a uma afirmação da bondade fundamental das esferas da cultura relacionados com a encarnação, tal como as artes. Esse ponto merece muito mais atenção do que nós podemos dar aqui. Podemos observar, no entanto, que é justamente esse aspecto do pentecostalismo que explica por que a espiritualidade pentecostal tantas vezes tem aceitado a presença de um evangelho da prosperidade. O evangelho da prosperidade que "se prega na África, no Brasil ou subúrbio de Dallas" é, devemos reconhecer, um testamento da própria mundanidade da teologia pentecostal. É um dos momentos mais antignósticos de espiritualidade pentecostal, que se recusa a espiritualizar a promessa de que o evangelho é "a boa notícia para os pobres”. Concedido, isso significa algo diferente e muito menos admirável no conforto de um ar-condicionado de uma megaigreja no subúrbio de Dallas do que em um campo de refugiados em Uganda cheio de gente faminta. Mas, em ambos os casos, a intuição teológica implícita informa que as representações pentecostais do evangelho da prosperidade são uma evidência da afirmação central que Deus se preocupa com nossas barrigas e corpos.

A afirmação pentecostal da materialidade está intimamente ligada a uma compreensão da pessoa humana como espírito encarnado. Para os pentecostais, enquanto somos mais que nossos corpos, nós também nunca são menos do que os nossos corpos. Implícita na prática pentecostal está uma epistemologia distinta que privilegia um modo afetivo de saber. Esse é um saber intuitivo e também emocional ("eu sei que sei que eu sei" é um testemunho pentecostal comum) é mais literário do que lógico; nós somos o tipo de criatura que faz o nosso caminho no mundo mais pela metáfora do que pela matemática. A maneira que nós sabemos é mais uma dança do que uma dedução.

Finalmente, pentecostais sempre enfatizaram que a capacitação do Espírito é antes de tudo um empoderamento para a missão que está presa a uma expectativa escatológica (bem ilustrada por May Ling Tan-Chow em Pentecostal Theology for the Twenty-First Century). Estudiosos pentecostais como Doug Peterson e Eldin Villifañe enfatizam que o Movimento Pentecostal tem sido consistentemente, embora não de maneira uniforme, caracterizado por um compromisso fundamental com a justiça social e por uma opção preferencial pelos marginalizados. O avivamento da Rua Azusa permanece, para os pentecostais, o paradigma do reavivamento em um estábulo, liderado por um pregador afro-americano caolho que teve o cargo eclesiástico suspenso. Isso decorre, penso eu, a partir do primeiro princípio do pentecostalismo: a atividade revolucionária do Espírito sempre perturba e subverte o status quo dos poderosos. Dentro dessa comunidade revolucionária do Espírito, encontram-se não os que são muitos sábios segundo a carne, nem muitos poderosos, nem muitos os nobres (1 Co 1.26).

Cada vez mais, teólogos começam a explicar esses elementos implícitos do culto e da experiência pentecostal. No meio do século XX, os pentecostais procuraram treinar as novas gerações de missionários e ministros, e faculdades e escolas bíblicas começaram a surgir. Essas incursões no ensino superior eram necessárias para treinar e formar professores que pudessem, em seguida, retornar aos seus locais de culto a fim de educar os fiéis. As igrejas de tradições pentecostais não tinham recursos para treinar seus próprios professores, e isso foi um catalisador para os pentecostais se envolverem na formação teológica em contextos mais tradicionais e acadêmicos, incluindo as primeiras gerações que passaram a fazer o trabalho de doutorado em estudos bíblicos e história em instituições do circuito Ivy League[3], embora a maioria fosse treinada em instituições evangélicas tradicionais (a relação desconfortável do pentecostalismo com o evangelicalismo é uma história para outra hora).

Nessa época, a renovação carismática trouxe pentecostais clássicos em conversa com carismáticos de outras tradições, como católicos, luteranos e presbiterianos, que já tinham um longo legado de formação teológica e acadêmica. E os pentecostais, cuja formação tinha sido em contextos evangélicos, estavam familiarizados com o tipo de conversas promovidas pela Sociedade Teológica Evangélica (criada em 1949).

Crescendo no contexto desses compromissos e conversas, uma série de estudiosos em 1970 formou a Society for Pentecostal Studies (Sociedade de Estudos Pentecostais). Embora muitos dos membros reconhecidos fossem de denominações pentecostais clássicas, a sociedade rapidamente se tornou um local de encontro para conversas entre estudiosos pentecostais e carismáticos através das disciplinas propostas. As conversas também são hospedadas por sociedades acadêmicas na Europa, Ásia, África e América Latina. A profundidade cada vez maior dessa tradição já gerou dois programas de doutoramento: um Ph.D. em "estudos de renovação" da Regent University (dirigido por Amos Yong) e um programa de doutoramento em Estudos Pentecostais na Universidade de Birmingham (dirigido pelo historiador do pentecostalismo global Allan Anderson).

Até recentemente, a conversa permaneceu em grande parte em casa, com teólogos pentecostais falando um com os outros. Mas ao longo da última década, os teólogos pentecostais e estudiosos bíblicos têm cada vez mais encontros em conversas com os evangelicais (embora muitos teólogos pentecostais, principalmente de tradições wesleyanas, estão ansiosos para se distanciar do cessacionismo evangélico, a doutrina de que os dons carismáticos cessaram com a morte do último apóstolo, pondo assim em causa tanto a experiência como a teologia pentecostal).

Este movimento para o exterior se expandiu, também, em conversas com outros teólogos não-evangélicos, muito bem ilustrado por uma série de artigos  no Journal of Pentecostal Theology na última década. Trazendo textos de teólogos não-pentecostais como Jürgen Moltmann, Walter Brueggemann, Clark Pinnock e Harvey Cox, o diário tem empurrado estudiosos pentecostais para formulações teológicas mais explícitas da presença e da atividade do Espírito em nosso contexto contemporâneo.

O centro de gravidade dessas conversas permaneceu solidamente dentro do pentecostalismo: esses estudiosos foram convidados para conversas carismáticas onde pentecostais ouviam e depois discutiam entre si. Mais recentemente, no entanto, a Teologia Pentecostal tem, creio eu, começado a chegar a uma fase de maturidade que os impele não só a ouvir conversas externas, mas também a contribuir com elas. Tais teólogos pentecostais como Veli-Matti Kärkkäinen (um teólogo finlandês no Seminário Fuller), Amos Yong e Simon Chan (um teólogo litúrgico de Cingapura) estão envolvidos em conversas teológicas tradicionais como pentecostais.

Um fator fundamental para este desenvolvimento tem sido o movimento ecumênico[4]. Levados especialmente pela obra do historiador da Igreja Mel Robeck do Seminário Fuller, os pentecostais foram amplamente e ativamente engajados no diálogo ecumênico e ativamente procurados para tal participação. Diálogos longos e produtivos com o Vaticano, a Aliança Mundial das Igrejas Reformadas, o Conselho Mundial de igrejas (incluindo contribuições importantes à fé e à ordem) e outros trouxeram distintamente vozes pentecostais à tona e encorajaram seu senso de fazer uma contribuição distinta para a Igreja Católica.

Esta mudança, a mudança que tanto ativou e encorajou os pentecostais a puxar uma cadeira na mesa maior da teologia, é muito bem ilustrada no volume de Michael Welker, The Work of the Spirit. O trabalho é fruto de uma consulta que reuniu teólogos pentecostais e não-pentecostais, historiadores, sociólogos e cientistas, onde as exposições de cada um abriram uma conversa mais ampla que quer ouvir o que pentecostais e não-pentecostais podem contribuir em uma única mesa.

Claro, o fato de que os teólogos pentecostais são levados a sério também significa que eles devem construir suas reivindicações abertas a críticas. Existem sérias questões teológicas que pentecostais precisam enfrentar: é adoração carismática e a experiência religiosa enraizada em consonância com a explicação das Escrituras? A Teologia Pentecostal tem recursos internos para criticar o evangelho da prosperidade com a necessária frequência? Pode a Teologia Pentecostal resistir ao primitivismo e fornecer uma descrição construtiva da sua própria catolicidade? Como as alegações fantásticas de milagres podem ser enquadradas com relatos do mundo oferecido pela física quântica e a biologia evolutiva?

Nós já estamos começando a ver o trabalho feito diante desse tipo de perguntas. Um quadro de acadêmicos pentecostais, incluindo Yong e Wolfgang Vondey, está mergulhado no diálogo entre ciência e teologia, trabalhando a partir de um ponto de vista explicitamente pentecostal. Em alguns casos, seguindo sugestões de Polkinghorne, eles veem recentes desenvolvimentos na física quântica como o fornecimento de lugares que abrem espaços para a atividade misteriosa do Espírito. Outros estão deixando para trás os paradigmas reinantes nas ciências, particularmente pressupostos pré-científicos sobre naturalismo metafísico, argumentando que a ortodoxia da ciência é impugnável e abrindo espaço para uma ontologia exclusivamente pentecostal (podem-se ouvir ecos de Teilhard de Chardin em um projeto como este). Outros estudiosos carismáticos, como o biólogo Jeff Schloss, estão buscando nos quadros da biologia evolutiva o melhor entendimento sobre a espiritualidade pentecostal (com base na "teoria da sinalização" para ajudar a explicar manifestações pentecostais e carismáticas de adoração).

Esses e muitos outros tipos de perguntas vão ser colocados diante dos teólogos pentecostais, e eles vão lutar para responder a algumas delas. Como eles puxaram um lugar à mesa, no entanto, faríamos bem só de escutá-los um pouco. A Teologia Pentecostal talvez tenha um único apostolado: lembrar que o corpo de Cristo é um corpo nascido no Pentecostes e, ao mesmo tempo, o Pentecostes é uma vocação para toda a igreja.

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James K. A. Smith é professor associado de filosofia no Calvin College e, com Amos Yong, é coeditor de uma série de livros conhecidos como Pentecostal Manifestos, cuja publicação foi feita pela editora Eerdmans. Smith é autor de diversos livros, entre eles dois de temática pentecostal: Thinking in Tongues: Pentecostal Contributions to Christian Philosophy e Science and the Spirit: A Pentecostal Engagement with the Sciences, esse último editado com Amos Yong. Smith tem apenas um livro publicado em português: Cartas a um Jovem Calvinista (Editora Monergismo). Texto traduzido a partir deste site. Tradução: Gutierres Fernandes Siqueira/Revisão: Victor Leonardo Barbosa.




[1] Nota do Tradutor: O autor faz uma brincadeira com a expressão “manipulação de serpentes” porque alguns grupos minoritários de pentecostais e carismáticos nos EUA seguiam literalmente o texto bíblico de Marcos 16.18. O retrato que a academia faz normalmente dos pentecostais é, como brinca Smith, um grupo exótico e exotérico que manipula serpentes por todo o mundo.
[2] Nota do Tradutor: Paradoxo, porque, segundo essa visão reducionista, o pentecostalismo não dispõe de teologia.
[3] Nota do Tradutor: Conjunto de oito universidades privadas do nordeste dos Estados Unidos que são as mais elitizadas e bem equipadas daquele país, entre elas estão universidades como da Pensilvânia, Yale, Harvard e Princeton.
[4] Nota do Tradutor: Falar em diálogo ecumênico envolvendo pentecostais é algo estranho e até herético para o pentecostalismo brasileiro. Nos EUA, por outro lado, desde a década de 1980 o teólogo William Menzies, um dos principais historiadores e sistematizadores da teologia assembleiana, era frequente colaborador do diálogo ecumênico com a Igreja Católica, assim como outros nomes da Society for Pentecostal Studies.