terça-feira, 26 de julho de 2016

Convite aos curitibanos

Caros,

Estão todos convidados para o evento abaixo. A minha participação será no sábado a noite e domingo pela manhã.

- Gutierres Fernandes Siqueira

domingo, 24 de julho de 2016

A prosperidade de Jó

"Escárnio contra Jó".
Pintura de Gioacchino Assereto. 1645-1650.


Não sei, e duvido que os eruditos o saibam, se o livro de Jó teve grande repercussão, se é que teve alguma, no desenvolvimento posterior do mundo judaico. Contudo, se teve algum efeito, pode haver salvado os judeus de terrível fracasso e decadência. Neste livro se formula realmente a pergunta para saber se Deus invariavelmente castiga o vício com penas terrenas e recompensa a virtude com bens e riquezas deste mundo. Se os judeus tivessem respondido erradamente a esta pergunta, poderiam haver perdido toda a sua influência posterior na história da humanidade. Poderiam ter descido ao nível da sociedade culta moderna. Pois, quando as pessoas começam a crer que a prosperidade é consequência da virtude, sua calamidade próxima fica evidente. Se se vê a prosperidade como a recompensa da virtude, ela será vista como sintoma da virtude. (...) Jó é atormentado não por ser o pior dos homens, mas por ser o melhor. A lição de toda a obra é a de que o homem encontra no paradoxo o seu máximo consolo. [G. K. Chesterton]

quarta-feira, 20 de julho de 2016

Escatologia e Utopia

Por Gutierres Fernandes Siqueira 

É inegável o aspecto escatológico da salvação nas Escrituras. Todavia, a vassala das ciências humanas - mais conhecida como “teologia moderna” - tem horror a esse fato porque parece expressar a alienação mais baixa ou o escapismo mais rasteiro. Ironicamente ou não, os ideólogos, ou melhor, os teólogos modernos preferem a ilusão da utopia - que é o ópio da elite cultural. E existiria alienação maior do que a ilusão utópica?

Não há como negar que o Evangelho nos apresenta uma mensagem para além desta vida diante de um mundo que é visto ora como efêmero (1 João 2.17) ora como vazio (Eclesiastes 1.2). Mas vejam, ao descrever a condição humana como vanitas vanitatum- vaidade das vaidades- a sabedoria bíblica não nos convida à conformidade. A mensagem evangélica é grandiosa, bela e harmônica e, diante de tantas qualidades absolutas, não é possível viver na obstinação humana com tranquilidade. O Evangelho não produz indiferença, mas transformação constante, mesmo no homem que o ignora. O Evangelho e sua esperança escatológica – expressa na frase “ora vem, Senhor Jesus” – dá real impulso ao homem porque o alimenta não apenas com um sonho, mas com a fé. O irlandês C. S. Lewis certa vez escreveu: “os cristãos que mais fizeram pelo mundo presente foram exatamente aqueles que mais pensavam no que há de porvir”.

E a utopia? Ela não se sustenta diante dos medos reais. Nem diante do medo de perder uma grana. A utopia vende sonhos mediante determinada circunstância. Nada que dependa de um quadro específico pode proporcionar esperança duradoura. Portanto, o cristão que troca a esperança da escatologia cristã pela utopia política e ideológica é mais infeliz que Esaú, filho do patriarca Isaque, que vendeu sua primogenitura diante de um prato de lentilhas.

terça-feira, 19 de julho de 2016

A questão principal é uma só: o precedente do sectarismo!

Por Gutierres Fernandes Siqueira

O cancelamento lamentável da palestra do Augustus Nicodemus na CPAD MegaStore não é um evento qualquer, mas, infelizmente, abre um precedente muito perigoso para as Assembleias de Deus. A nossa denominação nunca agiu institucionalmente como “carrasco teológico” e, felizmente, não é raro ver assembleianos consumindo material produzido fora dos arraiais da instituição – e isso desde há muito tempo. É claro que sempre houve embates nas Assembleias de Deus, mas parte importante dessas disputadas giravam em torno de questões eclesiásticas ou administrativas, e, vejam bem, raramente doutrinárias.

Discutir a doutrina natal e a própria identidade da denominação é sempre necessário, mas caminhar com intolerância diante de teologias antagônicas não só nos sufoca como despreza o Espírito Santo, isso mesmo, Aquele que “sopra onde quer”. Todo crente que trata questões secundárias como verdades de vida e morte acaba, infelizmente, desprezando uma das maiores belezas da fé cristã: a unidade em Cristo Jesus na diversidade da multiforme graça de Deus.

Nas décadas passadas a CPAD (Casa Publicadora das Assembleias de Deus) publicou livros de dois presbiterianos brasileiros famosos: Boanerges Ribeiro (1919-2003) e Caio Fábio. O primeiro foi presidente do Supremo Concílio e o segundo, na época, era um pastor calvinista popular entre os evangélicos. Não se tem notícia que a publicação de dois ícones (daquele período) da Igreja Presbiteriana tenha causado qualquer celeuma na liderança assembleiana. No Mensageiro da Paz, em edições antigas, é possível achar até artigos do Guilhermino Cunha, que foi, também, presidente do Supremo Concílio. Vale lembrar que o jornal Mensageiro da Paz é a voz oficial da denominação.

Eu sempre apreciei esse intercâmbio assembleiano por meio da Casa Publicadora. Eu nunca achei ruim ler um artigo do Russell Shedd na revista Obreiro, por exemplo, e nem me espantava com os textos do Ronaldo Lidório na extinta revista Resposta Fiel. E, assim, poderia citar inúmeros outros exemplos. Todos esses textos me edificaram e nem por isso virei adepto da TULIP. Nenhum desses autores tratavam de questões soteriológicas, por exemplo. Ao contrário, o meu contato com esses autores em revistas oficiais da minha denominação me afastou do sectarismo que atingia alguns dos meus pares na congregação que eu frequentava.

“Ah, mas os calvinistas não dão espaço nos púlpitos aos pentecostais e nem chamam teólogos das Assembleias de Deus a escrever em seus periódicos”, reclamam nas redes sociais (ou antissociais) os apoiadores do boicote. É verdade que há muito sectarismo no meio reformado brasileiro, mas devemos pagar um erro com uma dose dupla? Creio que não. Alguém tem que ter a humildade de quebrar o ciclo que sectarismo. “Ah, mas eles devem ceder”, retrucam os novos sectaristas pentecostais. E eu respondo com uma paráfrase de Jesus: “Se qualquer te obrigar a caminhar mil passos, vai com ele dois mil”. E não pense que inexistem calvinistas preocupados com o sectarismo, ora, bastar ler o maravilhoso livro “Carta a um Jovem Calvinista” (Editora Monergismo) do James K. A. Smith e constatar.

Em Cristo, vamos lutar pelo Reino de Deus e não pelos reinos humanos.




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PS: O meu amigo Alcino Júnior, reconhecidamente um arminiano, escreveu um texto interessante que levanta outras questões práticas sobre o boicote. Veja aqui.
PS: Para ler mais sobre o episódio de hoje visite o meu perfil no Facebook aqui:

segunda-feira, 18 de julho de 2016

O Batismo no Espírito Santo: Uma Promessa do Antigo Testamento

Por Edgar R. Lee
Tradução: Charles Souza

Parece, pelo menos nos últimos trimestres, que nossa comunidade está perdendo muito sua paixão pelo Batismo no Espírito Santo. Se esse é o caso, nós somos tentados a culpar a crescente influência de uma cultura sensorial e materialista. Mas talvez nós, os responsáveis por pregar, ensinar e pastorear as pessoas, temos nos tornado teologicamente deficientes por um lado, e possivelmente intimidados por teologias emergentes e não pentecostais por outro lado. Será que estamos planejando, cuidadosamente e intencionalmente, que pregações, cultos e outros ministérios perpetuem o batismo no Espírito Santo e uma vida plena no Espírito?

Este é o primeiro artigo da série em que eu e Tim Enloe iremos apresentar o melhor da atual reflexão teológica pentecostal, que esclarece e amplia os fundamentos bíblicos de nossa história e crenças, bem como sugestões práticas para fortalecer a pregação e a formação espiritual dentro das igrejas locais. Neste artigo, eu examino brevemente importantes facetas do ensino do Antigo Testamento que fundamentam a prática e a doutrina pentecostal na revelação bíblica como todo.

A Promessa no Antigo Testamento

O que Deus realizou no Novo testamento, Ele começou no Antigo Testamento. O Antigo Testamento foi a primeira Bíblia da Igreja Primitiva. A Igreja Primitiva usava o Antigo Testamento para fundamentar seu entendimento sobre o nascimento, o ministério, a morte e a ressurreição de Jesus. O Antigo Testamento também introduz o trabalho do Espírito de Deus, de quem a identidade e funções aparecem gradativamente através das épocas e vem a ser concretizadas no Novo Testamento. Seria difícil entender algumas passagens do Novo Testamento se não fosse à luz que o Antigo Testamento joga sobre elas. [1]

O Novo Testamento identifica o Espírito Santo como o “Espírito Santo prometido”. Antes da sua ascensão, Jesus disse “Eu lhes envio a promessa de meu Pai” (Lucas 24.49) [2].  Pedro escolheu cuidadosamente este assunto em seu inspirado sermão no dia de Pentecoste, “Exaltado à direita de Deus, Ele recebeu do Pai o Espírito Santo prometido e derramou o que vocês agora veem e ouvem” (Atos 2.33). Paulo falou sobre “a promessa do Espírito” (Gálatas 3.14) e sobre “o Espirito Santo da promessa” (Efésios 1.13). Enquanto Jesus falava nos evangelhos do Pai como aquele que dá o Espírito Santo (Lucas 11.12; João 14.16), o uso do profeta Joel por Pedro indica que Deus primeiro deu a promessa do Espírito através das importantes profecias do Antigo Testamento (Joel 2.28,29; ver também Isaías 32.15; 44.3-5; Ezequiel 11.19,20; 36.26,27; 37.1-14; 39.29; Zacarias 12.10).

O conhecimento do trabalho do Espírito na economia antiga contribui para nosso entendimento de seu trabalho nos Evangelhos, em Atos e nas epístolas. Este artigo irá focar em várias narrativas e profecias chave do Antigo Testamento que fornecem um notável guia de seu trabalho na era do Novo Testamento.

Moisés e os anciãos

Moisés foi o profeta do Antigo Testamento por excelência. Seus milagres durante as pragas no Egito e aqueles manifestados durante a peregrinação no deserto por Israel atestam o jeito extraordinário que o Espírito de Deus atuava através dele. Contudo, o papel do Espirito em seu ministério não é revelado no Pentateuco até Números 11. Aqui, as constantes murmuração e reclamação do povo esgotaram a vitalidade e o entusiasmo de Moisés. Numa linguagem atual, ele estava esgotado. Enfraquecido e deprimido, ele clamou ao Senhor, “Não posso levar todo esse povo sozinho; essa responsabilidade é grande demais para mim. Se é assim que vais me tratar, mata-me agora mesmo; se te agradas de mim, não me deixes ver a minha própria ruína” (Números 11.14,15: ARA).

O Senhor arranjou uma solução surpreendente e inesperada, “Ajunta-me setenta homens dos anciãos de Israel. [...] tirarei do Espírito que está sobre ti e O porei sobre eles” (Números 11.16,17: ARA). O resultado pretendido?  “Contigo levarão a carga do povo, para que não a leves tu somente” (vs. 17). Entendemos que a excepcional sabedoria e o poder de Moisés foram mediados através dele pelo Espírito de Deus. Moisés foi um portador preeminente do Espírito.

Deus está mostrando que o mesmo Espírito que capacitava e estava sobre Moisés é inesgotável e também está disponível para ser colocado sobre um grupo de líderes, outros além de Moisés. E isso, sem diminuir o prestígio e o poder de Moisés (assumimos que Arão e Miriã, ambos profetas, também eram movidos pelo Espírito).

Deus é específico sobre o trabalho do Espírito que é atuar sobre a vida daqueles 70 anciãos. “Contigo levarão a carga do povo, para que não a leves tu somente” (Números 11.17: ARA). O Espírito irá estimular e guiar as funções de liderança para um maior grau de efetividade e utilidade.

Algo mais ocorreu que, pela sua inclusão na narrativa, é importante na experiência dos anciãos. “Quando o Espírito repousou sobre eles, profetizaram; mas, depois, nunca mais” (Números 11.25: ARA). Os anciãos não foram chamados para serem profetas, nem atuaram, até onde sabemos, nesse ofício posteriormente. Assim, o Senhor escolheu usar uma notável experiência temporária de profecia como um sinal para confirmar que o Espírito veio sobre os anciãos. O sinal do discurso profético foi convincente a Moisés, aos anciãos, e outros que testemunharam o evento ou tiveram o evento relatado com segurança para eles. A experiência pública e tardia (providencialmente?) no acampamento de Eldade e Medade foi um testemunho à comunidade, uma antecipação do mini-Pentecoste (Números 11.26).

Saul e Davi

As falhas espirituais de Saul mancharam tanto a sua reputação que tendemos a negligenciar, ou possivelmente não levar em conta, o trabalho do Espírito nele inicialmente. O Senhor escolheu Saul para ser o primeiro rei de Israel, revelada a Sua vontade ao profeta Samuel, então ordenou que Samuel ungisse Saul como rei (1 Samuel 9.16; 10.1). O ato da unção foi símbolo da escolha de Deus e feito na direção de Deus, garantindo a vinda do Espírito em poder.

Após ungir Saul privadamente, Samuel deu-lhe três sinais para serem cumpridos. O último dos três era, “Você encontrará um grupo de profetas. [...] O Espírito do Senhor se apossará de você, e com eles você profetizará, e será um novo homem. Assim que esses sinais se cumprirem, faça o que achar melhor, pois Deus está com você” (1 Samuel 10.5-7). A natureza e ordem dos eventos que se seguem são significantes. “Quando se virou para afastar-se de Samuel, Deus mudou o coração de Saul” (10.9). Mais tarde, quando Saul encontrou o grupo de profetas, “o Espírito de Deus se apossou dele, e ele profetizou no meio deles” (1 Samuel 10.10).

O historiador sagrado cuidadosamente descreve o trabalho de Deus em Saul como realizado em duas etapas seguidas. Primeiro, veio uma mudança de coração; segundo, o Espírito veio em visível manifestação de poder e de profecia, o que lembra os setenta anciãos.

Nem Saul, nem tampouco os anciãos foram chamados para serem reconhecidos como profetas. Mas em cada caso, a experiência temporária de profecia foi um sinal da vinda do Espírito, em poder, sobre eles para a realização de tarefas de liderança. Além disso, Saul passou uma clara experiência do Espírito, em duas etapas. Os pecados e a apostasia de Saul durante seu reinado de 40 anos não invalidava o fato de que Deus o escolheu para ser o primeiro rei de Israel e forneceu a necessária mudança de coração e poder miraculoso para liderar e livrar Israel.

As Escrituras também atestam outro marcante trabalho do Espírito na chamada de Davi. Samuel, na direção direta de Deus, “apanhou o chifre cheio de óleo e o [Davi] ungiu na presença dos seus irmãos, e, a partir daquele dia, o Espírito do Senhor apoderou-se de Davi” (1 Samuel 16.13). Ao contrário de Saul, a Bíblia não diz se Davi sofreu uma mudança de coração. Também, ao contrário de Saul, o Espírito veio sobre Davi desde aquele dia em diante. Assim, Davi, diferentemente de outros sacerdotes, profetas e reis no Antigo Testamento, tinha a presença do Espírito constantemente em sua vida.

Mesmo sendo um menino, Davi parece ter tido um relacionamento precoce e excepcional com Deus. Portanto, o Espírito, sem dúvida já trabalhando dentro dele, veio sobre ele de uma maneira tão visível e poderosa que não teve necessidade de reportar nenhuma mudança de coração. E a derrota de Golias – vindo logo em seguida na narrativa- demonstrou publicamente a sabedoria, a paixão e o poder do Espírito em Davi (1 Samuel 17). Vemos a continuidade e importância do Espírito na vida diária de Davi em sua oração após Natan o confrontou pelo seu adultério e assassinato: “Não me expulses da tua presença, nem tires de mim o teu Santo Espírito” (Salmos 51.11).

É evidente que o Espírito dotou Davi com um vasto espectro de habilidades – como guerreiro e líder militar, administrador, músico e cantor, poeta e profeta, arquiteto e construtor (ver 2 Samuel 23.2 ; 1 Crônicas 28.12,19). Davi é um dos maiores homens do Antigo Testamento, o prenúncio de nosso Senhor Jesus Cristo que é identificado como o “filho de Davi”. Saul e Davi, juntamente com Moisés e uma série de outros grandes nomes do Antigo Testamento, levantam-se na tradição de grandes líderes carismáticos de Israel, assim chamados pelo jeito em que o Espírito veio sobre eles em poder dinâmico.

Bezalel e Aoliabe

A primeira ação definitiva do Espírito sobre indivíduos registrada no Antigo Testamento é encontrada no livro de Êxodo. Ele está incluso na narrativa antes do relato de Moisés e os anciãos em Números 11. O contexto desse evento é a direção do Senhor a Moisés para construir o tabernáculo e seus utensílios conforme um plano exato (Êxodo 25.8,9). Mas Deus não seu somente a Moisés um modelo, Ele também providenciou pessoas cheias do Espírito para a construção e arte: “Eu escolhi Bezalel [...] e o enchi do Espírito de Deus, dando-lhe destreza, habilidade e plena capacidade artística para desenhar e executar trabalhos em ouro, prata e bronze, para talhar e esculpir pedras para entalhar madeira e executar todo tipo de obra artesanal. Além disso, designei Aoliabe [...] para auxiliá-lo” (Êxodo 31.2-6; ver também Êxodo 35.30-35).

Pela primeira vez, nós aprendemos que o Espírito criativo concede sabedoria e habilidade para pessoas específicas realizarem tarefas físicas e educativas facilitadoras do plano redentor de Deus. Nesse caso, os dons espirituais têm a ver com visão criativa, destreza e habilidades de ensino e liderança para poderem concretizar o que é dado por Deus. Não está muito distante este relato para com a discussão de Paulo sobre os conhecidos dons de serviço em Romanos 12.6-8 (por exemplo: serviço, ensino, encorajamento, contribuir segundo as necessidades de outros, liderança e mostrar misericórdia).  

Jeremias, Ezequiel e Joel

Olhando para o futuro, o profeta Jeremias previu, “’Estão chegando os dias’, declara o Senhor, ‘quando farei uma nova aliança com a comunidade de Israel e com a comunidade de Judá. [...] Porei a minha lei no íntimo deles e a escreverei nos seus corações [...]’” (Jeremias 31.31-33). Jeremias previu uma profunda conversão que ainda viria para o povo da aliança de Deus. (Quando o escritor aos Hebreus cita essa profecia, como outros escritores do Novo Testamento, ele diz, “o Espírito Santo também nos testifica a este respeito” [Hebreus 10.15]).

Ezequiel falou em termos similares, mas conectou o trabalho soteriológico antecipado de Jeremias diretamente ao Espírito de Deus. “Darei a vocês um coração novo e porei um espírito novo em vocês; tirarei de vocês o coração de pedra e lhes darei um coração de carne. Porei o meu Espírito em vocês e os levarei a agirem segundo os meus decretos e obedecerem fielmente às minhas leis” (Ezequiel 36.26,27). Ao invés de enfatizar o poder carismático do Espírito, essas duas profecias focaram no poder soteriológico do Espírito.

No caso do profeta Joel, existe uma notável continuidade entre suas palavras e aquelas usadas por Moisés. Conscientemente ou não, Joel pegou o motivo profético encontrado na oração de Moisés quando ele soube que Eldade e Medade estavam profetizando no acampamento: “Quem dera todo o povo do Senhor fosse profeta e que o Senhor pusesse o seu Espírito sobre eles!” (Números 11.29). Olhando para o tempo de cumprimento, Joel proferiu estas palavras do Senhor, “E, depois disso, derramarei do meu Espírito sobre todos os povos. Os seus filhos e as suas filhas profetizarão, os velhos terão sonhos, os jovens terão visões. Até sobre os servos e as servas derramarei do meu Espírito naqueles dias” (Joel 2.28,29). Embora Joel certamente não estivesse indiferente sobre a mudança espiritual entre o povo da aliança, ele previu uma doação profética universal para eles. A ênfase desse texto crucial, o texto fundamental para o discurso profético inicial de Pedro para a nova aliança, é carismática – todo o povo de Deus está para se tornar profeta.

Provisão para o futuro

Essas notáveis características da pneumatologia do Antigo Testamento revela vários aspectos do trabalho do Espírito aparecem mais claro no Novo Testamento. Muitos pontos são particularmente importantes para esta série.
1.1  Nas narrativas do Antigo Testamento, o Espírito geralmente vem de modo poderoso e experimental, que nos referimos como carismático. O termo vem da palavra que Paulo usa geralmente para dons espirituais (charismata) e usualmente significa em discussões teológicas a presença supernatural e experimental da presença e trabalho do Espírito.
1.2  As narrativas também fornecem pistas do trabalho soteriológico do Espírito. Por soteriológico, referimo-nos à renovação espiritual e santificação, ou maturidade do povo de Deus.  Lembra-se do novo coração de Saul e a experiência de Davi a partir daquele dia, assim como sua preocupação de que o Espírito não fosse retirado dele por causa do seu pecado.
1.3  As promessas do Antigo Testamento sobre a obra do Espírito em tempos futuros incluem tanto referências carismáticas como soteriológicas do Espírito. Ezequiel conecta diretamente a experiência de salvação pessoal ao Espírito Santo. Joel, em contraste, traça nitidamente a obra carismática universal do Espírito conforme Ele derrama o dom de profecia sobre todo o povo de Deus.
1.4  Tanto nas narrativas históricas como nas promessas proféticas, os dotes carismáticos do Espírito mostram-se como eventos observáveis e experimentais, frequentemente acompanhados de uma característica elocução profética.

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Edgar R. Lee é doutor em teologia sacra, decano emérito e professor no Seminário Teológico das Assembleias de Deus, em Springfield, Missouri . Também faz parte da comissão de pureza doutrinária do Concílio Geral das Assembleias de Deus dos Estados Unidos. O texto foi publicado originalmente na revista Enrichment Journal.








Notas:
1. PALMA, Anthony D. The Holy Spirit: A Pentecostal Perspective. 1 ed. Springfield: Logion Press/Gospel Publishing House, 2001. p 33. Publicado no Brasil como Batismo no Espírito Santo e com Fogo (CPAD).
2. As citações bíblicas, salvo indicação em contrário, são da Nova Versão Internacional (NVI).
3. Veja essa discussão em Palma, The Holy Spirit, 136,137.
4. Este artigo se refere ao Espírito com pronomes masculinos, de acordo com a teologia protestante tradicional.

domingo, 17 de julho de 2016

Situação Ridícula: querem proibir o Nicodemus na CPAD MegaStore


Por Gutierres Fernandes Siqueira


Alguns pastores influentes da Assembleia de Deus estão se mobilizando para impedir, pasmem, uma palestra do teólogo Augustus Nicodemus Lopes na loja da CPAD MegaStore, no Rio de Janeiro (RJ), que acontecerá ou não amanhã (espero que a direção da Casa não ceda à pressão). O tema da palestra, inclusive, é sobre a chamada “renovação apostólica”. Isso mesmo que você leu: é uma mobilização contra uma palestra! Tal postura faria corar de vergonha até mesmo o prefeito mais intransigente que Congregação para a Doutrina da Fé do Vaticano já teve.

Na visão dessa turba de inquisidores a mobilização visa preservar a Assembleia de Deus do calvinismo. Eu fico espantado com essa postura mesquinha, intolerante e sectarista, já que o referido teólogo não falará sobre soteriologia ou pneumatologia. Eu discordo do Nicodemus em muitos pontos, inclusive em aspectos soteriológicos e pneumatológicos, mas jamais deixaria de convidá-lo a um evento que tratasse de tema alheio à confessionalidade da denominação, logo porque ele é um estudioso ortodoxo das Escrituras. Eu sempre defendi e defenderei o intercâmbio saudável entre as diversas confissões do protestantismo.

Eu gostaria de ver, isso sim, a mobilização dessa liderança poderosa contra os modismos neopentecostais em nosso meio. Há inúmeros pregadores e pastores da denominação que, em graus diversos, pregam a maldita teologia da prosperidade, a confissão positiva, a bênção de Toronto, o triunfalismo, o semipelagianismo, o curandeirismo, o mercantilismo da fé, o autoritarismo eclesiástico, o G12, etc. e diante desses lobos não há nenhuma campanha? Aí, depois disso, seria coerente se preocupar com o calvinismo e outros temas secundários. Sou arminiano também e como arminiano sei quais são as reais prioridades doutrinárias da igreja.

Esse sectarismo em nada nos ajudará. E outra: eu não levo a sério gente que se diz preocupada com a confessionalidade da denominação e nunca levantou uma palavra contra o Congresso de Camboriú ou nunca se mobilizou contra, por exemplo, a teologia triunfalista da musicalidade assembleiana. E pior: ainda não dá nenhum pio contra o crescente número de professores liberais nos seminários da denominação.

A situação toda beira ao ridículo.

Côa mosquito e engole camelo

Por Gutierres Fernandes Siqueira

Um importante pastor da Assembleia de Deus em Pernambuco, a igreja evangélica mais rica e poderosa da região Nordeste, resolveu se manifestar contra o suposto avanço do calvinismo nas Assembleias de Deus por meio da Casa Publicadora. Quero indicar que o assunto desde texto não é esse debate cansativo entre calvinismo ou arminianismo, mas tão somente uma análise sobre o episódio de Recife.

O referido pastor escreveu, entre outras coisas, as palavras a seguir, que reproduzo com os erros gramaticais e gráficos:

Agora é uma editora rica ai aparece estes heréticos, e seminaristas sem nenhuma maturidade ministerial... Mas deveriam lembrar que a CPAD é uma editora confessional e não uma empresa comercial. Não podemos permitir que estes senhores digam o que os rebanhos devem comer sem ter a menor experiência pastoral... (sic).

Vejamos alguns pontos:

1. Eu não acredito que exista qualquer posição deliberada da editora a fim de “calvinizar” as Assembleias de Deus. Essa teoria conspiratória é ridícula, paranoica e reflete certo pensamento autoritário onde uma editora confessional não pode publicar absolutamente nada a margem de sua confessionalidade. Eu realmente acho que a editora deve reforçar sua confessionalidade, especialmente no lançamento de obras acadêmicas pentecostais, mas o caminho inquisitorial do pastor recifense não é o caminho correto.

2. O referido pastor pertence à Assembleia de Deus mais legalista do país. E o legalismo é uma soteriologia prática, onde a ideia subterrânea do semipelagianismo está presente. Portanto, o semipelagianismo prático, e até teórico, deveria ser a preocupação principal do referido pastor ao apascentar suas ovelhas. É claro que ninguém se assume semipelagiano, logo porque é feio, mas o próprio comportamento denuncia essa prática.

3. Se o referido pastor está tão preocupado com o calvinismo, o que é até legítimo para quem busca uma identidade confessional, que então passe a ensinar o arminianismo. Uma igreja verdadeiramente arminiana jamais será um antro de legalismo e justiça própria.

4. Essa liderança da AD de Recife é reconhecida pelo forte paternalismo. Isso é manifesto na própria publicação onde se percebe a ideia que alguém só pode falar a partir de uma experiência pastoral. Uma igreja cuja liderança é paternalista criará ovelhas infantilizadas.

Desculpem o meu texto ácido, mas é revoltante ver sempre gente pronta a coar mosquito e engolir camelo. Se esse pastor assembleiano estivesse realmente pregando o Evangelho numa perspectiva arminiana, saudável, não infantilizada e longe do legalismo, aí sim eu levaria a preocupação a sério. O que passa disso é mera vontade de controle.

sábado, 16 de julho de 2016

Os bebês

Por Gutierres Fernandes Siqueira

Conta-nos a mitologia grega que, sendo ainda uma criança de berço, o semideus Hércules sufocou duas serpentes- e assim fez apenas com a força das mãos. Hércules era filho do poderoso Zeus e da mortal Alcmena e, segundo essa narrativa mítica, já detinha o poder e a valentia desde bebê. O Novo Testamento, por outro lado, conta-nos a história de Jesus. Cristo não era um semideus, mas o próprio Deus encarnado. Jesus, Deum verum et hominem verum, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, não manifestou espetáculos de poder pelo poder como os deus pagãos. O menino Jesus, aquele a quem o principado estava sobre os Seus ombros, nasceu em uma situação de total fragilidade. Não havia hospedaria, mas apenas um estábulo; não havia conforto, mas apenas o perigo iminente da caçada de Herodes; não havia festas pomposas, mas apenas o céu silencioso da noite em Belém que não emitia nenhum som do coro angelical. O bebê não tinha o braço forte, mas carecia da proteção de José e Maria. O bebê, naquele momento, não era agente direto de milagres e maravilhas, mas precisou o tempo todo da providência divina para sobreviver. E a provisão de Yahweh não Lhe faltou. O contraste entre Hércules e Jesus apenas reforça como a fé cristã nos apresenta o Deus que conhece as nossas dificuldades de perto. E até de berço.

terça-feira, 12 de julho de 2016

O Batismo no Espírito Santo: a Questão Hermenêutica

Por Gutierres Fernandes Siqueira

A doutrina do Batismo no Espírito Santo com a evidência física e inicial do falar em novas línguas é, certamente, controversa. Ao mesmo tempo, esse ensino está mal colocado no mercado das ideias teológicas. Há pouquíssimo material em português sobre o assunto. E, praticamente, só dispomos de uma obra de nível acadêmico sobre o tema na perspectiva de pentecostais assembleianos, que é o livro No Poder do Espírito (Editora Vida) de William e Robert Menzies. Obra essa a quem sou devedor, assim como dos livros The Charismatic Theology of St. Luke (Baker Academic) de Roger Stronstad e Reading Luke-Acts in the Pentecostal Tradition (CPT Press) de Martin Mittelstadt.[1]

É assustador ver o número crescente de membros das Assembleias de Deus que descreem dessa doutrina. É como se um batista, por exemplo, passasse a adotar o pedobatismo ou um presbiteriano o modelo de governo congregacional. Dá para imaginar um metodista entusiasta da santificação progressiva? Ou seja, não faz o menor sentido desprezar a doutrina que é a própria essência do movimento que o membro pertence. E vejo que essa descrença se dá por dois motivos: como uma reação desproporcional aos exageros pneumaníacos e, também, pela ignorância doutrinária da própria liderança assembleiana.

O objetivo deste texto (e da série) não é ressaltar diferenças doutrinárias pelo prazer da divergência, longe disso, mas se trata especialmente de uma explicação do que realmente vem a ser a crença pentecostal-assembleiana. Lamentavelmente, o desconhecimento dessa maravilhosa doutrina começa entre os próprios pentecostais. Não é possível nem ao crítico nem ao crente adotar uma doutrina pela via do espantalho. Seja para analisar criticamente ou positivamente, é essencial conhecer a doutrina que professamos.

Quais são os princípios hermenêuticos que sustentam essa doutrina?

Lucas não é meramente um historiador. Ele é um teólogo

A doutrina do Batismo no Espírito Santo se baseia especialmente na literatura lucana, particularmente em Atos dos Apóstolos, mas não somente nela. Os textos em destaque são: Atos 1.4,8; 2.1-4; 8. 12-17; 10. 44-46; 11. 14-16; 15. 7-9; Lucas 24.49. O teólogo anglicano John Sttot, em oposição à doutrina do Batismo no Espírito Santo, popularizou a ideia que tal doutrina não pode se basear em Atos porque o autor faz apenas uma narrativa e não um tratado teológico.  “A doutrina do Espírito Santo não pode ser deduzida de passagens meramente descritivas de Atos”, escreveu Stott[2].

Esse argumento de Stott é inconsistente por alguns motivos: (1) Uma narrativa descritiva não quer dizer falta de conteúdo teológico por parte do autor. Seria o mesmo que dizer que o Evangelho segundo Mateus não tinha alguma intenção teológica com seu conteúdo. Não só Mateus, mas também Marcos, João e Lucas escreveram os Evangelhos não apenas como historiadores, mas, sobretudo como teólogos. E aí devemos lembrar que originalmente Atos dos Apóstolos é um texto integrado ao Evangelho de Lucas. (2) Se esse princípio fosse levado ao pé da letra parte da eclesiologia perderia sentido, pois o protestantismo sempre leu Atos como uma forma de retomar diretrizes missiológicas, litúrgicas e de organização. (3) Se doutrinas bíblicas fossem elaboradas meramente de textos doutrinários, como as epístolas, não é exagero afirmar que parte do Credo Apostólico poderia ser rejeitado como falso. (4) E até possível entender a preocupação de Stott. De fato, partes da narrativa dos Evangelhos e em Atos não servem como padrão. Exemplo são as curas com sinais externos como cuspe de Jesus, a sombra de Pedro, o lenço de Paulo ou mesmo a venda de todos os bens dos crentes primitivos etc. Mas veja que em todos esses casos o evento miraculoso ocorre apenas uma vez e o evangelista não faz uma ponte com qualquer promessa veterotestamentária. Ainda assim, esses textos narrativos também servem como princípio teológico, pois neles está contida a ideia que Deus pode eventualmente usar meios extraordinários para o impulso de um milagre.

Como brilhante teólogo que era Stott voltou reticentemente atrás em outro livro de 1990. A obra Batismo e Plenitude do Espírito Santo é de 1964. O anglicano escreveu: “Não estou negando que as narrativas históricas têm uma finalidade didática, pois é claro que Lucas era tanto um historiador e um teólogo. Estou afirmando que a finalidade didática de uma narrativa nem sempre é evidente em si mesma e por isso muitas vezes precisa de ajuda interpretativa de outro lugar nas Escrituras”[3]. Por fim, Stott deixa claro que é possível, ainda que não desejável, tomar conclusões doutrinárias a partir de uma narrativa histórica.

Na literatura teológica mais recente não parece ter mais dúvidas que o livro de Atos dos Apóstolos foi escrito com propósitos teológicos, não meramente históricos, exemplo é o livro Introdução ao Novo Testamento de D. A. Carson, Leon Morris e Douglas J. Moo: “Está claro que Lucas escreve com propósitos teológicos”[4]. E David S. Dockey complementa: “Os retratos que temos de Jesus e sua interpretação de Jesus, ainda que históricos, são moldados pelo propósito teológico dos autores dos Evangelhos. A atual crítica redacional tem nos ajudado a ver que os autores dos Evangelhos foram criativos em sua adaptação e comunicação do material de Jesus e sobre ele”[5].  Outro exemplo é do teólogo escocês I. Howard Marshall que escreveu:

Embora enfatizemos que Lucas estava escrevendo uma narrativa histórica acerca dos inícios do cristianismo, e embora rejeitemos o ponto de vista de que escreveu a fim de transmitir um conceito teológico específico, nem por isso devemos deixar de perguntar acerca da natureza do ponto de vista teológico que chega a expressar-se em Atos. Não há dúvida de que Lucas percebe que a história tem importante significado teológico, e de que ressaltou este significado conforme a sua maneira de narrá-la.[6]

Mesmo um professor do Dallas Theological Seminary, uma escola reconhecidamente anticarismática, como Darrell L. Bock reconhece que na narrativa lucana a temática é sobre um revestimento de poder para o serviço:

O dom, em geral, descreve a capacitação de testificar de forma ousada de Jesus. Em algumas ocasiões a expressão descreve, de forma geral, o caráter espiritual do indivíduo. As palavras demonstram que o Espírito é a força motriz por trás da efetividade da Igreja Primitiva. Jesus concedeu o Espírito não apenas para mostrar que a promessa era cumprida, mas também a fim de capacitar a Igreja para realizar sua missão de levar a mensagem do evangelho ao mundo[7].

É fato, uma leitura honesta de Lucas-Atos levará em conta que a estrutura não é jornalística, mas histórico-teológica.

A pneumatologia lucana é diferente da paulina

 Como dito acima essa é uma doutrina baseada especialmente nos escritos de Lucas, e é natural que assim o seja, pois a pneumatologia paulina é essencialmente relacionada ao contexto eclesiológico, ético e moral, enquanto em Lucas é eclesiológico e missional. “Para Lucas a função do Espírito não é, propriamente, a de santificar; em primeiro lugar é a de impulsionar os discípulos para a missão”, escreve Alberto Casalegno[8]. Ou seja, enquanto Paulo apela para como o Espírito Santo transforma o caráter cristão, Lucas, essencialmente, mostra como o Espírito Santo capacita o homem para testemunhar de Deus. O missiólogo David J. Bosch resume essa questão magistralmente e, por favor, aqui vale a longa citação:

Nos escritos de Lucas, o Espírito da missão é também o Espírito de poder (em grego: dynamis). Isso se aplica tanto à missão de Jesus (Lc 4.14; At 10.38) quanto à dos apóstolos (Lc 24.49, At 1.8). Assim, o Espírito é, além disso, não só o iniciador e guia da missão, mas também aquele que capacita para a missão. Isso se manifesta particularmente na ousadia das testemunhas depois de terem sido dotadas do Espírito. Em Atos, Lucas usa muitas vezes os termos parresia e parresiazomai (“intrepidez”; “falar intrepidamente”) (cf. 4.13, 29, 31; 9.27; 13.46; 14.3; 18.26; 19.8). O que se propõe é sempre que isso foi possibilitado pelo poder do Espírito. E o Espírito que torna intrépidos discípulos que antes estavam atemorizados. Através do Espírito, Deus controla a missão (...). A estreita ligação de pneumatologia e missão é a contribuição distintiva de Lucas para o paradigma missionário da igreja incipiente. Nas cartas de Paulo- provavelmente escritas cerca de 30 anos antes de Lucas-Atos- o Espírito é relacionado com a missão de maneira apenas marginal. Por volta do século 2 d. C., a ênfase havia mudado, salientando o Espírito quase exclusivamente como agente de santificação ou como garante da apostolocidade. A Reforma protestante do século 16 tendeu a colocar a ênfase principal na obra do Espírito como aquele que dá testemunho da palavra de Deus e a interpreta. Só no século 20 houve uma redescoberta gradativa do caráter missionário intrínseco do Espírito Santo. Isso aconteceu, entre outras coisas, por causa de um estudo renovado dos escritos de Lucas. Sem dúvida, Lucas não pretendia sugerir que a iniciativa, a orientação e o poder do Espírito na missão se aplicassem apenas ao período sobre o qual ele estava escrevendo. Elas tinham, em sua opinião, validade permanente. Para Lucas, o conceito do Espírito selava a afinidade entre a vontade salvífica universal de Deus, o ministério libertador de Jesus e a missão mundial da igreja.[9]

É um erro corriqueiro na interpretação da Bíblia a ideia que os autores escriturísticos, ao citar uma expressão ou tema comum, estão exatamente tratando do mesmo assunto. Isso não é verdade e há inúmeros exemplos possíveis. A forma como Paulo e Tiago trabalham a doutrina da justificação é um exemplo. A ênfase de cada um é diferente, mas isso não quer dizer contradição, mas complementaridade. Os evangélicos costumam pensar na teologia excessivamente em categorias sistemáticas, o que é prejudicial para o trabalho hermenêutico, logo porque “não devemos nos atrever a sobrevalorizar a unidade das Escrituras a ponto de eliminar as ênfases individuais [...] Isso pode acarretar um uso errado de paralelos de forma que um autor é interpretado com base em outro, resultando num entendimento errôneo”, escreve o hermeneuta Grant R. Osborne. É óbvio que o valor didático da sistemática é inestimável, mas “a própria doutrina da inspiração nos obriga a reconhecer por trás dos textos a personalidade de cada autor sagrado”, para citar novamente Osborne[10].

Aqui não se trata de uma defesa da teologia bíblica em detrimento da teologia sistemática. Precisamos de ambas, mas certamente que o trabalho hermenêutico depende bem mais da primeira. Outro ponto, a teologia bíblica é estruturada em dois princípios: (1) o contexto histórico, ou seja, como aquela mensagem soou para o público original e, também, é (2) necessário ler a Escrituras em seus próprios termos e prestar “atenção especial não somente os conceitos tratados por ela, mas às próprias palavras, ao vocabulário e à terminologia empregada pelos autores bíblicos”[11]. Infelizmente, mesmos os bons teólogos esquecem esse princípio básico de hermenêutica quando tratam da pneumatologia neotestamentária. O protestantismo tradicional faz uma leitura da ação do Espírito Santo apenas a partir de uma perspectiva paulina, desprezando tanto a teologia do Antigo Testamento e a teologia lucana sobre o assunto.

Vejamos um caso comum: a expressão “cheio do Espírito” não pode ser lida da mesma forma na teologia paulina e lucana, a exemplo do que faz o maior parte dos teólogos evangélicos. Os tradicionais concluem que a plenitude do Espírito tem como propósito a santidade, o que é verdade dentro da perspectiva paulina, mas ao mesmo tempo ignoram que na teologia neotestamentária a plenitude do Espírito também é missional, como vemos em Lucas-Atos[12]. Portanto, tomar Efésios 5.18 para interpretar o enchimento do Espírito em Atos é uma “transferência ilegítima de totalidade”. Essa ação se dá quando “os vários significados que uma palavra tem em todos os seus contextos na Bíblia estão todos em uma única passagem”, como explica o teólogo Vern S. Poythress[13][14].

A objeção corrente à doutrina do Batismo no Espírito Santo é um exemplo de como a leitura seletiva de alguns textos neotestamentários estreita a visão integral sobre a ação do Santo Espírito. A verdade, e ainda mais a verdade revelada nas Escrituras, é complexa, rica e multifacetada. A verdade, também, é experimental. Muitas vezes como hermeneutas e exegetas temos dificuldades de assimilar aquilo que é óbvio para a comunidade de crentes. E aqui não se trata de mera oposição entre racionais e pragmáticos, logo porque a falta da própria experiência também nos tenta a ignorar princípios básicos das Escrituras.






[1] Este artigo é o primeiro de uma série sobre a doutrina do Batismo no Espírito Santo.
[2] STOTT, John. Batismo e Plenitude do Espírito Santo. 3 ed. São Paulo: Edições Vida Nova, 2007. p 32. Essa interpretação foi popularizada pelo Stott, mas também está presente em outros teólogos, até mesmo no assembleiano Gordon Donald Fee. Veja: PACKER, James Inn. Na Dinâmica do Espírito. 1 ed. São Paulo: Edições Vida Nova, 1991. p 165-193. FEE, Gordon Donald e STUART, Douglas. Entendes o que lês? 2 ed. São Paulo: Edições Vida Nova, 1997. p 79-97. GRAHAM, Billy. O Poder do Espírito Santo. 2 ed. São Paulo: Edições Vida Nova, 2009. p 69-91.
[3] STOTT, John. The Spirit, the Church, and the World. 1 ed. Downers Grove: Inter Varssity Press, 1990. p 8.
[4] CARSON, D. A., MOO, Douglas J. e MORRIS, Leon. Introdução ao Novo Testamento. 1 ed. São Paulo: Edições Vida Nova, 1997. p 223.
[5] DOCKERY, David S. Hermenêutica Contemporânea à Luz da Igreja Primitiva. 1 ed. São Paulo: Editora Vida, 2005. p 190.
[6] MARSHALL, I. Howard. Atos: Introdução e Comentário. 1 ed. São Paulo: Edições Vida Nova, 1982. p 21.
[7] ZUCK, Roy B. (Ed). Teologia do Novo Testamento. 1 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2008. p 108.
[8] CASALEGNO, Alberto. Ler os Atos dos Apóstolos: Estudo da Teologia Lucana da Missão. 1 ed. São Paulo: Edições Loyola, 2005. p 188.
[9] BOSCH, David J. Missão Transformadora: Mudanças de Paradigma na Teologia da Missão. 4 ed. São Leopoldo: Sinodal e EST, 2014. p 148-149.
[10] OSBORNE, Grant R. A Espiral Hermenêutica: Uma Nova Abordagem à Interpretação Bíblica. 1 ed. São Paulo: Edições Vida Nova, 2009. p 34.
[11] KÖSTENBERGER, Andreas J. e PATTERSON, Richard D. Convite à Interpretação Bíblica: A Tríade Hermenêutica. 1 ed. São Paulo: Edições Vida Nova, 2015. p 648.
[12] Exemplo dessa interpretação tradicional pode ser vista em: NICODEMUS, Augustus. Cheios do Espírito. 1 ed. São Paulo: Editora Vida, 2007. p 84.
[13] POYTHRESS, Vern S. Teologia Sinfônica: A Validade das Múltiplas Perspectivas em Teologia. 1 ed. São Paulo: Edições Vida Nova, 2016. p 86. 
[14]Cabe observar que o livro de Pouthress é um grande auxílio nesse debate, especialmente pelas doze máximas do capítulo sete. O autor magistralmente mostra o perigo de tomar uma parte como o todo na leitura das Escrituras.

domingo, 10 de julho de 2016

Legalismo: o refúgio da perversidade

Por Gutierres Fernandes Siqueira

De vez em quando surge um escândalo sexual no meio cristão, seja católico ou evangélico, que provoca expectação e ansiedade entre os membros das igrejas e alvoroço nas mídias tradicionais e nas redes sociais. É muito comum ver como protagonistas dessas notícias chocantes pessoas que militavam em grupos temáticos especializados em família, homossexualidade, castidade etc. Não é que esses movimentos produzam pervertidos sexuais, vale lembrar que este autor abomina qualquer pensamento “determinista/reducionista” [1], mas os pervertidos encontram nesses espaços um refúgio para a própria dissimulação.

O problema de programas de militância pela castidade ou contra outros pecados sexuais é porque o enfoque sai da graça de Deus para técnicas humanas. Isso nunca dará certo. A santidade, assim como a salvação, é recebida pela graça de Deus. O legalismo é o refúgio natural dos pervertidos, pois esses tentam esconder o tamanho e a força de seu pecado. Só a graciosa misericórdia de Cristo pela ação santificadora do Espírito Santo nos ajuda a vencer o pecado ofensivo a Deus e ao próximo. Os teólogos Ana Márcia Guilhermina de Jesus e José Lisboa Moreira de Oliveira definem bem as três marcas progressivas do legalista:

A primeira é a falta de sensibilidade e de humanidade. A pessoa se torna um monstro guiado pela lei do dever, não tendo misericórdia e compaixão diante da fragilidade alheia. A segunda é o despertar dos instintos mais baixos que o sujeito acreditava controlar. Sufocado e reprimido pela lei e pelo dever, o prazer se transforma em bestialidade ou em conflitos interiores contra os quais a pessoa não tem solução a não ser deixar que extravasem. Disso resulta uma terceira atitude, que é a hipocrisia. Vivendo de forma animalesca, o sujeito tende a ser moralista e cruel para esconder, sob tal aparência, a sua ambiguidade. Vivendo no inferno, a pessoa, mesmo inconscientemente, tende a transformar a vida dos outros num inferno. Vivendo sem prazer de viver, odeia quem vive prazerosamente e tudo fará para desmanchar o prazer de viver dos outros.[2]

Este texto é uma análise do legalismo. A minha tentação como autor e como leitor é escrevê-lo e lê-lo pensando em referências midiáticas ou da minha própria comunidade. João Calvino certa vez escreveu: “Dificilmente há uma pessoa que não se sinta encantada com o desejo de investigar as faltas das outras pessoas”[3]. Logo, o nosso desafio é escrever e ler um texto como este pensando em nossas próprias vidas. Será que eu não estou me refugiando numa cortina de “santidade” e represando o meu pecado sem buscar a santificação do Senhor?



[1] O determinismo/reducionismo é a crença que uma ação individual é fruto direto de um contexto social, biológico, econômico etc. O marxismo é um exemplo de pensamento determinista. “Em termos gerais, determinismo é um modo de pensar que supõe que tudo é, de modo previsível, causado por alguma coisa. Mais especificamente, determinismo descreve qualquer teoria que explique o mundo em termos de alguns fatores estreitamente definidos, como exclusão de todos os demais”. Veja: JOHNSON, Allan G. Dicionário de Sociologia: Guia prático da Linguagem Sociológica. 1 ed. Rio de Janeiro: Zahar, 1997. p 71-72.
[2] JESUS, Ana Márcia Guilhermina e OLIVEIRA, José Lisboa Moreira de. Teologia do Prazer. 1 ed. São Paulo: Editora Paulus, 2014. p 49.
[3] Citado em: KULIGIN, Victor. Dez Coisas que Eu Gostaria Que Jesus Nunca Tivesse Dito. 1 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2014. pos. 3557.

sábado, 9 de julho de 2016

Deus, o primeiro evangelista

Uma representação de Abraão em Rembrandt
Por Gutierres Fernandes Siqueira

O principal agente missionário não é o homem e nem as instituições eclesiásticas. “A missão é a atividade de Deus no mundo. Deus é o protagonista da missão”, escreveu Justo L. González e Carlos Cardoza Orlandi[1]. O conceito teológico Missio Dei expressa bem essa verdade teológica. Não é apenas a salvação que nasce do Senhor, mas a Sua própria missão. Jesus mesmo disse: “Eu sou a videira; vocês são os ramos. Se alguém permanecer em mim e eu nele, esse dá muito fruto; pois sem mim vocês não podem fazer coisa alguma” (João 15.5 NVI, grifo meu). Deus é aquela que envia e revela, sustenta e proporciona o crescimento de Sua própria obra. A missão de Deus se realiza em harmonia e perfeição na trindade santa. Portanto, “não é o bem-estar e a glória do homem, nem o crescimento e a ampliação da igreja, mas a glória de Deus torna-se o principal objetivo de missões, pois o ser e o caráter de Deus são a base mais profunda de missões”, como escreveu George W. Peters[2].

A teologia bíblica prega a unicidade de Deus. No coração do Pentateuco está escrito: “Ouve, Israel, o Senhor, nosso Deus, é o único Senhor” (Deuteronômio 6.4).  A encarnação de Cristo coroa essa unicidade ao nos presentear com um paradoxo espantoso e maravilhoso: o Criador do Universo, o ser atemporal e imutável, entra no tempo e no espaço. Ele é único, inigualável, mas ao mesmo tempo se parece conosco, ao ponto de um beijo traidor ser necessário para diferenciá-lo dos demais discípulos.  

A encarnação de Cristo é o ápice da ação missiológica de Deus. Jesus Cristo não somente entra na história, mas como se torna a norma da história, para lembrar uma expressão do teólogo suíço Hans Urs von Balthasar. Dessa forma, Deus é aquele que envia o próprio Filho para transtornar e transformar este mundo. É o todo no fragmento. É o imutável que crescia em graça e estatura. O Eterno que é morto. O Rei do universo coroado com espinhos. Ele ali estava como o Senhor da justiça diante da jurisprudência romana.

Todavia, há teologias que negam a realidade da encarnação. Não veem a Cristo como o próprio Deus em carne e osso. Jesus é até um “cara legal”, um grande mestre moral, dizem eles, mas não é divino. Nas chamadas “teologias liberais”, em sua manifestação acadêmica ou em versões populares, a salvação não é, também, tida como exclusiva em Cristo. Ele é apenas mais um caminho de nobreza e dignidade. Isso porque, sendo um sujeito histórico, Jesus não poderia servir como a realidade última e absoluta do mundo. Cristo estaria, por assim dizer, um tanto limitado pelo provisório e pela temporalidade para revelar o Absoluto. Nessas teologias, portanto, a salvação também pode ser encontrada em diversas partículas espalhadas pelo globo, sejam essas partes outras pessoas iluminadas ou expressões de fé, mas também a salvação está na motivação crescente à justiça proporcionada pelas ideologias utópicas. Ou resumindo, a fé da teologia moderna não passa de um novo moralismo. Não é o moralismo dos ascéticos, nem o moralismo do jansenismo, mas é o moralismo farisaico e pelagiano- uma velha tradição humana que, a partir da própria vaidade, faz uma análise do mundo do alto de sua santidade. Não que o pecado hoje seja o sacrilégio ou o adultério, mas são essências com o alimento com glúten, o bullying, o móvel sem madeira certificada e o conceito antecipado contra qualquer minoria. Assim como os antigos escribas, vejam vocês, o novo fariseu é bom de aparência e rápido em desprezar o descumpridor da lei.

O problema do liberalismo teológico é que lhe sobra muita fé. É a teologia mais fideísta que existe porque tem ela mesma a ingenuidade de ser crédula diante do homem e incrédula diante de Deus. É autoidólatra. Todavia, esse fideísmo excessivo despreza a beleza divina, especialmente a encarnação. A teologia liberal despreza o Deus em missão porque, na prática, mesmo entre aqueles que ainda mantêm algum teísmo, Deus não passa de uma realidade distante, totalmente transcendente, mas que contraditoriamente que se confunde com a própria criatura.

A teologia bíblica ensina a universalidade e a familiaridade de Deus. O nosso Deus não é tribal. Embora seja Ele o Deus de Israel (cf. Lucas 1.68), a essa nação não está limitado. Ele é o Senhor do Universo. Os anjos cantam: “Santo, santo, santo é o Senhor dos Exércitos, a terra inteira está cheia da sua glória” (Isaías 6.3 NVI, grifo meu). E o salmista louva: “Pois o Senhor Altíssimo é temível, é o grande Rei sobre toda a terra!” (Salmos 47.2 NVI, grifo meu). E o rei Davi ainda enfatiza: “Do Senhor é a terra e tudo o que nela existe, o mundo e os que nele vivem...” (Salmos 24.1 NVI, grifo meu). Ao mesmo tempo, Deus é de uma linhagem, de uma família: na concepção judaica a expressão “Deus de seus antepassados” (2 Crônicas 33.12) é mais do que mera sequência tradicional, mas é aliança em torno de uma nação e seus líderes. A base dessa aliança é a continuidade do compromisso de indivíduos, logo porque, Ele é o Deus de Abraão, Isaque e Jacó (cf. Êxodo 2.24, 4.5).  

A universalidade de Deus indica, em primeiro lugar, que a expressão cultural de um povo não é o todo e nem não esgota a manifestação de culto e fé em Deus. O conhecimento de Deus não depende de territorialidade; não é limitada pelo domínio humano sobre o espaço que lhe é comum. “Sai da tua terra”, ordenou Deus a Abraão (Gênesis 12.1), ou seja, rompa com qualquer compromisso com a sua cultura que esteja acima do compromisso com Deus. “O Deus que chama Abraão para ser uma bênção a todas as nações é o mesmo Deus que governa a história de cada uma delas”, como escreveu Christopher J. H. Wright[3]. No episódio onde Jesus encontra a mulher samaritana fica claro o entendimento dessa universalidade: “Creia em mim, mulher: está próxima a hora em que vocês não adorarão o Pai nem neste monte, nem em Jerusalém” (João 4.21 NVI). O cristianismo mostra que a fé não depende de um território, templo ou mesmo de uma cidade com sua cultura religiosa. Isso porque “Deus é espírito, e é necessário que os seus adoradores o adorem em espírito e em verdade” (João 4.24).

A universalidade de Deus não é universalismo. Deus quer que todos os homens cheguem ao conhecimento dele (1 Timóteo 2.4), mas, dentro de uma relação de liberdade, o homem pode resistir ao amor de Deus: “Homens de dura cerviz e incircuncisos de coração e ouvido, vós sempre resistis ao Espírito Santo; assim, vós sois como vossos pais” (Atos 7.51 ARC). Portanto, por causa do próprio homem, o universalismo, que é a ideia de que todos serão salvos, não tem lógica nem é possível, ao menos que Deus se fizesse de um tirano celestial obrigando todos a amarem a Ele.

O próprio texto de João 4 que indica a universalidade de Jesus rejeita, ao mesmo tempo, qualquer ideia relativista que a adoração de todos os povos, culturas e pessoas são atestados do “conhecimento de Deus” a partir de uma experiência sincera de fé. Jesus disse: “Vocês, samaritanos, adoram o que não conhecem” (João 4.22 NVI). Certamente que essa frase de Jesus é, digamos, um tanto intolerante, exclusivista e pouco afeita a relativização. Mas aí vem uma pergunta: aceitamos ou não a autoridade de Cristo? Caso não, qual a outra autoridade tomará o espaço dEle? Nenhuma? Impossível, ninguém vive sem autoridade, nem que seja a autoridade do próprio ego, chamada de autonomia, onde certamente é a mais limitada de todas: pois enxerga o mundo numa perspectiva estreita a partir de si.

A universalidade, ao mesmo tempo, tem sérias implicações. Abraão recebeu a promessa da aliança que a sua descendência abençoaria “todas as famílias da terra” (Gênesis 12.3). Ou seja, nessa aliança não há qualquer espaço para o nacionalismo, que é o orgulho de pertencer à determinada nação; não há espaço para o denominacionalismo, que é a ideia estúpida que a sua denominação é a única ou a melhor expressão do Reino de Deus nesta terra e nem muito menos para o orgulho racial.




[1] GONZÁLEZ, Justo L. e ORLANDI, Carlos Cardoza. História do Movimento Missionário. 1 ed. São Paulo: Editora Hagnos, 2008. p 23.
[2] PETERS, George W. Teologia Bíblica de Missões. 1 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2000. p 69.
[3] WHIGHT, Christopher J. H. A Missão de Deus: Desvendando a Grande Narrativa da Bíblia. 1 ed. São Paulo: Edições Vida Nova, 2014. p 488.