sexta-feira, 30 de setembro de 2016

Convite aos irmãos de Curitiba e região

CONVITE

Aos irmãos da região metropolitana de Curitiba (PR) fica o convite para essa palestra e debate na Assembleia de Deus no Jardim Amélia em Pinhais. Será dia 1/10 às 19h30. Veja detalhes no cartaz abaixo. Também darei a aula de Escola Bíblica Dominical na mesma igreja às 9h de domingo, 2/10.

Por Gutierres Fernandes Siqueira

domingo, 18 de setembro de 2016

A fé pentecostal: uma reação popular à modernidade


O pentecostalismo representou uma rebelião popular contra o moderno culto da razão. [Karen Armstrong]

Enquanto Rudolph Bultmann desenvolvia sua abordagem de demitologização ao Novo Testamento, os pentecostais silenciosamente (bem, talvez não tão silenciosamente) oravam pelos enfermos e expulsavam demônios. Enquanto os teólogos evangélicos, seguindo os passos de B. B. Warfield, procuravam explicar por que devemos aceitar a realidade dos milagres registrados no Novo Testamento, mas, ao mesmo tempo, não esperar que ocorram hoje, os pentecostais estavam (pelo menos aos nossos olhos) testemunhando que Jesus operava “prodígios e sinais” contemporâneos quando estabeleceu a igreja. [Robert P. Menzies]

Por Gutierres Fernandes Siqueira

A modernidade é um período histórico-filosófico, influenciado pelo Iluminismo, “em que o homem passa a se reconhecer como um ser autônomo, autossuficiente e universal, e a se mover pela crença de que, por meio da razão, pode-se atuar sobre a natureza e a sociedade”, como define sinteticamente o dicionário Houaiss. O pensamento moderno é marcado pelo racionalismo, cientificismo, tecnicismo, historicismo etc. O grande deus moderno é justamente a razão humana.

O pentecostalismo é essencialmente antimoderno. Um exemplo dessa disposição é a forte crença na Bíblia como a Palavra de Deus. O povo pentecostal sempre teve a Bíblia em grande estima, ainda que fosse deficiente no exercício hermenêutico e exegético. O carinho pela “Palavra” não se traduziu, é bem verdade, em uma rígida escolástica, mas é um erro desprezar as consequências dessa paixão pelas Escrituras. A marca desse apego está na crença não apenas que a Bíblia é genericamente a voz de Deus, sem implicações práticas, mas que Deus fala ainda hoje ao seu povo, ou seja, Deus é aquele que se revela, seja escrituralmente seja profeticamente.  Ele não apenas se revelou como continuamente se faz transparente!

O pentecostal lê as histórias bíblicas e se identifica com elas. A estrutura epistemológica de muitos pentecostais- especialmente daqueles que vivem no continente africano, na América Latina e na Ásia- está mais próxima da visão de mundo dos cristãos primitivos do que do racionalismo moderno ocidental. O teólogo Robert P. Menzies escreve:

A hermenêutica da maioria dos crentes pentecostais não é excessivamente complexa. Não está cheia de questões sobre a confiabilidade histórica ou repleta de cosmovisões ultrapassadas. Não é excessivamente reflexiva sobre os sistemas teológicos, a distância cultural ou as estratégias literárias. A hermenêutica do crente pentecostal típico é direta e simples: as histórias em Atos são minhas histórias. (grifo do autor).[1]

Não é à toa que as narrativas do Antigo Testamento exercem um verdadeiro fascínio nos púlpitos pentecostais, assim como as histórias de milagres de Jesus nos Evangelhos e dos apóstolos em Atos. A narrativa é, por assim dizer, o grande trunfo de identificação do pentecostal com o mundo bíblico. O pentecostal olha a Bíblia não como uma literatura a ser dissecada pela exegese ou pelos estudos críticos, mas como uma página onde ele pode mergulhar. Assim, para o pentecostal, a Bíblia como estrutura histórica passa a ser mimética.

Mesmo as motivações tortas de rejeição à teologia nutriam uma expectativa de honrar as Escrituras. Os círculos mais anti-intelectuais do pentecostalismo, por exemplo, se baseavam numa autossuficiência exagerada das Escrituras para justificar qualquer ojeriza à formalização da dogmática ou de confissões de fé. O anti-intelectualismo, de certa forma, manifestava uma crença na autonomia do conhecimento advindo pela fé.  O pentecostal antigo era anti-intelectual não porque desprezasse o conhecimento, mas sim porque acredita que o conhecimento tinha como fonte o contato direto com as Escrituras por meio da orientação fideísta do Espírito Santo. Sabemos que isso é problemático, mas é instrutivo observar que esse anti-intelectualismo era mais rejeição ao formalismo do que ao conhecimento em si.

Liberalismo e Pentecostalismo

Enquanto os liberais esperavam traduzir a Bíblia para o homem moderno em um processo científico de desmitologização, os pentecostais não estavam nem aí para a racionalidade iluminista com seu naturalismo científico e, assim, continuaram a orar a Deus pedindo a cura do corpo e o enchimento do Espírito à semelhança dos mais antigos religiosos pré-modernos. Enquanto educados teólogos protestantes do começo do século XX, filhos da burguesia, diziam que a crença em anjos e demônios era incompatível com a eletricidade e os automóveis, os pentecostais se enxergavam como parte atuante de uma batalha cósmica. O pentecostalismo é antimoderno não como militância, mas na vivência. Diferente dos fundamentalistas que usavam ferramentas racionalistas para combater a ideologia moderna, o pentecostalismo optou pelo caminho prático: a oração pelo milagre e a crença que Deus se revela. E diante de um milagre não há desmitologização que se sustente. O teólogo Amos Yong observa apropriadamente:

O surgimento do pentecostalismo nas primeiras décadas do século XX pode ser entendido, pelo menos em parte, como uma reação ao liberalismo e ao modernismo. Ao contrário dos fundamentalistas que, comprovadamente, tinham reagido ao modernismo usando o racionalismo do próprio modernismo; os pentecostais reagiram ao modernismo, em parte, com o desencadeamento de um grito de dentro do espírito humano. A glossolalia simboliza esse “discurso” contramoderno que irritou e derrubou as “gaiolas de ferro” (Weber) do racionalismo iluminista. [2]

O liberalismo procura entender Jesus à luz dos “estudos críticos que descontam a possibilidade do milagroso, os pentecostais, sem hesitação, aceitam o Jesus operador de milagres do Novo Testamento”[3]. A incompatibilidade é totalmente visível. Embora o liberalismo seja em alguma medida útil ao pentecostalismo, especialmente quando critica o excesso de dogmatismo do cristianismo ocidental, ao mesmo tempo, apresenta uma fé tão fluída e sem qualquer base autoritativa que dificilmente lembra a fé pura dos primeiros apóstolos, todavia representa tão somente mais um moralismo filosófico de base humanista. O liberalismo quis ser tão relevante ao mundo moderno que simplesmente se tornou igual ao mundo moderno.

Pentecostalismo e Fundamentalismo

Como já observado acima, a crença antimoderna do pentecostalismo não se confunde com o fundamentalismo. Logo porque o fundamentalismo é uma reação moderna ao liberalismo teológico. O fundamentalismo se vê como ainda mais racional do que o próprio liberalismo. O fundamentalista, como lembra Karen Armstrong, “coexiste com o liberalismo ou secularismo agressivo numa relação simbiótica e, quando atacado, invariavelmente se torna mais radical e exacerbado”[4]. Armstrong aponta outras diferenças importantes entre as duas correntes:

Enquanto os fundamentalistas desenvolviam sua fé moderna, os pentecostais elaboravam uma visão “pós-moderna” que correspondia a uma rejeição popular da modernidade racional do Iluminismo. Enquanto os fundamentalistas retornavam ao que consideravam a base doutrinal do cristianismo, os pentecostais, que não se interessavam por dogmas, remontavam a um nível ainda mais fundamental: a essência da religiosidade primitiva que ultrapassa as formulações de um credo. Enquanto os fundamentalistas acreditavam na palavra das Escrituras, os pentecostais desdenhavam a linguagem que, como os místicos sempre enfatizaram, não podia expressar adequadamente a Realidade existente além dos conceitos e da razão. Seu discurso religioso não era o logos dos fundamentalistas, mas extrapolava as palavras. Os pentecostais falavam em “línguas”, convencidos de que o Espírito Santo descera sobre eles da mesma forma que descera sobre os apóstolos de Jesus na festa judaica de Pentecostes, quando a presença divina se manifestou em línguas de fogo e conferiu aos apóstolos o dom de falar idiomas estrangeiros.[5]

É uma pena que muitos pentecostais, especialmente a partir da década de 1980, tenham abraçado o fundamentalismo como paradigma de cristandade. O fundamentalismo é, no fundo, uma ameaça ao pentecostalismo assim como o liberalismo teológico. O fundamentalismo é mais sutil porque, aparentemente cultiva a ortodoxia, mas sufoca a fé pentecostal com seu racionalismo de tendência cessacionista e com seu espírito sectário. O pentecostalismo, se sectário for, certamente morrerá, logo porque a crença pentecostal aposta na liberdade do Espírito.

Portanto, o pentecostalismo como uma fé antimoderna supera o liberalismo e o fundamentalismo.  Nesse sentido, o pentecostalismo é uma manifestação evangelical antes mesmo do evangelicalismo.




[1] MENZIES, Robert P. Pentecostes: Essa História é a Nossa História. 1 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2016. p 22.
[2] YONG, Amos. Academic Glossolalia? Pentecostal Scholarship, Multi-disciplinarity, and the Science-Religion Conversation.  Journal of Pentecostal Theology 14:1 (2005), pp 61-80. 
[3] MENZIES, Robert P. Pentecostes: Essa História é a Nossa História. 1 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2016. p 98.
[4] ARMSTRONG, Karen. Em Nome de Deus. 1 ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2009. pos 4072.
[5] ARMSTRONG, Karen. Em Nome de Deus. 1 ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2009. pos 4082.


segunda-feira, 12 de setembro de 2016

Rápidas impressões sobre a Conferência Mundial Pentecostal (CMP)

Por Gutierres Fernandes Siqueira

A 24° Conferência Mundial Pentecostal (CMP) foi um evento interessante em diversos aspectos. 
Vejamos:

O evento foi muito bem organizado. Os pentecostais brasileiros são conhecidos pela desorganização. Não sei se essa fama é derivada da nossa práxis carismática ou da nossa brasilidade. De qualquer forma, a organização foi impecável. Eu particularmente não peguei fila ao retirar o meu kit e, segundo um casal de amigos que almoçou no templo, a distribuição de comida funcionou muito bem diante de centenas de pessoas. É claro que houve falhas pontuais, especialmente na qualidade do som, no gerenciamento do conteúdo dos telões e no trabalho de tradução – muitas falas e músicas não tinham acompanhamento em inglês. Mas, no geral, a marca da organização foi positiva.

Os cultos do evento tiveram a imagem e semelhança da Assembleia de Deus, especialmente do Ministério Belém. O Pentecostal World Fellowship é um órgão cooperativo de igrejas e grupos pentecostais de todo o mundo e organiza a Conferência Mundial Pentecostal a cada três anos. Nessa instituição estão denominações como a Igreja de Deus, a Igreja do Evangelho Quadrangular, a Igreja Metodista Wesleyana etc., mas os cultos foram reproduções da liturgia assembleiana local. Isso se explica porque o comitê organizador tinha como nomes principais alguns pastores assembleianos. Não sei como isso foi encarado pelos irmãos de outras denominações que estiveram presentes no evento. O ponto alto dessa “marca assembleiana” esteve na apresentação da orquestra John Sorhein e na banda da igreja do Belenzinho.

Pregações marcantes. Infelizmente, não pude acompanhar as plenárias. Amigos meus que participaram elogiaram a abordagem dada aos temas apresentados pelos pastores estrangeiros. Mas, em compensação, pude desfrutar das pregações. A melhor e mais impactante, certamente, foi ministrada pelo alemão Reinhard Boonke. O evangelista Boonke prega com vitalidade, mesmo diante dos seus 76 anos, e tem mantido uma mensagem cristocêntrica, especialmente focada em salvação de almas. Apesar de simples, a pregação de Boonke simbolizou o melhor do querigma pentecostal.

Um pentecostalismo institucionalizado. O fervor característico do culto pentecostal esteve presente, mas em nada lembrou outros eventos de nomenclatura carismática. Chamou minha atenção quando o evangelista Reinhard Bonnke comparou o culto local com os cultos na África. Após afirmar que gostava de pregar no continente africano Boonke, em forma de exortação e indagação, falou: “o que está acontecendo com os crentes do Brasil?”. A pergunta é pertinente, especialmente no contexto assembleiano, onde há um pêndulo entre o pentecostalismo tresloucado do reteté e o pós-pentecostalismo que cultiva uma fé apenas como monumento histórico e teórico. O desafio sempre será o equilíbrio.

Que outros eventos como esse aconteçam em nosso país!

domingo, 4 de setembro de 2016

24º Conferência Mundial Pentecostal: Está chegando a hora!

Por Gutierres Fernandes Siqueira

Com a permissão de Deus eu vou participar desse evento histórico aqui na cidade de São Paulo (SP). A Conferência Mundial Pentecostal é uma organização de confraternização de pentecostais de todo o mundo. Entre os fundadores desse evento estava o grande teólogo inglês Donald Gee, talvez a melhor mente do pentecostalismo pioneiro. É uma ótima oportunidade de rever irmãos, conhecer outros pentecostais e desfrutar de uma reunião literal de pentecostes, ou seja, com várias nacionalidades reunidas sob o poder do Espírito Santo. Voltarei aqui no blog com as impressões sobre o evento.

Saiba mais sobre o evento acessando: www.24cmp.com.br